
Volume 3 - Capítulo 246
A Virtude do Demônio
Eiro deixou o corpo do diretor para trás, já que não queria mais lidar com ele. Estava enojado demais para tocá-lo, ainda mais que estava morto, mas, por algum motivo, Eiro pensava que fazer isso diminuiria sua fúria, mas não. Eiro ainda se sentia bravo e não sabia por quê.
Ele não queria lutar mais e arriscar enlouquecer de novo, então, em vez disso, escolheu segurar sua fúria e guiá-la nas direções que queria, pois queria evitar que algo ruim acontecesse se não fosse cuidadoso.
Por ora, o Demônio pegou o coração transformado em relógio, o filactério <A Morte> e começou a voar de volta para a capital. Era bastante tarde neste momento, mas Eiro não se importava muito. Contando que estivesse lá para cumprimentar suas crianças de manhã, ficaria bem estando fora a noite toda.
O Diabrete foi em direção ao castelo e pousou em uma área que não estava sendo observada no momento, disfarçando-se com sua máscara e capa, atravessando o portão principal do castelo.
Os guardas estavam um pouco hesitantes em deixá-lo entrar nesta hora, mas depois que Eiro disse a eles que teria uma emergência que tinha que discutir com o Rei, eles o permitiram ao seu próprio risco, mas Eiro não dava a mínima para qualquer tipo de ‘risco’ relacionado a isso. Ele sabia que Solomon não o mandaria ser decapitado porque seu sono foi interrompido.
Eiro atravessou o castelo e logo chegou ao escritório privado de Solomon, onde o Rei ainda estava a esta hora do dia, algo que Eiro não esperava pois Solomon parecia bastante despreocupado na maioria das vezes em que interagia com ele, mas isso acontecia por causa do contraste, se comparado ao seu primeiro encontro com ele em Argberg, ser tão imenso.
O Demônio bateu na porta por cortesia e logo escutou o Rei chamá-lo do outro lado. Eiro abriu a porta e entrou, removendo sua máscara quando se certificou de que não havia mais ninguém por perto.
As luzes fracas que Solomon estava usando eram suficientes para que conseguisse ler documentos importantes na mesa, eram fortes o suficiente para revelar os olhos injetados de sangue de Eiro. Solomon pulou da sua cadeira e passou pela mesa quando viu seu amigo neste estado.
— Eiro! Está tudo bem? Você está ferido? — Ele perguntou preocupado, mas Eiro balançou a cabeça.
— Não, estou bem. Só estou bravo, ou melhor, furioso, mas nada além disso.
— Furioso, você quer dizer que aquela marca está agindo de novo? — Solomon perguntou com uma carranca preocupada, mas Eiro abriu a bolsa ao lado do seu corpo.
— Algo do tipo, eu acho. Ela não está agindo; tenho bastante controle sobre ela dessa vez. Embora tenha matado o diretor da prisão há cerca de uma hora.
Solomon se assustou por um instante enquanto tentava processar as palavras do Diabrete, se virando uma expressão brava.
— Você fez o quê?! Eiro, você sabe o que fez? Claro, quanto eu te disse sobre os problemas daquele lugar, disse que não gostava dele, mas não podemos fazer algo do tipo sem saber o que está acontecendo naquele lugar! Todos os guardas assinaram um contrato mágico que impossibilita que revelem qualquer informação e os prisioneiros são forçados a situações similares. Estamos-
Antes que Solomon terminasse, Eiro retirou o cilindro de vidro contendo o Filactério.
— Solomon, aquele cara deu seu próprio filho para <A Morte>, que assumiu o corpo da criança e transformou seu coração neste item que o Diretor exibia orgulhoso em sua própria mesa. <A Morte> Atual está presa no fundo daquela prisão, mas parece que eles não a têm sob total controle. Um zumbi criado por <A Morte> estava tentando levar o coração ao seu mestre para que ele pudesse recuperar todos os seus poderes.
O Rei virou sua cabeça em direção ao coração brilhante e pulsante que tinha engrenagens e ponteiros de relógios embutidos, caindo de joelhos enquanto o encarava.
— Você está… está dizendo que aquele homem fez isso com seu próprio filho?
— Sim. A criança dele foi transformada em um lich, Solomon. O diretor tratava este filactério como uma lembrança doentia. — Eiro disse e o rosto de Solomon ficou branco.
— Acha que consegue matar <A Morte>? Ter esta coisa aqui é… horripilante — O Rei comentou e Eiro olhou para o filactério.
— Considerando que tenho isso comigo, acho que pode ser possível, mas precisamos considerar o que faremos a seguir. Veja, se alguém incompatível com a Carta do Arcano Maior mata um Nobre, a Carta desaparece e surge em um local aleatório do mundo, por isso que as pessoas nunca conseguem colocar suas mãos nelas, mas, além disso, se outro nobre mata um nobre o mesmo acontece. Espero que este não seja o caso, visto que sou apenas um candidato, mas teremos que estar preparados para a possibilidade de a carta desaparecer quando eu matar <A Morte>.
— … vale a pena o risco, eu acho. Se a Carta desaparecer, no pior cenário, encontraria um dono adequado e criaria um novo Nobre, mas um novo Nobre é fraco se comparado ao <A Morte> atual. E, por outro lado, se a Carta não desaparecer… confio que ficará segura em suas mãos. Desse modo, teremos derrubado duas forças incríveis do lado do Rei dos Monstros.
— Se é o que acha, então, claro. Vamos tentar. — Eiro disse sem pestanejar, embora Solomon tenha suspirado depois que escutou o tom do demônio.
— Não aja como se não tivesse planejado isso. — Solomon disse enquanto se levantava, com seus olhos ainda concentrados no filactério. Ao ver isso, Eiro ficou um pouco preocupado. Não parecia com o comportamento natural de Solomon, então o Demônio pegou o vidro e o guardou de volta na sua bolsa.
— Desculpa, tentarei esconder melhor da próxima vez. — O Diabrete sugeriu e o Rei na sua frente riu estranhamente.
— Claro, faça isso, mas por agora vá e se prepare para sua luta contra <A Morte>. Não se preocupe com o resto. Contanto que não o tenha deixado nas ruas, conseguirei lidar com a situação com o diretor.
Enquanto se virava, Eiro permaneceu em silêncio, já que não tinha certeza de como deveria reagir. Parecia que Solomon percebeu isso até certo ponto.
— Eiro, onde você deixou o corpo do diretor? — O rei questionou com uma carranca. Eiro vestiu de novo sua máscara e abriu a porta, preparando-se para sair.
— Não nas ruas, não se preocupe.
Com isso, algo que não era mentira, Eiro saiu do escritório de Solomon e foi para fora do castelo para que pudesse retornar para sua própria mansão.
—
— Então, o que você fará agora? Não parece que sua fúria diminuirá tão cedo. — Nelli apontou e Eiro assentiu enquanto colocava o filactério em um local seguro, um cofre extra de proteção criado com magia espacial dentro da biblioteca da mansão.
— Eu sei. Acho que devo me esfriar ou algo assim enquanto penso um pouco — Eiro sugeriu, mas Bavet, que estava combinando com seu slime de novo e transformado em sua forma humanoide, olhou para ele com uma leve carranca.
— Acho que ela está perguntando como exatamente você se acalmará, cara. — Bavet comentou e Eiro encarou o slime com sua própria carranca, já que era incapaz de exibir qualquer outra expressão agora.
— Eu sei, idiota. Essa é minha resposta. Irei me esfriar. — Eiro respondeu enquanto saía da biblioteca.
Ele subiu por uma das passagens secretas até que chegou à sala escondida localizada no topo da torre mais alta da mansão. Parecia um lugar para pesquisar magia, especificamente os elementos.
Eiro não conseguiu descobrir qual o propósito deste lugar por um longo tempo, até que tentou analisar os círculos mágicos esculpidos nas paredes e percebeu que eles não eram feitos para as distorções espaciais dentro da mansão que criavam cômodos secretos, mas algo muito diferente.
O Diabrete subiu a escadaria escondida, que logo se fechou atrás dele e se sentou no centro da sala. O espaço estava completa vazio, o que deixou Eiro ainda mais confuso, mas, pelo menos, era por uma boa razão.
Ele havia se despido para isso, já que não queria destruir suas roupas e deixou suas asas e cauda penduradas atrás dele. Para isso, nem Bavet, nem Nelli, nem Gondos ficaram com Eiro, pois era perigoso demais para aqueles três.
Enquanto Eiro permanecia ali na sala, respirou fundo e inseriu sua mana nos círculos mágicos e runas gravadas por toda parte neste cômodo, fazendo todo o local começar a brilhar com uma luz branca. Essa luz branca logo assumiu um tom azul-claro, enquanto Eiro usava Magia de Gelo. Ou assim tentou, pois a natureza da sua própria mana mudou, amplificada pelos entalhes em toda a sala.
A temperatura dentro do cômodo caiu para temperaturas que matariam um ser normal em um instante, mas Eiro ainda se sentia um pouco confortável.
Devagar, enquanto a temperatura alcançava até o ponto que Eiro queria, no qual conseguia sentir suas funções físicas desacelerarem devido às baixas temperaturas, ele deitou-se no chão e aproveitou o frio enquanto sua fúria desaparecia devido ao fato de que era fisicamente incapaz de ficar irritado naquele momento.
Assim, o Demônio aproveitou o frio por um tempo enquanto permitia que diferentes pensamentos passassem por ele.