
Volume 3 - Capítulo 243
A Virtude do Demônio
Eiro tentou sentir cada canto que conseguia alcançar dentro desta prisão. Ele espiou as telhas, quartos privados, escritórios, quaisquer lugares com a mínima indicação de tique-taques. Claro, era possível que o relógio tivesse sido desativado e não estivesse funcionando agora, mas, por ora, era a melhor pista de Eiro.
E como havia relógios por toda a prisão, teria que vasculhar todos os cantos de qualquer forma. Eiro procurou ao redor e, em algum ponto, conseguiu descobrir que a lembrança não estava em nenhum lugar que pudesse alcançar.
Não estava nas celas, não estava com nenhum dos outros guardas e não estava com ninguém que pudesse entrar no escritório do diretor.
A princípio, Eiro considerou que o ladrão deveria ter algum tipo de chave para entrar no escritório, o que significava que poderia estreitar sua busca, mas considerando que conseguiu entrar lá com um esforço mínimo e sem uma chave apropriada, imaginou que era possível que o ladrão tivesse usado algum tipo de truque.
Ele pensou que se tratasse de um detento de qualquer forma, faria muito sentido com essa ideia. Se os guardas tinham um contrato que não os permitia falar sobre nada que ocorria dentro da prisão, então haveria algum tipo de cláusula sobre roubar coisas e contratos mágicos eram cruéis na maioria das vezes, então poucas pessoas se arriscariam a ir contra um.
Se o ladrão fosse um detento com habilidades suficientes em arrombar para não deixar nenhum vestígio na fechadura, então faria sentido que fosse capaz de sair da sua cela, mas, como ninguém parecia ter escapado, ainda deve estar aqui dentro, se o palpite de Eiro estiver correto.
Portanto, o Demônio compreendeu que tinha uma coisa a fazer. Ir até as áreas em que não conseguiu olhar tudo. Bem no fundo do subsolo, nas áreas em que os detentos de alta segurança eram mantidos.
Eiro foi até a entrada desta área, um grande portão de metal bem ao fundo da área principal. O único caminho que levava para baixo era uma escada forte reforçada por metal, com três portas separadas instaladas dentro dela, as quais requeriam chaves para passar.
Por sorte Eiro conseguiu atravessar com muita facilidade com a ajuda de Bavet e suas habilidades perceptivas. Se fosse necessário, poderia ter quebrado as fechaduras e se aprofundado na prisão, com a esperança de encontrar onde a lembrança estava e trazê-la de volta até o escritório do Diretor sem maiores problemas.
Considerando quão assustados aqueles superiores ficaram com o fato de que a lembrança havia sumido, Eiro estava confiante de que manteriam tudo o que acontecesse com relação a isso em segredo do diretor, ou pelo menos tentariam manter o silêncio sobre isso o máximo que pudessem.
De qualquer forma, Eiro caminhou até o primeiro portão e ficou em um local que poderia estar com a posição que Christler, o cara que fingia ser, tinha. Dali, conseguia ver a entrada. Parecia haver um mecanismo bastante complexo dentro, o qual seria um incômodo de desvendar.
Todos os andares inferiores eram protegidos por grossas placas de metal que Eiro não conseguiu atravessar com magia de terra. Era um pouco irritante, mas era assim que funcionava.
Eiro também não tinha certeza se conseguiria arrombar aquela porta com facilidade. Na verdade, era um pouco problemático. O que precisava para arrombá-la era uma grande quantidade de pressão acumulada em pontos específicos dentro dela. A pressão ao redor não conseguiu fazer isso, então não poderia aquecê-la ou enchê-la de água, já que não conseguiria comprimir muito bem.
O que precisaria era algo que crescesse de dentro, algo com muita força e poder. Claro, isso se não conseguisse encontrar outras formas de entrar… Como um supervisor ansioso, tendo a mesma ideia que Eiro e tentando ir até as áreas inferiores para checar os detentos ali.
Eiro camuflou seu corpo com uma camada do líquido do Ás de Copas e foi até uma posição onde não teria problemas para correr pela porta, mesmo que fosse aberta um pouco.
Mais cedo, Eiro conseguiu ter um leve vislumbre do interior e era muito escuro, então, assim que entrasse, conseguiria usar magia de sombras para se esconder sem nenhum problema.
O Diabrete calculou o momento em que precisava correr, ao mesmo tempo que já estava infundindo seu corpo com magia de sombras de uma pedra mágica, além do efeito do Ás de Copas, para se certificar de que não fosse notado.
— Três… dois… um… agora! — Eiro sussurrou para si mesmo e correu no instante em que a porta foi aberta, entrando pela porta de metal. Parecia que, por causa dos seus movimentos apressados, o supervisor, com status um pouco altos, conseguiu percebê-lo até certo ponto. Apesar de ter escutado um leve som, o qual dispensou depois de não ver nada. Ele tinha algo mais importante para cuidar agora, afinal, e se ninguém mais percebeu, talvez não tivesse sido nada. Esse foi seu raciocínio, provavelmente.
Com um pequeno sorriso no rosto, Eiro devolveu o resto da poção do Ás de Copas à tala e devolveu a Carta à Tesouraria, junto com a pedra mágica das sombras que usou, se infundir com as sombras dentro da escadaria que se formou no instante em que a porta de metal foi fechada.
Eiro seguiu o supervisor enquanto atravessava outras portas e foi até o próximo local que tinha que investigar. Ele conseguiu achar a posição de alguns relógios funcionando à distância.
Como Eiro não conseguia usar magia de terra aqui devido ao fato de tudo ser feito de metal, estava tendo dificuldade em sentir as vibrações no solo. Ainda conseguia, de certa forma, por causa dos ecos dos detentos e das vozes dos guardas, mas precisaria ser capaz de usar magia de metal se quisesse sentir as coisas através do solo em geral.
Embora não fosse impossível usá-la, desde que ainda sentia um pouco das vibrações e as analisava em alguma extensão, já que a Terra era o elemento base para o elemento avançado Metal, mas de fato não funcionava tão bem a partir de dez metros de distância.
Assim Eiro percorreu o lugar, fundido com o elemento sombra para que conseguisse se camuflar com as sombras dos corredores escuros e se esconder de qualquer um que estivesse passando. Felizmente conseguiu encontrar os relógios na área pelo som.
Em sua maioria, eram relógios simples e normais, com nada de especial neles. Eiro estava ficando um pouco irritado com quanto tempo isso estava demorando.
Foi neste instante que Eiro chegou a algum tipo especial de cela. Ela parecia muito… diferente. Primeiro, a cela era um cômodo gigante e a ‘cela’ de verdade estava suspensa no meio do ar por meio de correntes, assim como um tipo especial de magia. As pessoas de guarda aqui eram algumas das mais fortes que Eiro viu dentro de toda a prisão. Elas ficavam de pé no fundo desse cômodo, nas laterais do espaço onde a cela estava suspensa.
A parte estranha era que a cela era um bloco de metal sem uma única abertura. No começo, Eiro não tinha certeza se isso era de fato uma cela ou algum tipo de exposição estranha no lugar mais estranho, ou se este lugar ainda estava em construção, mas escutou os guardas especulando sobre que tipo de pessoa estranha era mantida ali dentro.
Parecia que, além do metal, havia inúmeras camadas de diferentes materiais para se certificar de que o que quer que estivesse ali dentro não conseguisse sair, ou foi o que Eiro imaginou pelas inúmeras conversas centradas ao redor deste lugar.
Aparentemente essa era a cela mais importante de toda a prisão e se aquele preso dentro dela escapasse, então causaria uma comoção enorme. Apesar de Eiro ter ficado confuso sobre por que tal pessoa estaria dentro de uma prisão como esta, em vez de uma prisão de alta segurança especializada. Parecia que esse era o motivo pelo qual Eiro acabaria precisando da chave central, embora meio que duvidasse que isso o ajudaria a entrar nessa cela. Mesmo se quisesse fazer isso.
De qualquer forma Eiro tinha que continuar procurando a lembrança. De alguma forma, já havia encontrado o próximo relógio, embora duvidasse que fosse o que procurava.
Então, notou um cheiro… estranho. Era como se fosse algo apodrecido, então o Demônio foi até lá. Parecia que este seria diferente dos outros relógios que encontrou até agora.
O Diabrete virou a esquina e, ao fim do corredor, viu algo que não esperava: a fonte do cheiro podre, estava parado, em silêncio, segurando a ‘lembrança’ em suas mãos.
A origem do cheiro era um morto-vivo, um zumbi criado usando um dos guardas.
E a lembrança que ele segurava era um recipiente de vidro cilíndrico, com um mecanismo de relógio magicamente suspenso dentro dele. À primeira vista, para a maioria, parecia um relógio mágico ou algo do tipo, mas qualquer guarda que trabalhava aqui, assim como Eiro agora, sabia o que isso era.
Era o coração de uma criança que mantinha o mecanismo do relógio funcionando, suspenso por meio de magia dentro do vidro cilíndrico.