A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 240

A Virtude do Demônio

Eiro olhou ao redor dos jardins, tentando encontrar qualquer coisa que estivesse fora de lugar. Para isso ele até se fundiu com Gondos, certificando-se de conseguir ver se havia partes não naturais na mana naquela área que pudesse explicar por que Gobo se sentiu daquela forma mais cedo.

Eiro conseguiu ver que o fluxo de mana estava um pouco irregular. Não muito, mas estava mais errático do que o normal. Claro, algumas vezes isso acontecia como resultado de algumas reações em cadeia aleatórias de algumas magias. Isso podia ter acontecido por causa de todos os cômodos escondidos com magia na mansão estarem sendo utilizados.

Entretanto, isso não explicaria por que Gobo se sentia observado. Isso explicava a sensação de que algo estava estranho, mas não a sensação de ser vigiado. Até Gobo disse que eram coisas muito diferentes de se experienciar, mesmo para ele.

Eiro espalhou sua mana ao redor da área, através do ar e do solo e logo conseguiu ver algo que uma das pessoas aparente deixou: um traço de magia.

Como Gobo disse, na superfície, parecia que não havia nada fora de lugar. Sem pegadas, sem gravetos quebrados, nem mesmo um fio de cabelo no chão, mas, em vez disso, o que havia era o vestígio de que alguém usou magia no chão, provavelmente magia de terra para se livrar, no mínimo, de coisas como pegadas.

Não nevou ontem e todos que queriam praticar ali, inclusive Eiro, já que sua magia era a mais forte, se livravam da neve no solo usando magia de fogo ou pedras mágicas de fogo. A umidade extra era retirada do solo nas áreas em que praticavam e, em vez disso, era empurrada para as áreas ao redor, então eram lamacentas.

Isso significava que não havia como as pessoas não deixarem pelo menos um vestígio na lama que Eiro pudesse ter descoberto, mas eles não perceberam que qualquer tipo de magia tinha certos padrões. Eles eram únicos para cada pessoa e era por isso que era possível diferenciar pessoas diferentes usando mana em situações específicas.

Normalmente esses padrões eram indetectáveis. Mana comum não poderia ser vista em primeiro lugar e desaparecia com magias de vento, água ou fogo de qualquer forma, desde que eram coisas que estavam em constante movimento, mas quando se tratava de magia de terra, gelo ou magias que lidavam com elementos em seus estados sólidos, era uma história diferente.

E claro, o solo ainda estava um pouco lamacento, então os padrões ali provavel estavam um pouco distorcidos, mas isso não importava. De qualquer forma, seria quase impossível para Eiro identificar alguém pelos seus padrões de mana. Se ele tivesse a carta investigativa de Bahlsen, talvez, mas não com sua percepção extrema, mas, mesmo assim, Eiro conseguiu pelo menos dizer quando os padrões de mana foram deixados em certos locais.

Assim, o Demônio logo confirmou que Gobo disse a verdade, desde que esses padrões de mana estavam espalhados por toda a área ao redor do lugar que Gobo treinava, dos arbustos às bases das árvores.

Desse modo, o Diabrete respirou fundo e captou o odor de algumas das pessoas que estavam observando o Hobgoblin Guerreiro Mágico e se certificou de gravá-los em sua mente. Não que conseguisse esquecê-los de qualquer forma, mas estava tentando filtrar suas memórias para ver se os odores se sobrepunham ao de outras pessoas que Eiro já encontrou, algo que demoraria um tempo.

Afinal, Eiro compreendia que essas pessoas tinham que ter motivos para fazer isso, mas decidiu que deveria voltar para dentro e passar algum tempo com suas crianças. Se tivesse sorte, eles poderiam tentar bisbilhotar de novo e ele conseguiria traços melhores para que conseguisse encontrá-los com mais facilidade.

— Certo, vamos voltar para dentro. — Eiro disse e olhou para Gobo e Bavet, embora Bavet estivesse confuso.

— Espera, o quê? Por que você me trouxe aqui, se tudo o que vocês dois fizeram foi voltar para dentro?!

— Você não vai segui-los? — Gobo questionou igualmente confuso, embora em um tópico diferente e Eiro olhou para os dois com um pequeno sorriso.

— Não irei segui-los, não. Eu trouxe ambos vocês aqui no caso de ter que fazer isso, para que vocês possam informar os outros, ou, em uma emergência, eu teria que levar um de vocês comigo, mas por agora está tudo bem. Só quero que vocês dois continuem de vigia por um tempinho. Bem, Gobo, pelo menos. Bavet tem que vir comigo por um bom tempo de qualquer modo.

Ao escutar as palavras de Eiro e segui-lo, os dois monstros compreenderam a decisão do Demônio, embora o slime tivesse outra pergunta. Ele ainda estava na forma da píton albina de três cabeças e deslizou até o lado de Eiro, pulando do chão e se transformando em um pequeno falcão, sentando-se em um dos chifres mais horizontais de Eiro.

— Aliás… Por que você quer que eu te acompanhe o tempo todo?

— No caso… Só estou tentando ser cauteloso, há algo que não entenda sobre esse conceito? — Eiro perguntou. — Farei uma máscara nova para substituir minha normal. Como um quinto das pessoas da organização vestiam máscaras, não seria uma surpresa se eu fosse visto como parte dela, mas se chegar o momento em que precise atuar como membro da organização, preciso da sua ajuda.

Eiro voltou para dentro, com o slime no formato de falcão sentado em cima da sua cabeça e com Gobo o seguindo como um cachorro obediente, como sempre fazia. Por ora, havia muito pouco que precisava ser feito. Eiro checou as crianças de novo, falou com elas um pouco e lhes desejou uma boa noite.

Eiro também dormiu por mais algumas horas, já que não conseguiu descansar de todo o cansaço por ser acordado mais cedo pelo seu grupo, mas estava tudo bem, na verdade, dessa forma conseguiu conversar com as crianças ao fim do dia e ainda acordou bem cedo na manhã seguinte, passando o tempo até o nascer do sol lendo alguns livros sobre a prisão aqui na capital.

Conseguiu descobrir coisas como o layout básico, o poder médio dos condenados nas diferentes celas, o poder médio dos guardas patrulhando a prisão e as contramedidas que tinham contra os muitos tipos de magia que poderiam prejudicá-los.

Na verdade, nada disso foi difícil de descobrir, desde que o diretor da prisão praticamente anunciou o uso como uma forma de receber mais investimentos dos nobres. Solomon reclamou um pouco para Eiro antes  que o sistema carcerário de Skyhart estava um pouco bagunçado, desde que estava focado no ganho monetário em vez da reabilitação dos condenados. Ele estava tendo dificuldade em tentar compreender como reformá-lo, mas isso não tinha nada a ver.

O mais importante era que Eiro conseguiu reunir todas as informações básicas que precisava. Em primeiro lugar, ficou feliz de ver que até mesmo as coisas das quais o Diretor se gabava nos jornais eram fáceis para Eiro superar, afinal, não havia como ele não ter exagerado sobre quão bem-preparada a prisão estava sob seu comando, ao mesmo tempo que exagerava quão fortes ou problemáticos os prisioneiros eram. Eiro não entraria em contato com os prisioneiros, esperançosamente, mas se a prisão acabasse sendo bem menos preparada do que eles se gabavam e até mesmo esse exagero parecia algo que Eiro conseguiria superar com facilidade… Isso seria moleza, não havia dúvidas sobre isso.

Portanto, depois de ler tudo o que precisava, Eiro se preparou para o dia. Comeu café da manhã com os outros, então se despediu depois de certificar-se de que tudo estava sob controle. Jess, James e Krog disseram que ficariam ali hoje para se preparar para o pedido que haviam recebido do cliente paranoico. Ficar em casa foi uma escolha muito fácil depois que Eiro contou para eles que havia pessoas observando Gobo nos jardins. Então, os três ficaram em casa para proteger as crianças caso fosse necessário.

Isso significava que Eiro tinha tempo para cuidar dos seus próprios negócios. Ele queria cavalgar até a prisão com Lugo, mas não poderia correr o risco de ser visto perto do Cervo naquele momento, enquanto usava seu disfarce de membro da organização, caso os membros superiores da organização estivessem assistindo ao que Eiro fazia.

Ele não poderia deixar ninguém descobrir sobre isso ainda, então tinha que lidar com as coisas do tipo dessa maneira. Assim, Eiro voou até a área ao redor da prisão, pousando em um local sem pessoas e decidindo correr o resto do caminho. Por agora, o que Eiro tinha que fazer era encontrar uma boa entrada para a prisão e encontrar o rato que roubou o ‘bem precioso’ do Diretor.

Ele escolheu se disfarçar com uma fina camada da poção do Ás de Copas para chegar à prisão mais fácil. E, por sorte, entrar não foi tão difícil. A prisão foi construída enterrada no chão, usando um penhasco natural ao lado de um rio para deter os condenados.

Entrando de forma sorrateira com algumas provisões, Eiro entrou na prisão e logo descobriu que o diretor nem mesmo estava aqui. Era provável que esse fosse o motivo para a descrição dizer para devolver o ‘bem precioso’ antes que ele percebesse que tinha sumido. O diretor retornaria em mais alguns dias e, quando voltasse, perceberia.

A primeira decisão que Eiro tomou foi ir até o escritório do diretor, para que pudesse descobrir o que era o bem precioso em primeiro lugar.

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