A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 248

A Virtude do Demônio

Eiro correu pela cidade depois de voar até os arredores para economizar um pouco de tempo. Primeiro de tudo, tinha que encontrar Bahlsen. Claro, enquanto fazia isso, estava fundido com Gondos para que conseguisse encontrar, se possível, o cheiro do Colecionador, caso ele tentasse se esconder como antes.

Ele foi até a pousada de Bahlsen e entrou. Eiro subiu as escadas e logo chegou ao quarto do investigador, mas quando o fez e estava para bater na porta de madeira, notou uma mudança súbita dentro do quarto.

Ela não veio de Bahlsen, isso era certo. Era completa diferente dele. Eiro colocou a mão na fechadura e fez Bavet ajudá-lo a se transformar na chave correta para essa fechadura, girando-o e abrindo a porta.

Por algum motivo, a pessoa que estava dentro não estava nem tentando se esconder, mas não havia dúvidas para Eiro: esta pessoa era o Colecionador.

Seu cheiro penetrou nas narinas do Demônio e toda a aura que ele emitia era como Eiro imaginou que seria.

Ele permaneceu ali, vestindo um longo sobretudo preto sobre seu terno preto. As únicas partes que não eram pretas eram os poucos detalhes em prata e vermelho adicionados ao traje. Até o chapéu que ele vestia era preto, com algumas costuras vermelhas e prateadas.

O cabelo do homem era preto como breu e estava amarrado em um rabo de cavalo. Ambos seus cabelos e roupas contrastavam com sua pele de alabastro, que parecia brilhar na escuridão, enquanto suas íris vermelhas pareciam brilhar em Eiro, como se fossem holofotes.

— Ah, então você é o assistente de Bahlsen, não é? Você possui um conjunto bastante útil de habilidades, sabia? — Ele comentou. Sua voz era difícil de captar e identificar. Por algum motivo, Eiro não tinha certeza se a voz dele era aguda ou grave. Só era difícil de identificar.

Eiro permaneceu ali, pensando sobre como atacar o Colecionador. Logo pensou em uma boa maneira, mas não importava o que ele fizesse, pois assim que tentou ajustar seu corpo para a preparação do ataque, o Colecionador começou a se mover.

Seus pés deslizaram pelo chão, enquanto parecia que o resto do seu corpo estava preso em uma única posição. De imediato, Eiro retirou a adaga da sua tesouraria e a mirou na direção do peito do homem, mas no instante em que deveria perfurá-la através das roupas do homem… Eiro percebeu que não havia ninguém ali. Não, em vez disso, o homem estava parado bem atrás do Demônio e agarrou seu queixo com a mão.  

Sua força era avassaladora, tanto que Eiro nem tinha esperança de se mover, mas, por alguma razão… isso o recordou do trauma que ainda não superou. Ele esperava que tivesse, mas não.

Isso o recordou daquela vez na loja de Zaragon.

Os batimentos do Diabrete dispararam e ele se sentiu tomado por um pânico que não queria experienciar jamais. Sem ter controle sobre seu corpo, Eiro parou de infundir sua cauda com o elemento sombra e a empurrou sob sua caca, usando-a para esfaquear o Colecionador.

Ele conseguiu desviar de alguma forma, mas ainda assim… Eiro não conseguiu escutar o som de um botão de madeira caindo no chão. O Demônio conseguiu acertá-lo, então o Colecionador não era completamente invencível para Eiro. Agora que conseguiu se acalmar um pouco, o Diabrete pensou que, na realidade, tinha uma boa chance de matar esse cara.

Ele pulou para frente, usando suas duas adagas, assim como seu ferrão, para tentar atacá-lo o máximo possível. Seu foco não estava em causar muito dano de uma vez, um pouco seria suficiente. Contanto que Eiro fosse capaz de feri-lo, conseguiria o sangue do Colecionador. Então, ele nunca mais conseguiria escapar de Eiro. Neste ponto, ele teria informações demais sobre ele.

De alguma forma, não importa o quanto Eiro tentasse, era incapaz de acertar o Colecionador de novo. Ele desviou de todos os ataques de Eiro. Ele estava brincando com o demônio. Eiro cerrou os dentes e retirou o Ás de Copas, ativando-o imediatamente.

A fúria das lâminas de Eiro pode ter o surpreendido um pouco, mas ainda não o machucaram. Claro, o Colecionador parecia estar tendo dificuldade, mas ainda não perdeu aquele sorriso assustador. Ou pelo menos o que Eiro pensava ser um sorriso, mas ele não tinha certeza a esta altura.

De repente o Colecionador olhou para Eiro com seus olhos vermelhos e brilhantes.

— Foi bom brincar com você. Tenho que buscar outra peça do meu quebra-cabeça.

E, sem hesitação, o Colecionador se virou e saiu pela porta, cruzando a esquina e seguindo pelo corredor. Por qualquer que seja o motivo, o pensamento de segui-lo nem passou pela mente de Eiro até que fosse tarde demais. Ele correu pelo corredor e se virou bem no lugar em que o Colecionador foi, mas em vez de vê-lo caminhando ali, Eiro viu outra coisa.

Ele viu o rosto de Bahlsen de perto, porque, por algum motivo, ele estava parado ali.

— Erm… Eiro, o que você está fazendo aqui? Não me lembro de te convidar… Considerando que estava tomando café da manhã, pelo menos. — Bahlsen comentou com um sorriso irônico. Eiro o empurrou para o lado e olhou para trás dele, mas era tarde demais.

— O Colecionador estava aqui. — Eiro disse com um tom caloroso para que Bahlsen pudesse compreendê-lo. Sem um momento de hesitação, o investigador encarou Eiro, entrou no quarto que alugou na pousada e olhou ao redor. Havia alguns danos nos móveis, paredes, decorações, então ele olhou para Eiro, encarando as lâminas flutuando no ar ao lado dele.

— Poderia ser um pouco mais cuidadoso da próxima vez? Não tenho todo o dinheiro do mu-

— Cale a boca, procure por pistas ao redor e deixe-nos encontrar aquele filho da puta inumano. — Eiro rugiu, enquanto colocava a mão na sua bolsa e retirava algumas moedas que seriam mais do que suficiente para cobrir os danos do cômodo, então cruzou os braços, tentando se recompor.

Mas depois de escutar as palavras de Eiro, Bahlsen concentrou-se em outro detalhe.

— O que você quer dizer com ‘inumano’?

— Hm? Nada especial, ele não emitia a mesma sensação que uma pessoa qualquer, mas o que tornou isso claro para mim é o fato de que suas íris são vermelhas. Com exceção dos albinos, não existem humanos com olhos assim. ele possuía cabelos pretos como breu que não pareciam tingidos, além disso, pelas suas proporções e características gerais, ele parecia ser um humano em vez de algo como um Alto-Elfo. Estes algumas vezes possuem olhos vermelhos. Então acho que ele usou algo para mudar a cor dos seus olhos ou cabelo, ou no mínimo é parte monstro. — Eiro explicou para Bahlsen, que já estava procurando por pistas que poderiam ajudá-los a descobrir mais sobre o Colecionador.

O investigador se ajoelhou no chão e pegou o botão de madeira caído ali.

— Hm…? Este não é um material que eu conheça… Acho que pode ser algo de outro mundo…

— Hein? Não é não. — Eiro respondeu sem pestanejar e o investigador o encarou com uma carranca.

— Escute, entendo que queria ajudar, mas depois de destruir meu quarto enquanto eu estava fora, o mínimo que pode fazer é me deixar fazer o que faço de melhor. Esta madeira é de um tipo muito mágico, mas já estudei sobre várias madeiras diferentes e não existem tipos que sejam tão inerentemente mágicos como essa no nosso mun-

Antes que o investigador pudesse terminar, Eiro retirou a luva da sua mão direita e levantou a sua prótese de madeira na direção dele.

— Se você quiser discutir sobre madeiras, então eu sou o melhor, sim. Você está certo, esse é um pedaço de madeira mágico. Parece ser feito de uma lágrima hurthan, que é infundida com altos níveis de mana pura, assim como um toque de magia da escuridão. Acho que essa madeira foi retirada de um galho com três meses de idade. Essas árvores em particular crescem nas profundezas do Deserto Pallendiano ao redor do Oásis Sombrio, criado pela mana que ainda vaza do portão fechado para a Queda Escura. É um local protegido que algumas pessoas podem encontrar e menos ainda conseguem retirar madeira dessas árvores sem serem mortas por um Drikasi.

O investigador encarou Eiro com clara surpresa.

— Como você sabe tanto sobre um tipo aleatório de madeira?

— Pode não parecer, mas a profissão que espero me estabelecer no futuro é a de Protesista. Coincidente meu professor era um dos poucos que tinha acesso a esse tipo especial de madeira. Tenha alguma comigo, na verdade estou me preparando para mandar alguém pegar todos os outros tipos de madeira na minha antiga casa. — Eiro explicou. — Isto é, se elas ainda estiverem lá.

O investigador olhou para Eiro com um sorriso irônico.

— Sim, não é algo que esperava, mas isso… é meio que uma coincidência, não acha? Encontrar duas pessoas com acesso a esse tipo de material no mesmo lugar… Eiro, seu professor não-

— Ele está morto e era um pai para mim, então, se você proferir mais uma palavra que seja, eu te mato e pego essa merda de Carta de Cavaleiro para mim mesmo. Entendido? — Eiro rosnou, embora tivesse que admitir, Bahlsen estava certo. Era uma coincidência estranha.

Eiro mexeu sua mão e pegou o botão de madeira, encarando-o com a ajuda de Gondos para sentir coisas como mana e a energia vital com mais facilidade.

Assim que Eiro fez isso, quase destruiu o botão em sua mão.

— Esse pedaço de lixo completo. Ele pegou a cauda daquela criança?

Bahlsen olhou de volta para Eiro, confuso, enquanto o Demônio cerrava seus dentes. O Diabrete não conseguiu acreditar que o Colecionador iria, ou poderia, pegar a cauda protética de um jovem Dragão da Morte, como aquele que Jura ajudou.

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