
Volume 3 - Capítulo 241
A Virtude do Demônio
Eiro se esgueirou pelos corredores da prisão, tentando ir até o escritório do diretor o mais rápido possível sem ser notado por ninguém. No fim, era bem fácil transitar por aquele lugar e como Eiro pensou, a segurança era definitiva deficiente em comparação ao que o Diretor anunciava.
Embora houvesse algumas poucas pessoas que de fato eram habilidosas e poderiam dar um pouco de trabalho para Eiro, elas eram as exceções em toda essa prisão. Os próprios prisioneiros, por outro lado, eram outra história. Havia vários deles que eram fortes, muito fortes.
Eles estavam trancados em celas especiais, criadas de forma que impossibilitava a fuga usando magia ou força bruta. Pelo que Eiro conseguia dizer, havia pessoas muito piores nas profundezas da prisão, protegidas por mecanismos muito mais fortes. Em alguns casos, Eiro nem conseguia ver as celas dessa posição usando as vibrações do solo.
Esse tipo de coisa o fez se perguntar por que receberia a cópia da chave da prisão central, cuja Eiro assumiu que o permitiria abrir muitas portas e, às vezes, até algumas celas deste lugar. Se as penalidades se adequassem àquele que aceitou a missão, então talvez as recompensas também? Era do interesse de Eiro abrir uma dessas celas?
Ele continuou pensando sobre o isso e queria descobrir mais detalhes sobre ele, mas parecia que talvez conseguisse descobrir mais enquanto procurava pelo bem precioso roubado, então decidiu colocar esse assunto de lado e foi até o escritório do diretor.
E, para a surpresa de Eiro, não foi difícil chegar até ali. Mesmo que não tivesse ficado invisível ou tivesse a habilidade furtividade em um nível muito baixo, ele poderia ter conseguido chegar até aqui se tivesse tido cuidados com a localização dos guardas.
Eiro tentou abrir a porta, mas estava trancada e suspirou baixinho. Ele olhou para a pequena conta que estava em sua mão direita.
— Bavet. — Ele sussurrou e o Slime Transformador, que estava na forma de seu núcleo de slime, respondeu deslizando sobre a mão dele, viajando até a ponta do dedo e se transformando em uma haste de metal pequena e fina.
Eiro inseriu a haste de metal na fechadura e esperou que Bavet fizesse seu trabalho. Só demorou alguns minutos para ele desvendar o mecanismo bastante simples e assumir o formato de uma chave. Com um pequeno grito da sua mão, Eiro abriu a porta e entrou.
— Bom trabalho. — Eiro disse para Bavet e o núcleo de slime deslizou de volta pela pele dele até a parte de trás da mão do Diabrete e se transformou em uma pequena boca.
— Isso, é melhor você me tratar melhor… Porque eu sou muito útil, sabia?
— Bavet, cale a boca. Eu te deixo viver em uma mansão, te dou quanta comida quiser e ainda te dou tempo livre para caralho, contanto que me ajude de vez em quando. — O Demônio respondeu e a boca de Bavet se fechou, o slime se transformando de volta à forma de conta que estava nas costas da mão de Eiro, sem dizer mais nada.
O Diabrete suspirou enquanto fechava a porta e começou a analisar o cômodo. De imediato, conseguiu dizer que tipo de pessoa o diretor era. Ele tinha uma pintura gigante com uma moldura detalhada esculpida e pintada a ouro de si mesmo na parede. Também havia muitas coisas caras, amontoadas do chão ao teto.
Notícias de jornais estavam penduradas na parede, aquelas em que o diretor aparecia. Eiro se recordou de que havia muitos mais artigos sobre essa prisão, mas parecia que o Diretor era um narcisista que só se importava com os que falavam sobre ele.
Eiro olhou ao redor da sala, observando de todas as perspectivas por um instante. Depois de concluir isso, revisitou suas memórias com sua habilidade ‘Memória de um Estudioso’ para que conseguisse ver essa cena milhares de vezes em questão de segundos.
Sem nem ter que pensar por muito tempo, Eiro logo descobriu algumas coisas diferentes. Primeiro, havia um único lugar vazio em todo esse cômodo onde o bem precioso poderia estar. Estava bem em cima da mesa do Diretor e Eiro conseguiu ver as diferenças no nível de deterioração que a mesa sofreu entre o local que o objeto parecia ter estado antes e o restante da mesa, além disso, havia até uma pequena marca naquele lugar.
Como se algo bastante pesado tivesse ficado ali por um longo, longo tempo. O resto da mesa não era nada parecido. Ainda estava coberta de coisas aleatórias e parecia que esses itens eram trocados ou movidos com frequência, mas aquele item sempre permanecia no mesmo local.
Não havia dúvidas disso, aquele era o local em que o ‘Bem Precioso’ roubado do Diretor ficava.
Agora que tinha pelo menos uma pista, ele conseguiria deduzir algumas coisas. Como ficava na mesa bem ao lado de onde os documentos seriam manuseados, não era tão grande. Algo que poderia ser segurado por uma mão, só pelo tamanho.
Em questão ao peso, era bem pesado, então era provável que fosse feito de metal, além disso ele conseguiu ver que a base sobre a qual se apoiava era redonda, desde que era o caso com a marca.
O Demônio pensou se conseguiria achar algo que combinasse com essa descrição e esse cômodo.
Mas havia mais uma coisa estranha.
Não havia nenhum outro espaço livre dentro desse quarto, todos os locais usados para exibir algo estavam cheios, exceto aquele lugar. Nada mais foi levado e havia itens muito caros ali. Havia até um cofre de parede cheio de objetos caros que fez Eiro perceber que não foi um cara aleatório roubando por dinheiro.
Estava claro, desde o instante em que entrou no escritório, que não era um ‘rato’ de verdade. Não havia nenhum lugar por onde ele pudesse rastejar. Em primeiro lugar, não havia nenhum rato ali. Os esgotos eram feitos para não permitir que coisas como roedores, ou detentos, tentassem escapar ou entrar, então não havia como ser um rato de verdade, ainda mais se o bem roubado era tão pesado como indicava pela marca na mesa.
Então, o ‘rato’ era metafórico. Era um intruso, alguém que não deveria estar aqui, que se esgueirou e roubou algo que deveria significar muito para o Direito. Isso era uma vingança pessoal.
Isso não era algo que poderia incriminar o diretor, caso contrário não ficaria à plena vista para todos que entravam no escritório. Foi roubado para feri-lo, não havia outra explicação.
O fato era que o intruso devia possuir algum tipo de chave, mesmo que tenha a roubado. Não havia nenhuma ranhura incomum na fechadura e a porta não parecia ter sido arrombada. Então, no fim, Eiro decidiu que deveria começar tentando descobrir se a chave de mais alguém foi roubada, ou se algumas chaves desapareceram.
O maior problema era que Eiro nem sabia quando isso foi roubado. O ladrão poderia estar em qualquer lugar. Depois de refletir um pouco, Eiro chegou a uma simples conclusão do que deveria fazer. Enquanto caminhava pela prisão, escutou algumas pessoas falando sobre como começaram a trabalhar aqui e o Demônio decidiu se aproveitar desse fato.
Aparente, o diretor já havia saído por três dias e esse cara começou a trabalhar aqui há uma semana, então estariam aqui na mesma hora antes.
Eiro saiu do cômodo e o trancou com a ajuda de Bavet, atravessando a prisão de novo. Assim que o viu, Eiro começou a fazer outra coisa. Ele começou a stalkear esse cara novo. Sua voz, seu comportamento, a forma como se portava, até os hábitos estranhos aos quais recorria por nervosismo.
E logo entrou em uma pausa e, para isso, foi até uma área da prisão acessível por guardas, onde conseguiu respirar um pouco de ar fresco. Quando Eiro notou que não havia ninguém por perto ou observando à distância… Parou atrás do guarda novato, abriu um buraco na parede do penhasco usando magia de terra e puxou o guarda para dentro.
Com magia de fogo, Eiro criou uma luz para eles enquanto arrastava o jovem pelo túnel que estava criando continuamente, levando-o até um lugar onde poderia pegá-lo mais tarde e trazê-lo para algum lugar… bem, ‘seguro?’, por falta de uma palavra melhor.
Assim, Eiro o despiu e vestiu seu uniforme, já que ele tinha a mesma altura e físico de Eiro. O resto foi tratado por Bavet, que completou todo o disfarce ao fazer o Diabrete parecer como esse guarda.
— Por que você está fazendo isso?! — Ele exclamou e Eiro olhou para ele.
— Para me proteger. Simples assim, mas não se preocupe, assim que tudo isso acabar, você voltará à sua vida normal sem nem mesmo se recordar desse encontro. — Eiro explicou. — E não, não te matarei, então nem pergunte.
Eiro sentiu enquanto Bavet começava a afetar suas cordas vocais e começou a falar de novo.
— Então, irei voltar ao trabalho, cara… Te vejo mais tarde.