A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 244

A Virtude do Demônio

Eiro permaneceu ali encarando a figura no fim do corredor, para aquele morto-vivo que segurava aquele objeto horripilante. Não havia dúvidas de que era aquilo que ficava na mesa do Diretor o tempo todo. Um objeto sombrio e sinistro que foi transformando em algum tipo de obra de arte.

O Demônio cerrou os dentes e encarou o Morto-vivo enquanto seus batimentos aceleravam. Seus olhos ficaram vermelhos e tingidos com a cor do sangue do Demônio.

— Eiro? Eiro, está tudo bem? — Nelli perguntou nervosa, preocupada com ele, mas o Diabrete não respondeu. Ele levantou a mão para frente, passando-a pela notificação o avisando sobre seu estado de Fúria causado pela ‘Marca da Ira’.

 Estendeu o indicador para frente e levantou o polegar no ar, com os outros dedos fechados contra a palma. Ele usou seu polegar como um guia para se certificar de que o disparo estivesse alinhado, começou a criar um círculo mágico ao redor do seu indicador.

De alguma forma, ele não conseguia mover suas pernas agora, em vez disso teve que depender de algo desse tipo. Um tiro preciso e forte à distância. Assim que começou a criar o círculo mágico com nada além de seus pensamentos, em vez de movimentos de apoio – uma das primeiras vezes que conseguiu fazer isso com precisão – as linhas brancas brilhantes do círculo mágico que criou desapareceram enquanto o feitiço era ativado. Um vácuo foi criado bem na frente de Eiro, enquanto muito ar era sugado deste espaço. Ele se reuniu na ponta do dedo do Demônio e disparou para frente com uma velocidade que era incomparável à uma ‘Bala de Ar’ comum.

Um instante depois do tiro ser disparado, o Morto-Vivo teve um buraco na cabeça e caiu no chão, derrubando o vidro cilíndrico, fazendo com que começasse a rolar na direção de Eiro.

A parede de metal atrás do Morto-Vivo também sofreu um pequeno buraco depois de ser atingida pela poderosa bala de Eiro, aprimorada pelo seu estado de fúria.

O Demônio avançou. Ele não se importava mais em se esconder. Ele não se importava que a bala de ar quebrou a barreira do som e causou um barulho alto que ecoou através das paredes dessa parte da prisão e vários guardas foram alertados.

Eiro caminhou em direção ao vidro cilíndrico e o pegou em silêncio. Ele era pesado, mais pesado do que um recipiente quase vazio deveria ser, mas isso fazia sentido considerando que isso parecia ser repleto de magia que Eiro nunca sentiu antes.

Nelli e Gondos pareciam estar enojados com essa magia, como se ela os repelisse naturalmente. Eiro permaneceu ali e escutou. Ele escutou ao som dos batimentos do coração, fazendo o relógio tiquetaquear. Eiro sentiu s vibrações do coração sendo empurradas por todos os cantos do recipiente, através da sua pele, para todo o seu corpo.

E se sentiu enojado.

Por algum motivo, o tipo de raiva que sentia agora era diferente do que costumava sentir com a Marca da Ira. Geralmente ele ainda tentava lutar e essa luta fazia tudo desandar. Mas ele abraçou essa fúria. Não havia nada de bom nisso, não havia como justificar um objeto como aquele depois de toda a informação que tinha.

Um relógio sendo lembrança sobre o filho morto do Diretor, cujo desaparecimento aterrorizava até mesmo o mais forte dos homens. Um relógio feito com o coração de uma criança envolto em magia maligna, carregado por um morto-vivo vil.

Esse era o coração do filho do Diretor, continuando a se mover através de necromancia. Eiro não tinha dúvidas disso. Antes, tentou se esconder, mas agora, não mais. Eiro guardou sua capa em sua Tesouraria e permaneceu ali, com as asas espalhadas e sua cauda balançando lentamente atrás dele, enquanto seus chifres coloridos formavam um ninho em cima de sua cabeça.

Ele encarou o canto mais próximo e observou o supervisor que apareceu com uma espada-longa em mãos. O homem olhou para o cadáver do guarda deitado no chão com pedaços do seu cérebro espalhado pelo solo e paredes, enquanto o Demônio continuou ali com o item que foi roubado bem acima do cadáver.

— Você! O que d-

— Fique quieto, seu verme. — Eiro o interrompeu; — Sei o que está pensando. Eu não roubei isso. Assim como você eu estava procurando por isso para devolver ao Diretor por meus próprios motivos. Esse homem aqui foi transformado em um morto-vivo e forçado a levar essa coisa para algum lugar, alguém queria usar isso para fins específicos dos quais não consigo imaginar. — O Demônio explicou sem rodeis e o supervisor continuou ali, encarando Eiro com uma mistura de medo e confusão, incapaz de impedir o tremor sutil percorrendo todo seu corpo.

— Não se preocupe, não irei te matar. Sobre uma condição, pelo menos. Você irá me ajudar a devolver isso ao Diretor. — Eiro comentou e o homem permaneceu ali o encarando preocupado.

— Ma-Mas por que você iria querer devolver isso ao escritório do Diretor se isso te irrita tanto…?

Eiro deu alguns passos para até que estivesse na frente do homem segurando a espada, pressionou o centro do seu peito com a ponta da lâmina, pois sabia que nada aconteceria.

— Acho que você me entendeu errado. Eu não disse que devolveria isso ao escritório do Diretor. Disse que devolveria isso ao Diretor. Vamos esperar que nem todos neste lugar sejam tão inúteis como parecem. — O Diabrete disse. Parecia que o supervisor ficou um pouco confuso a princípio, mas entendeu o que Eiro estava tentando dizer.

A lua pairava alta no céu e um silêncio assustador preenchia esta pequena cidade rural não tão longe da capital de Skyhart. Era um lugar que faria muitos se perguntarem como ele conseguiu sobreviver por tanto tempo, desde que todo o lugar era nada além de uma grande favela. As pessoas sofriam e passavam fome, morriam nas ruas e faziam qualquer coisa para sobreviver.

Isto com exceção das pessoas que estavam celebrando suas próprias vidas em uma mansão localizada no centro desta cidade.

— Oh, isso soa maravilhoso! Você deve me contar mais sobre isso! — Uma dama nobre exclamou com um falso interesse magistral tingido em sua voz enquanto arrastava sua companheira, deixando para trás dois senhores conversando um com o outro.

— Enquanto nossas esposas estão ocupadas, você poderia se juntar a mim na varanda com um desses? Eles são feitos com folhas especiais de tabaco importadas do sul. O único lugar em que consegue obtê-las é uma pequena tribo Ragashi, onde são usadas como moeda. — Um dos homens disse enquanto entregava um charuto para o outro, um homem baixo e gordo com as bochechas rosadas que aceitou alegremente.

— Ah, eu jamais recusaria. — Ele disse, segurando o charuto que foi oferecido enquanto os dois iam até a varando que era conectada ao principal salão de festas desta mansão.

Um deles, aquele que ofereceu o charuto, fez uma expressão curiosa enquanto pegava um item mágico especial usado para criar uma pequena chama, acendendo o charuto do outro.

— Como está indo na prisão esses dias?

— Ah, tudo está indo bem. Não tivemos mais nenhum incidente desde que mudei umas coisas por lá. Eles deveriam ter me deixado assumir muito antes e nada teria acontecido com ninguém. — O homem disse com um suspiro que continha um tom de desapontamento e o outro homem riu baixinho.

— Claro que sim, também acho isso. Se você se lembra, eu fui um dos seus apoiadores mais ávidos naqueles eventos.

— É claro, eu sei disso! Não havia razões para você tentar me remover da posição, afinal. — Ele respondeu com um sorriso no rosto. Os dois estavam mentindo um para o outro o tempo todo.

Mas antes que o outro homem pudesse acender seu próprio charuto, um servo ou mordomo veio e o chamou.

— Há alguém que deseja falar com você, meu Senhor.

Com um suspiro profundo, mas uma expressão presunçosa com quão ‘importante’ ele era, o homem guardou o charuto e o pequeno objeto mágico em seu terno e saiu pela porta.

— Com licença, tenho que cuidar disso.

— Leve seu tempo. — Com um sorriso no rosto, o homem olhou para a vista da varanda e continuou fumando o charuto, tentando aproveitar esta vista por mais um tempo enquanto o outro senhor voltava para o salão de festas da mansão.

Por um tempo, ele continuou fumando, mas em algum ponto franziu as sobrancelhas e jogou o charuto aceso embaixo da varanda.

— Tem gosto de merda.

Depois de cuspir um pouco no charuto no chão, o homem se virou e estava para voltar para dentro, mas quando fez isso, viu algo com o canto dos seus olhos.

Um vidro cilíndrico brilhando ligeiramente.

Ele estalou o pescoço, vendo o objeto mágico colocado diante dele, arregalando os olhos em choque.

— O-O q- O quê?! Como isso está aqui?! — O homem exclamou, pressionando a mão na boca para se manter em silêncio.

Ele encarou o vidro cilíndrico, aproximou-se e tocou o objeto para ver se era real ou algum tipo de truque. De fato conseguiu sentir o toque frio do vidro no instante que seu dedo entrou em contato.

— Ah, perfeito. A missão foi concluída com isso, hein? — Uma voz calma e arrepiante comentou de trás do homem, que virou todo seu corpo em choque.

Quando fez isso, teve o charuto aceso que acabara de jogar da varanda pressionado contra seu olho direito. De alguma forma ele não conseguiu gritar, desde que seus lábios estavam congelados juntos e sentia muita dor quando tentava abrir sua boca.

Ele fechou os olhos enquanto a figura na sua frente afastava o cigarro dele e o colocava em sua boca. O charuto ainda estava completamente aceso quando o Demônio deu uma tragada.

— Heh, você está certo, Senhor Diretor… Tem gosto de merda.

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