
Volume 3 - Capítulo 247
A Virtude do Demônio
Eiro levantou-se devagar, seu corpo lento devido ao frio extremo ao qual esteve exposto nas últimas horas. Pelo menos isso parecia ter funcionado e a fúria de Eiro desapareceu. Isso não significava que ainda não estava bravo com toda essa situação, apenas que não precisava se preocupar em perder o controle tão fácil.
Para que conseguisse se livrar dos efeitos de congelar seu corpo com temperaturas que matariam qualquer um, o Demônio parou de inserir magia de gelo nas runas e, em vez disso, usou magia de fogo.
Quase imediatamente o ar frio desapareceu e começou a queimar, todo o corpo de Eiro estava pegando fogo, mas ele não queria sair do frio relaxante para o calor, só queria se aquecer um pouco. Portanto Eiro parou com isso e saiu desse cômodo escondido. Quando saiu, certificou-se de que tudo estava funcionando como antes, especialmente que sua prótese estava bem depois de ficar sujeita às temperaturas tão extremas.
Enquanto estava parado ali, Nelli flutuou até ele e tentou assegurar que ele estava bem, checando cada parte do corpo dele para ter certeza de que ele não tinha algum tipo de queimadura de repente. Enquanto isso, Gondos estava interessado em algo mais.
— Na verdade, para que você acha que o antigo dono deste lugar construiu um cômodo como aquele? Vocês dois parecem possuir um nível similar de excentricidade, mas duvido que sejam tão parecidos ao ponto de até ele se beneficiar de ser exposto aos elementos como você é.
— Você está certo, ele não é. Isso era para algo diferente. — O Demônio comentou. — Embora não tenha encontrado nenhum documento pertencente àquela sala especifica, li algumas coisas relacionadas à fusão elemental permanente ou algo como uma ‘transformação natural’, na qual a natureza de um objeto ou material é mudada. Não sei se funcionou, mas a teoria era que seria possível tornar a infusão com certos elementos de alguma forma permanente.
— Infusão permanente? Isso não parece algo impossível? Infundindo com algo que requer uma quantidade massiva de mana e controle sobre isso, então ter algo desse tipo de modo permanente do jeito que estou imaginando parece um sonho maluco. — Gondos adicionou e Eiro cruzou os braços enquanto se vestia.
— Bem, eu pensei o mesmo a princípio, mas então comecei a refletir um pouco. Tal infusão permanente não deve ser impossível, se você pensar um pouco. Veja bem, a teoria é baseada em um único conceito: ‘diminuir o limiar’. Ela diz que certos objetos possuem um limiar que precisa ser superado para infundi-los com magia e esse limiar para tipos específicos de magia diminui em uma quantidade minúscula quanto mais é infundido com esse tipo específico de magia. Em algum ponto, eles acabariam sendo infundidos com a magia natural desse tipo que paira no ar e, neste momento, começariam a absorver mais desse tipo e começariam a se infundir permanentemente. Como se você definisse um ponto em que a madeira começaria a queimar em temperatura ambiente. Ela entraria em combustão, certo? — O demônio explicou. Era um conceito no qual Eiro estava bastante interessado.
Afinal, se fosse possível criar certos objetos que estariam infundidos com magia, poderia ser possível fazer algo semelhante com seres vivos e, dessa forma, Eiro conseguiria aprimorar sua agilidade, força e defesa, dependendo do tipo de elemento com que tentasse se infundir.
Enquanto Nelli e Gondos refletiam sobre o que essa teoria significava se pudesse ser usada, Eiro continuou.
— De acordo com o antigo dono deste lugar, é isso que acontece com evoluções específicas de monstros. Então, se um monstro evolui para uma versão elemental de si mesmo, como um Lobo Faísca que pode evoluir para um Lobo Mágico, o limite mínimo para ser infundido com um elemento específico é diminuído ou removido, ao mesmo tempo que a infusão alcança um novo nível e profundidade.
— Então… — Gondos começou. — Aquele cômodo era para testar essa teoria?
— Exato. Na verdade, parece ser um pouco mais do que isso, algo mais desenvolvido. Neste momento, só consegue criar um ambiente que representa aqueles elementos, mas não infunde nada de fato. Acho que pode estar quebrado em algum lugar, ou nunca foi completado e era para concentrar uma quantidade enorme de magia elemental em um ponto específico em níveis incríveis para infusão elemental. Eu já esperava transformar aquele em um novo lugar para me infundir de maneira ainda mais eficiente.
Depois de escutar a expectativa de Eiro, Nelli recordou de algo.
— Na realidade, quando você acha que conseguirá a habilidade Magia da Natureza? Quero dizer, você possui ambas as habilidades de magia de terra e de água e até conseguiu fazer algo insano como despertar o elemento avançado das sombras antes mesmo de ter qualquer afinidade com o elemento escuridão, então… — A Náiade comentou e Eiro cruzou os braços em contemplação.
— Sim, honesta, eu também gostaria de saber isso. Estou esperando por isso, na verdade. Você pensaria que eu já a tenho, considerando quanto me infundi com isso, mas, por outro lado, elementos baseados em outros dois elementos são muito mais difíceis de conseguir do que coisas como o elemento sombra. Nem sabemos ainda de fato como muito disso funciona, então é tudo meio caótico. Pode ser uma coincidência por ora, mas daqui a uma centena de anos, pode ser normal conseguir o elemento sombra primeiro. — O Diabrete comentou, tentando justificar de algum modo, mas, no fim, os três sabiam que esse não era o caso e que Eiro estava dizendo qualquer coisa que vinha à sua mente.
Porém, antes de fazer qualquer coisa Eiro foi até a sala que escolheu como seu escritório. Era um cômodo comum, tinha muitas estantes de livros, espaços de armazenamento, uma mesa legal e outros móveis em que as crianças poderiam se sentar quando visitassem, além de uma linda vista para fora.
Bem, isso de dentro. A sala não era um cômodo ‘normal’, como parecia. E claro, Eiro sabia disso antes de selecioná-la como seu escritório, mas era um lugar imune a qualquer tipo de Magia de Adivinhação ou meios físicos de espiar o que estava dentro.
Até mesmo as janelas mostravam um cômodo vazio quando alguém tentava olhar de fora. Pelo que Eiro sabia, ocorria o mesmo até quando se tentava olhar pelo buraco da fechadura da porta. O som também não parecia sair do cômodo, embora o som de fora ainda entrasse e Eiro conseguia ver tudo o que queria do lado de fora da janela, daqui de dentro.
No fim, todas as janelas pareciam ter algum tipo de efeito de distorção similar, no qual seria muito difícil ver o que acontecia dentro do cômodo pelo lado de fora, mas este era um pouco mais forte do que o resto da mansão e Eiro não se importava. Aqui, ele poderia relaxar, se concentrar nos seus projetos e fazer o que sentisse vontade.
E como este lugar tinha um bom arranjo para leitura, ele preferia pegar alguns livros da biblioteca e trazê-los aqui, em vez de lê-los lá. Na maioria das vezes, Eiro acabava se distraindo com todas as coisas incríveis que havia na biblioteca escondida para se concentrar no que estava lendo.
Isso se tornou muito pior depois que a Inteligência de Eiro ultrapassou a marca de 300 pontos e seu raciocínio se tornou mais rápido. Isso também o tornou melhor em multitarefas, mas não o permitia ter duas linhas de pensamento diferentes.
Isso fazia com que Eiro percebesse tudo o que ocorria ao seu redor, mas quando algo em particular além do livro chamava sua atenção, ele prestaria mais atenção a isso e sua leitura era interrompida.
E como Eiro não queria que isso ocorresse, mas que mergulhasse nos livros sempre que pudesse, escolheu fazer deste lugar seu escritório, onde passaria a maior parte do tempo. Além disso, apesar de possuir bons lugares para ler, a biblioteca não tinha nenhum lugar particular incrível para fazer anotações, já que não havia mesas lá.
Eiro não queria começar a esculpir aleatoriamente suas estatuetas de prática na biblioteca. Ele ainda as fazia sempre que tinha tempo, tentando criar esculturas de novas criaturas ou trazer as antigas a um novo nível de realidade.
E esse era o objetivo de Eiro com tudo isso. Ele queria realizar o que Jura queria dele, a habilidade de criar vida. Por algum motivo, Eiro ainda tinha um pouco de dificuldade em criar coisas que parecessem vivas, provavelmente por estar mais focado nos aspectos físicos que conseguia sentir, em vez do que havia além disso.
Claro, para qualquer espectador comum, essas estatuetas de madeira poderiam parecer formas vívidas de diferentes monstros, mas, no fim, não eram perfeitas. As pessoas ainda as reconheceriam como o que deveriam ser: estatuetas. Isso ocorria mesmo se Eiro criasse versões de tamanho real dessas estatuetas, não havia dúvidas disso.
Mas o que Eiro queria que as pessoas pensassem quando vissem suas esculturas era que elas estavam vivas, que uma besta selvagem estava prestes a pular nelas. Eiro ainda não conseguia fazer coisas como manipular a ‘aura’ das estatuetas.
Ele tinha que ser capaz de mudar a energia ao redor delas e mudar a natureza delas aos olhos de quem as via.
Mas, assim que Eiro pensou nisso, percebeu outro detalhe.
— É isso! Isso é parte da habilidade de furtividade, mudar a aura que algo emite! Ele deve ter usado essa habilidade para se afastar da porta de Bahlsen! — Eiro exclamou, como se tivesse solucionado algum tipo de enigma. Na verdade, isso não o ajudava muito a descobrir onde o ‘Colecionador’, o assassino em série, de fato, estava agora.
Para isso, Eiro tinha que se encontrar com Bahlsen de novo e fazer mais algumas perguntas para ele.