
Volume 3 - Capítulo 245
A Virtude do Demônio
O Diretor encarou Eiro com uma expressão aterrorizada, afinal o demônio estava parado ali com suas asas soltas atras atrás de suas costas, contorcendo-se de vez em quando, e seus chifres refletiam o luar. O nobre pressionou a palma contra seu olho direito devido à sensação de queimadura que sentia depois de ter o charuto aceso pressionado contra ele.
Ele deu um passo para trás, cerrando os dentes.
— Qu-Quem é você?! O que é você?! — Ele exclamou e Eiro inclinou suas costas contra o parapeito da varanda, enquanto retirava o charuto da sua boca.
— Sou o cara que irá te matar hoje à noite, nada mais que isso. — O Diabrete explicou com um leve sorriso. O Diretor ficou pálido como a neve que estava no chão ao redor da mansão.
— M-Mas, você- — Ele gaguejou em pânico. — O que você quer de mim?! — O Diretor se interrompeu, questionando o que era mais importante na sua mente neste instante.
— Você já viu que eu tenho sua pequena ‘lembrança.’ Tudo o que quero é fazer algumas perguntas sobre ela e depois, lenta e dolorosamente te despedaçar. Claro, isso será doloroso para você, não para mim. Só para que nos entendamos.
— Isso não tem nada a ver com você! Vá embora! Me deixe em paz! — O Diretor gritou, tentando correr em direção à porta da mansão que levava de volta ao salão de festas, mas seus pés ficaram presos no solo devido à camada de gelo que cresceu ao redor deles do nada.
— Nem ouse tentar. Eles não podem te escutar, sabia? — Eiro comentou enquanto fechava os olhos, com o branco deles ainda tingidos de vermelho. — Agora me responda, ou terei que torturá-lo. E confie em mim, você não irá querer que eu te torture. — O Demônio disse com um sorriso.
O tempo todo o Diretor estava nervoso e com pânico devido à aura de fúria que Eiro estava emitindo, apesar do tom calmo em sua voz. Era assustador e o aterrorizava para caralho.
Nervoso, o Diretor passou sua mão pelo cilindro de vidro contendo o coração que foi transformado em um relógio, pegando-o e puxando-o até o seu peito.
— Is-Isso é meu… Isso é tudo que restou do meu filho, sabia?!
— Bem, isso deveria ser ótimo. Honestamente até mesmo eu manteria alguns objetos para me recordas das minhas crianças, não que eu goste do fato e que elas talvez morram antes de mim, mas isso seria na forma das cinzas delas e não em seus corações ainda batendo através de necromancia. Sem mencionar como você está exibindo isso por aí, depois de transformá-lo em algum tipo de item mágico doentio. — O Demônio disse com nojo, sem querer desperdiçar palavras. Para Eiro, parecia esse tipo de coisa, o que o Diretor estava fazendo com o coração do seu filho, era além de doentio.
Mas o Diretor parecia ter outra mentalidade. Apesar de que ele tenha dito algo bastante interessante.
— Você não sabe de nada! Você sabe como é perder o seu filho?! Sabe?! O que eu deveria fazer, deixá-lo ser tirado de mim para sempre?!
As palavras que o Diretor escolheu eram um pouco… estranhas. Como se…
— O que aconteceu com o seu filho? O que você fez com ele?
O choque e medo do Diretor começaram a se transformar em ódio puro que ele quase não conseguia controlar.
— Eu sei! Fiz algo horrível com o meu filho, mas o que mais eu deveria fazer, deixá-lo morrer na minha frente?! Ele estava doente, nem mesmo curandeiros experientes conseguiram ajudá-lo! Era a única forma que eu tinha para assegurar que ele não morresse! Eu não sabia que iria transformá-lo naquela… naquela… naquela… coisa!
Devagar, Eiro se deu conta do que estava acontecendo. O que o Diretor havia feito. Tudo começou a se encaixar.
— A morte é atemporal. A morte não vacila, não importa quantos tiques do relógio passem. — Eiro murmurou, todo seu corpo tensionando e a fúria do Diretor desapareceu de novo. Era como se a fúria que tivesse acumulado ao responder as perguntas de Eiro fossem uma mentira, ela foi completamente substituída por desespero.
O Diretor caiu de joelhos e encarou Eiro.
— On-Onde você escutou isso…?
E essa foi a confirmação que Eiro precisava para confirmar que seu palpite terrível estava de fato correto.
Entre as Cartas do Arcano Maior, havia duas que podiam afetar aqueles que não eram monstros. Primeiro, <O Louco>. Era uma Carta com que todo ser vivo poderia se conectar, sem exceção. Monstros, Bestas Mágicas, Pessoas… Um dos antigos portadores do <O Louco> foi um antigo carvalho no qual a Carta foi alojada durante algum momento. Nem mesmo uma Dríade, um carvalho normal.
Mas havia outra carta que funcionava com um princípio similar, mas não transformava o usuário em um monstro. Ele requeria que o usuário tivesse sido transformado em um tipo de monstro específico antes disso e era um tipo de monstro no qual todo ser vivo poderia se transformar.
<A Morte>, Carta do Arcano Maior, que requeria que seu portador se transformasse em um Morto-Vivo e, após se conectar à Carta, ele se transformaria em um temível Lich.
Ou pelo menos era o que muitos pensavam, mas Eiro sabia que esse não era o caso. Ele encontrou alguns livros na biblioteca escondida do antigo dono da mansão. Isso era algum conhecimento comum, se comparado a alguns outros segredos que Eiro leu ali, mas a verdade era que três seres já detiveram o título de <A Morte>. O primeiro o deteve por algumas centenas de anos, mas matou o primeiro Papa do Igreja do Deus da Vida.
A segunda ‘Morte’ o deteve por alguns milhares de anos, mas acabou ficando entediado com a vida e acabou se matando. E a terceira… Manteve-se assim desde então. E isso faz mais do que alguns milhares de anos.
A úncia razão para esse ser o caso era o tipo de monstro que se conectava à Carta. Na verdade, não era impossível ser um ser vivo enquanto possuía <A Morte>, era simplesmente muito difícil devido ao fluxo aparentemente infinito de energia necromântica que receberia.
E, surpreendente, o ser que possuía a Carta da <A Morte> agora era um ‘Ladrão de Mentes’. Um ser vil de um reino das trevas, capaz de literal roubar a vida de outros seres.
Tecnicamente era um tipo de slime que penetrava nas vítimas através da boca, nariz ou orelhas, se dissolvendo e substituindo seu cérebro, assumindo o controle e de todo seu corpo.
Um Ladrão de Mentes era incapaz de causar muitos danos, conjurar magias ou até mesmo pensar por conta própria. Por ironia, era um ser irracional que se alimentava de cérebros e então assumia o corpo de alguém, antes que inevitavelmente esse corpo se desintegrasse. Antes disso, assumia as diferentes características do corpo em que estava. Personalidade, conhecimento, habilidades e técnicas, tudo o que ele era. Só que com o tempo tudo isso era distorcido na pior direção possível. Uma pessoa gentil e amorosa se transformava em um assassino vil.
Desse modo, assim que o corpo se desintegrasse, o Ladrão de Mentes deixaria seu antigo corpo e seguiria para o próximo. As únicas coisas que seriam levadas seriam algumas memórias soltas na forma de sonhos, pelo que Eiro sabia. Na maioria das vezes, depois que o cérebro de um ser vivo era assumido por um Ladrão de Mentes, eles nem saberiam que foram ‘infectados’ ou que agora eram o Ladrão de Mentes. Eles agiriam como sempre, como se nada tivesse acontecido e depois que o Ladrão de Mentes trocasse para um novo corpo, tudo o que restava do anterior eram as memórias soltas que se manifestavam na forma de sonhos, na maioria das vezes, como pesadelos.
Depois de se tornar <A Morte>, o Ladrão de Mentes mudou. Em vez de roubar assumir os outros com as habilidades que tinham enquanto vivos, o Ladrão de Mentes deu a eles habilidades necromânticas muito fortes. No fim, isso levou com que a criatura fosse descoberta e morta.
Entretanto, quando morreu, algo mais interessante aconteceu. Como estava vivo até então, agora se transformou numa versão Morto-Vivo de si mesmo, um ‘Ladrão de Mentes Lich’.
A partir de então, sempre que assumia alguém, elas se transformavam em Liches por conta própria, com o coração da criatura sendo transformado no filactério do Lich, além disso ele não perdia mais conhecimento, capaz de transferir certos pedaços dele bem como certas habilidades para si e para a próxima pessoa.
O filactério começava a assumir um certo tema com o tempo, já que <A Morte> assumia uma obsessão com o conceito de tempo. O estado do atual filactério do Lich era um sinal disso.
Parecia que o Diretor havia deixado <A Morte> assumir o corpo do seu filho.
Eiro olhou para o homem na sua frente com uma expressão vazia. Ele deu um passo na direção dele. Então um segundo. Um terceiro. Até que estivesse na frente do Diretor, ainda caído de joelhos em completo desespero.
O Demônio se agachou e segurou o Diretor pela garganta, levantando-o e encarando-o nos olhos.
— Então, você aprisionou <A Morte> dentro daquele cubo gigante suspenso na área mais inferior da prisão, hein? — Eiro questionou e o Diretor fez um esforço para assentir, mas não conseguia falar por causa da mão esmagando sua garganta.
— Entendo. — O Diabrete respondeu… e apertando sua mão por um instante, Eiro quebrou o pescoço do Diretor.