
Volume 3 - Capítulo 249
A Virtude do Demônio
Eiro segurou o botão em sua mão e começou a cerrar os dentes. Ele estava irritado. Ele estava frustrado. Ele estava puto.
— Eiro, acalme-se! Calma, está tudo bem! — Nelli disse ao Demônio, tentando tranquilizá-lo e acalmá-lo antes que ele fosse consumido pela influência da Marca da Ira de novo.
O Diabrete permaneceu ali, respirou fundo e se acalmou ao usar magia para baixar a temperatura do corpo, reduzindo assim a ira de sua mente.
— Agora que eu te disse todas essas informações, faça o que quiser. Se tiver qualquer tipo de pista, me conte na hora e investigaremos. — Eiro disse, fechando os olhos enquanto entregava o botão de volta para Bahlsen.
O Demônio se virou e saiu pela porta para ter um pouco de ar fresco enquanto pensava no que acabou de acontecer consigo mesmo. Na sua mente, para se distrair, ele escolheu repassar o que ocorreu várias vezes e ver de todos os ângulos possíveis.
Como o Colecionador foi capaz de enganar os sentidos de Eiro? Como ele conseguiu prever o que Eiro faria? Ele tentou ver cada detalhe sobre ele que pudesse e, no fim, percebeu algo importante.
— Bahlsen. Você já… o viu? — Eiro questionou e o homem dentro do quarto se aproximou da porta.
— Na verdade, nunca. Me faz perguntar se essa foi uma forma de zombar de nós, saber que ele sabe que estamos colaborando na investigação.
— Não vem ao caso. Você deseja vê-lo? — O Diabrete perguntou e Bahlsen assentiu.
— Claro que quero! Isso possibilitaria diminuir em muito os suspeitos!
— Você tem suspeitos?
— Não específicos, mas a lista de todos os possíveis será bastante reduzida.
— Claro… — Eiro suspirou. Ele entrou no cômodo e olhou para um móvel, colocando a mão na bolsa, retirando mais algumas moedas e as entregou para o investigador, então destruiu a mesa sem hesitação para conseguir a perna dela.
— … O que você está fazendo? — Bahlsen questionou com uma carranca e Eiro olhou para ele.
— Não escutou? Perguntei se quer vê-lo.
— Entendo, então você quer esculpir uma figura de madeira dele. Isso pode ajudar.
— Bem, não exatamente… enviei alguém para pegar algo que nos ajudará com tudo. — O Demônio disse. — Ele deve estar de volta quando eu terminar essa estatueta.
Como Bahlsen já havia visto o Três de Espadas, Eiro pegou sua caixa de ferramentas e combinou as lâminas com as ferramentas específicas, começando a esculpir a pequena peça de madeira na frente dele.
Ele queria replicar o Colecionador o máximo possível. Ele recriou tudo da exata forma que recordava e, assim que terminou, se levantou e colocou a estatueta de madeira ao lado em uma das cadeiras.
O Demônio caminhou até a janela e a abriu, dando um passo para o lado.
Bahlsen ficou um pouco confuso.
Um pássaro grande disparou para dentro do quarto, batendo as asas no batente da janela enquanto fazia isso. Suas asas estavam quebradas e Eiro suspirou alto enquanto olhava para a criatura parecida com uma águia.
— Você é idiota. Aqui. — Eiro resmungou. Ele segurou a estatueta de madeira e a levou para Bavet. O slime se transformou em sua forma normal e envolveu a estatueta.
— Cala a boca. — Ele respondeu.
Depois de esperar um tempo, Bavet começou a se transformar. Seu corpo de slime translúcido começou a se parecer com carne e assumiu um formato humanoide. Eiro permaneceu ali e esperou por um bom tempo, enquanto Bavet moldava seu corpo no formato correto.
Depois que a base do formato humanoide foi feita, ele adicionou coisas como roupas. Embora de imediato Eiro tenha ajudado a ajustar coisas como as cores e os detalhes, já que coisas assim eram difíceis de ver em uma estatueta de madeira de cor simples.
O resto, como o rosto, Eiro também ajudou, já que estava moldando o rosto de Bavet para parecer com o do Colecionador. Ele instruiu o Slime sobre como mudar certas partes e como colorir outras, até mesmo adicionando coisas como sua postura e expressão.
No fim, Eiro decidiu que estava pronto.
Fisicamente, Bavet agora parecia com o Colecionador, ou pelo menos como Eiro se recordava dele. Por algum motivo, era difícil se concentrar nele, mas o Demônio pensou que pelo menos sua memória perfeita não iria enganá-lo.
Eiro se virou para Bahlsen e cruzou os braços.
— É assim que ele se apresentou. Não podemos replicar sua voz porque foi alterada. Embora não saiba como foi mudada. — O Diabrete explicou. — Desculpa.
— Não se preocupe… — Bahlsen murmurou enquanto se aproximava de Bavet com uma leve carranca. — Então é assim que ele se apresenta? Esperava que ele parecesse um pouco mais… um pouco…
— Mais louco.
— Essa é uma forma de se dizer, sim. — Bahlsen respondeu a Eiro e o Demônio esperou que o investigador desse uma boa olhada na forma atual de Bavet. — Primeiro de tudo, nem vou perguntar como você conseguiu colocar as mãos em um Slime Sem Forma domado…
Interrompendo Bahlsen antes que ele pudesse dizer mais que isso, Bavet encarou o investigador.
— Vai se foder, não sou domado, vadia. Sou selvagem para caramba! — Bavet disse com uma careta na face, mas, no fim, ele viu Eiro parado atrás de Bahlsen e se calou, enquanto virava a cabeça para o lado. — De-Desculpe…
— É melhor que sim. — Eiro suspirou. — Mas você o escutou, ele não é domado. Acho que é burro demais para ser domado, se eu tiver que ser honesto. De qualquer forma, continue.
Bahlsen olhou de volta para o rosto pálido que Bavet exibia naquele momento e continuou a contemplar.
— Definitivamente posso ver o que você quer dizer com ser inumano. Sabe… Meio que parece como se ele fosse um tipo de Morto-Vivo. Já estava me perguntando sobre isso, desde que muitos Mortos-Vivos possuem a habilidade de criar outros do seu tipo. Zumbis, vampiros e coisas do tipo. Claro, é sempre um pouco diferente dependendo do tipo exato de morto-vivo, mas faria sentido. As criaturas que o Colecionador cria também são mortos-vivos, afinal. Hm, talvez ele possa ser algum tipo de criatura no nível de um Lich?
— … O que você disse? — Eiro questionou com uma carranca profunda.
‘Morto-Vivo? Isso não é… uma coincidência grande demais? Não há como ser isso.’
Num dia, ele descobre que o rei dos mortos-vivos <A Morte> está preso nesta cidade e no dia seguinte o Colecionador também era algum tipo de morto-vivo?
‘Que merda é essa?’
Eiro esfregou a ponta do seu nariz em contemplação enquanto olhava para o chão. Era coincidência demais a este ponto. Com um grito, Eiro olhou o teto.
— Que se foda. Por que as coisas não podem ser mais simples? Por que isso não poderia ser algo em que eu tivesse que matar um assassino fraco e miserável? Em vez disso, tenho que lidar com alguém que tem relação com um nobre?
O Demônio murmurou alto, alto o suficiente para que Bahlsen o escutasse, mas, claro, Eiro não tinha intenção de esconder isso de qualquer forma. Contar para Bahlsen sobre isso era o melhor curso de ação, considerando que ele conseguia conectar as peças com mais facilidade que Eiro.
Portanto, foi isso que Eiro fez. Óbvio que ele não contou a história toda para Bahlsen. Não disse onde <A Morte> estava, ou que forma assumiu. Tudo o que falou foi que o Rei dos Mortos-Vivos estava nessa área e que acreditava ser esse o motivo pelo qual o Colecionador veio para cá agora.
— Entendo… Isso faria sentido… mas… tem certeza de que <A Morte> está de fato aqui? Isso parece ainda mais problemático de lidar do que o Colecionador, se eu tiver que ser honesto com você, afinal, o Colecionador mata de forma controlada e em pequenas quantidades se comparado com o que algo como <A Morte> consegue fazer. Ele sempre é dito como agressivo, afinal. — Bahlsen comentou e Eiro assentiu. Ele concordava, mas não era neste ponto que estava tentando chegar.
Ele não queria mudar a atenção deles do Colecionador para <A Morte>, na verdade, queria manter em ambos, desde que era óbvio que eles estavam relacionados de alguma forma.
— Não sei dizer há quanto tempo está aqui, mas acho que só faz alguns meses. Não mais que um ano, disso tenho certeza.
— Hmm… Então já faz bastante tempo. Talvez o Colecionador só tenha descoberto agora onde <A Morte> está? — Bahlsen sugeriu e Eiro cruzou os braços, pensativo.
— Talvez sim, mas vamos esperar que o Colecionador e <A Morte> sejam inimigos mortais e que tentarão se matar quando se encontrarem. Se tivermos sorte, o Colecionador será forte o suficiente para enfraquecer o Nobre um pouco, então podemos nos livrar dele com mais facilidade. — Eiro resmungou.
Ele estava um pouco incomodado com essa situação. Isso não era algo que esperava que teria que fazer e não era algo que gostaria de ter que lidar de repente, mas, pelo menos ainda tinha o mesmo tipo de benefício que teria se estivesse lutando contra <A Morte>, considerando que tinha acesso a um tipo de material muito especial que poderia usar, um que tornaria muito fácil matar mortos-vivos.
Mesmo assim, Eiro precisaria conseguir atingir o Colecionador, o que não conseguiu realizar mesmo em um espaço pequeno e estreito como o quarto desta pousada.
Eiro suspirou e olhou para Bahlsen com os braços cruzados.
— De qualquer modo, isso é mais do que você descobriu sobre ele há um tempo, não é?
Sem hesitação, o investigador acenou a cabeça.
— Com certeza… Estou feliz por ter conseguido te conhecer, Eiro.