
Volume 3 - Capítulo 242
A Virtude do Demônio
Eiro, em seu disfarce como o jovem, saiu da parede rochosa em que escondeu o guarda e voltou para a prisão. Ele sempre mantinha a exata forma como o guarda novato se movia. Normalmente não eram coisas importantes, como se as pessoas escutassem Eiro falar algo errado ou se o visem fazendo algo que não deveria, desde que na maioria das vezes poderia explicar como um erro constrangedor da sua parte, ou poderia tentar mentir.
As coisas que faziam as pessoas sentirem que algo estava errado eram os detalhes. Se os maneirismos de Eiro ou a linguagem usada estivesse um pouco diferente do guarda que estava tentando copiar, ele poderia não ser descoberto logo de cara, mas dificultaria que saísse impune. As pessoas teriam dúvidas sobre certas coisas com as quais não teriam se Eiro adicionasse esses detalhes à mistura de forma convincente.
Para ele, funcionou muito bem. Outros guardas o cumprimentaram com acenos e sorrisos casuais e Eiro continuou caminhando pelos corredores da prisão de forma calculada. Ele conseguia sentir a localização exata das pessoas, principalmente daquelas cujo Eiro precisava usar para o seu plano.
Certificando-se de que as pessoas erradas não fossem nessa direção, Eiro foi até o escritório do Diretor de novo. Sem hesitação, Eiro pressionou a palma contra a fechadura metálica. Na verdade, não era de qualidade tão alta, então não demorou muito para quebrá-la. A aqueceu usando magia de fogo, até que estivesse brilhando com uma cor amarela brilhante. Ele retirou seu Três de Espadas por um momento e inseriu sua lâmina no buraco para bagunçar com a fechadura, mudando as coisas de formas anormalmente, resfriando-as logo depois.
As poucas partes do mecanismo que antes não estavam quebradas, agora já eram e Eiro conseguiu abrir a porta com facilidade. Isso era tudo que precisava fazer, pelos por ora.
— Três… dois… um… agora. — O Demônio sussurrou para si e começou a correr pelo corredor em um ritmo muito específico. Um ritmo que o levou até o homem que deveria ser supervisor da pessoa que fingia ser.
Eiro olhou para o homem com uma expressão fingida de pânico enquanto supervisor dava um passo para trás, com uma carranca profunda em seu rosto.
— Christler, o que foi? Não consegue olhar para onde está indo, maldito?! — Com um tom severo, ele encarou Eiro, que engoliu em seco enquanto retribuía o olhar.
— Ah, Senhor, me desculpe! Mas é uma emergência! Alguém arrombou o escritório do Diretor, senhor! — exclamou o mais alto que conseguiu e o supervisor arregalou os olhos e passou por ele, indo em direção ao escritório, sendo seguido por Eiro e outros dois guardas que estavam perto do supervisor.
Ele empurrou a porta, notando que a fechadura estava destruída e entrou no escritório.
— Mas que diabos? Quem diabos arromba uma porta e não leva nada? Esse lugar está em perfeitas condições!
O supervisor continuou olhando ao redor por mais alguns instantes, enquanto Eiro com sua confusão fingida olhou para um dos outros guardas, sussurrando para ele.
— Não estou aqui há muito tempo e só estive aqui uma vez, mas não deveria haver mais alguma coisa ali em cima da mesa? — Eiro perguntou sem rodeios e o guarda olhou para ele com uma leve carranca, virando a cabeça em seguida. Ele entrou no cômodo, então arregalou os olhos enquanto todo seu rosto empalidecia.
— S-Sr… — Ele murmurou, com a voz rouca e apontou seu dedo para o local onde o bem precioso do Diretor deveria estar.
O supervisor virou a cabeça e olhou para o local.
— O que você está tentando-
Assim que percebeu também, sua reação foi muito similar à do guarda.
— Vocês três, calem a boca e venham comigo imediatamente!
Com expressões confusas, Eiro e o outro guarda entraram no escritório. Parecia que o outro também era um novato.
— Há algo de errado, Sr?
— Oh, há algo de errado? Tem alguma coisa certa?! Christler, alguém mais viu o escritório do Diretor neste estado além dos presentes aqui?
Eiro balançou a cabeça.
— Não que eu saiba, Sr.! Encontrei o escritório neste estado e fui encontrar alguém que poderia ajudar, então me deparei com você, Sr.! — Ele exclamou e o supervisou cerrou os dentes enquanto resmungava para si mesmo.
— Merda… Por agora, nenhum de vocês falará sobre este incidente. Vocês me ajudarão a encontrar quem quer que tenha feito isso, mas se mencionarem isso para alguém, serão demitidos na hora! Harlon, vá chamar Stephason para substituir a fechadura do escritório. Zimmer, você irá até a ala dos supervisores e os chame, este é um assunto sério. E Christler, você fica comigo, irá me dizer tudo o que sabe.
De imediato, ambos os outros guardas se viraram e saíram e Eiro ficou sozinho com o supervisor. O Demônio estava sendo encarado por alguém que nem mesmo percebeu que ele era um Diabrete, mas o mais estranho de tudo era que, na realidade, o supervisionar parecia meio assustado.
— Certo, Christler. Repasse o que aconteceu. Como você encontrou o escritório neste estado? Tem certeza de que mais ninguém viu algo?
— Sim, Sr.! Acabei de retornar do meu intervalo e senti o cheiro de algo estranho, então fui investigar. Desse modo, percebi a porta e o estado da fechadura. Me certifiquei de que não havia ninguém dentro e imediatamente fui procurar um superior. — Eiro explicou. O Supervisor franzia o cenho enquanto escutava ao Demônio, tentado descobrir se ele falava a verdade.
— Tudo bem, acreditarei em você por ora. A fechadura ainda está quente e não há como você conseguir aquela coisa no seu corpo. Muito provável que não teria lugar para escondê-la no pouco tempo que teve, mas não permitirei que saia do meu campo de vidão, entendido? Você esperará aqui, até que todos os outros sejam informados e faremos uma varredura completa na prisão sem que o Diretor descubra de nada. Entendido? — O supervisor explicou, estranhamente como se estivesse tentando confortar Eiro com a última parte em particular.
Eiro olhou para o supervisor com uma expressão preocupada fingida e engoliu em seco, com nervosismo.
— Sr., se me permite perguntar… O que foi roubado? Você parece bastante preocupado… é um item perigoso? — Ele questionou, mas o supervisor balançou a cabeça e cruzou os braços.
— Acho que você deve ser informado. Todos na prisão sabem sobre isso de qualquer maneira, incluindo os prisioneiros. Não se preocupe, ninguém confiaria ao Diretor qualquer objeto perigoso, até mesmo uma faca seria demais para ele. Não, é algo mais… sentimental que isso. Recorda-se de como jurou aos deuses não contar a estranhos nada do que acontecesse nesta prisão quando firmou seu contrato?
Eiro assentiu. O supervisor olhou para o lado.
— É algo que os outros não deveriam ver… É uma lembrança do filho falecido dele.
— Hm? Oh, isso é bem legal, não é? — Eiro perguntou, surpreso. — Então faz sentido que você queira encontrá-lo de novo. Qualquer um ficaria bravo se algo como isso fosse roubado dele, certo…? — Eiro questionou e o supervisor olhou para o lado enquanto cerrava os dentes.
— S-Sim, é claro. Ah, como você possuí uma percepção incrível, por favor, fique atento a qualquer som de relógio. A lembrança foi integrada a um relógio de mesa.
— Entendo. Farei o meu melhor. — O Demônio respondeu. Agora, tinha muito mais informações que antes. Isso o ajudaria a descobrir o mais rápido possível. Eiro só tinha que tentar o tique-taque do relógio em algum lugar. O problema era que havia inúmeros relógios na prisão… Isso era um pouco irritante, mas, pelo menos, diminuiu bastante sua busca.
Por um pouco mais, Eiro e o Supervisor permaneceram no escritório, um tanto constrangidos e aguardaram aos outros. Logo, mais superiores do guarda que Eiro estava personificando apareceram. Não havia nada de especial neles, na verdade. Eles eram tediosamente… comuns. Pelo menos, todos pareciam dedicados em encontrar a lembrança.
Parecia que o Diretor era uma pessoa muito mais assustadora do que parecia dentro da pintura na parede e os artigos que Eiro leu sobre essa prisão. Extremamente assustadora, ninguém ousava dizer nada a ninguém com medo da informação chegar ao Diretor.
Assim, o Diabrete escutou às palavras de todos aqui e quão desesperados estavam para descobrir a localização da lembrança. Alguns estavam cobertos de suor frio e Eiro teve a sensação de que havia mais nisso do que parecia. Em breve, o Demônio recebeu o comando que esperava.
— Christler, você está dispensado por ora. Não fale com ninguém sobre isso. Nós iremos buscá-lo se necessário. Entendido?
— Sim, Sr.! Entendido! — Eiro exclamou, virando-se sair pela porta. O Demônio saiu do escritório e não pôde deixar de sorrir por quão fácil isso foi. Não conseguiu a informação que procurava em trinta minutos, mas até conseguiu que novas pessoas o ajudassem em sua missão sem o conhecimento delas. Na verdade, parecia um pouco fácil demais.
Eiro foi até o local central da prisão que já havia escoltado antes. Havia um grande fluxo estrutural que deveria ajudar sua percepção mágica a alcançar atrás os locais mais profundos da prisão.
Então, Eiro permaneceu ali, batendo seu pé no chão com os braços cruzados, liberando mana no solo sempre que fazia isso. Eiro conseguiu descobrir alguns lugares que alguém poderia ter escondido o bem, ou pelo menos lugares em que Eiro teria escondido se fosse o ladrão.
Assim, o Diabrete começou seu trabalho.