
Volume 3 - Capítulo 239
A Virtude do Demônio
Eiro saiu do seu quarto para checar as crianças antes que todas fossem dormir. Arc e Rudy estavam sentados juntos na sala de estar principal da mansão, conversando sobre a Academia.
— Você acha que ficaremos bem? Não tenho muita experiência com escola, mas nunca fui popular com outras crianças… — Rudy comentou nervoso. Ao escutar isso enquanto saía do quarto, Eiro parou por um instante, pois não queria interromper o momento que os dois estavam tendo.
Com uma leve risada, Arc queria animar Rudy.
— Não se preocupe, você ficará bem! Em primeiro lugar, não haverá só crianças lá, a Academia é para pessoas de todas as idades! É mais dividida por habilidades, certo? Quero dizer, Felix também a frequentará e ele é três anos mais velho que todos nós.
— Acho… acho que sim, mas, mesmo assim, há muitas pessoas que não são legais com pessoas do meu… tamanho… — Rudy explicou e Arc levantou as sobrancelhas com um sorriso na face.
— Você terá uns dois ou dois metros e meio de altura, Rudy. Não há como as pessoas tirarem sarro por você ser um guloso! Aliás, comparado ao que você costumava ser, você já está bem mais magro! Você crescerá, então continue sendo ativo e ficará completa bem! Rudy, você vai ficar ainda mais gostoso que eu quando isso acontecer. — Com uma gargalhada, Arc disse seus sentimentos honestos para Rudy, que continuou sorrindo com um pouco de nervosismo, sem parecer acreditar total no que Arc disse.
Então, Arc parou de ser alegre, desde que isso provavel era um pouco mais sério do que pensara inicial.
— Rudy, acredite em mim. Você é meu irmão eu não mentiria para você com algo do tipo. Não acho que você terá problemas na academia. Você é gentil, habilidoso e esperto, não há motivos para presumir que tirarão sarro de você. Crianças são malvadas, mas pessoas da nossa idade deveriam conseguir enxergar coisas além da nossa aparência.
Parecia que Rudy estava ficando mais feliz em resposta às palavras de Arc e Eiro pensou que deveria deixar esses dois sozinhos. Foi ver como os outros estavam. Sammy acabou de colocar Leon e Avalin na cama enquanto Clementine estava deitada em seu quarto. Então o Demônio pensou que deveria ver Sammy primeiro, já que ela estava mais próxima e Clementine parecia estar pensando em algumas coisas, embora ele não tivesse certeza do que era.
Eiro se aproximou da jovem enquanto ela saía do quarto das crianças e sorriu para ela, que começou a sorrir quando o viu.
— Eiro! — Ela disse em algo parecido com um ‘grito sussurro’, já que estava animada por vê-lo, mas não queria acordar Leon e Avalin. Especialmente ao considerar que eles iriam querer falar com Eiro depois de escutar que ele estava aqui e ficariam animados demais para dormir pelas próximas horas.
— Você esteve fora o dia todo! Está tudo bem? — Sammy perguntou e Eiro assentiu sem hesitar.
— Claro que está tudo bem, só tive que cuidar de uma coisa, é relacionado ao ataque à Dama do Inverno.
— Ah… — Sammy disse, seu sorriso desaparecendo. — Você sabe por que aquele homem fez isso?
— Sei, sim, embora não tenha certeza de toda a situação ainda e explicarei para todos vocês assim que tiver todas as informações. Tudo bem, certo? — O Diabrete perguntou com um sorriso na face e ela acenou a cabeça. — Então, como estão indo seus preparativos? — Eiro começou a caminhar pelo corredor com Sammy ao seu lado, que estava com ambas as mãos atrás das costas.
— Está indo bem. Só estou muito nervosa… é minha primeira vez em uma escola de verdade…
Eiro virou a cabeça para olhar para a jovem ao seu lado.
— Você não disse que teve algumas aulas sobre diferentes áreas depois que… bem, foi transportada para longe?
— Eu tive, mas elas eram na forma de lições privadas, comigo sendo ensinada pelo meu tutor. Meus ‘amigos’ frequentavam uma escola de prestígio para crianças nobres, mas meus pais tinham muito medo de que eu… você sabe, fizesse algo…
— Entendo. — Eiro murmurou. — Mas pelo menos você não é a única que não está nervosa. Acho que o único de vocês que não está nada nervoso é Arc.
— Parece mesmo. — Sammy concordou com uma leve risada enquanto olhava para o chão.
— Você quer vê-los de novo? Seus pais, é claro.
Sem um momento de hesitação, Sammy parou de caminhar e mostrou uma carranca profunda enquanto olhava feio para Eiro por causa dessa ideia, mas assim que abriu a boca, Sammy se engasgou.
— Eu… eu não sei…
— Se um dia decidir que quer encontrá-los, me conte. Acho que é uma boa ideia mostrar para eles o que eles perderam por terem te tratado da forma como foi m vez de cuidarem de você. — Eiro disse sem pestanejar e Sammy olhou para o Demônio com os olhos lacrimejados, assentindo e limpando as lágrimas dos olhos.
— Claro, gostaria de ver seus rostos idiotas quando eu contar para eles que agora tenho um pai muito melhor. — Ela disse com um sorriso e Eiro assentiu, rindo baixinho.
— Esse é o espírito.
De repente, Eiro queria ter a chance de falar com Sammy por muito mais, mas percebeu Gobo parado no fim do corredor, olhando para ele com os braços atrás das costas e uma expressão vazia.
O Diabrete soltou um longo suspiro enquanto caminhava até o Hobgoblin evoluído. Gobo permaneceu ali com as costas eretas e, embora não tenha crescido após sua evolução, seu corpo mudou bastante.
O tom da sua pele ainda era um amarelo-amarronzado e seus dentes ainda eram mais afiados do que os de uma pessoa, mas além disso, suas proporções ficaram mais parecidas com as de um humano. Seu rosto se tornou menos feio, seu torso mudou para que não tivesse uma barriga tão inchada enquanto suas costelas podiam ser vistas e seus membros se tornaram mais humanos em proporção.
Na verdade, a este ponto, como o tom da pele de Gobo mudou ligeira para um marrom mais natural, ele provavelmente poderia se passar por uma pessoa, contanto que ficasse de boca fechada. Uma pessoa bastante feia, mas ainda assim uma pessoa.
Com os braços cruzados Eiro olhou para Gobo.
— Você precisa de algo? — Ele perguntou e Gobo assentiu.
— Sim, mestre. Se você tiver tempo. Gostaria de obter mais instruções. Não estou feliz com minha esgrima.
Eiro resmungou baixinho para si mesmo e olhou para Sammy.
— Desculpa, conversamos mais tarde, tudo bem? Cuidarei disso bem rápido e vou até você de novo.
— Tudo bem! Leve seu tempo. — Sammy disse com um leve sorriso e Eiro sorriu de volta, depois olhou para Gobo de novo. Os dois caminharam pelo corredor, o Demônio se certificando de que nenhuma das crianças estava por perto para bater no tijolo da parede ao lado dele.
Um dos tijolos foi empurrado para dentro da parede e uma das muitas portas secretas se abriu. Eiro entrou e foi até a biblioteca, onde encontrou Bavet sentado ao redor, olhando para os Bestiários, tentando encontrar monstros nos quais pudesse praticar sua transformação. Nesse instante ele era uma píton albina de três cabeças e virou uma das cabeças na direção dos dois monstros que entravam no cômodo.
— Hm? O que há de errado? Por que vocês estão vindo por aí? — O Slime Transformador questionou e Eiro se sentou em sua poltrona, encarando Gobo.
— É o que eu gostaria de saber. Certo, Gobo, o que foi? Por que você usou aquele ‘sinal’? — Eiro perguntou com uma leve carranca e Gobo juntou as mãos atrás das costas.
— Eu estava nos jardins hoje, praticando as coisas que o Mestre me ensinou. Pensei que estava sendo observado por muitos olhos diferentes. Isso continuou por uma hora. Continuei sentindo como se estivesse sendo vigiado. Depois de uma hora, desapareceram.
Imediatamente Eiro pulou da poltrona e encarou o Hobgoblin.
— O quê?! Quando foi isso?!
— Foi logo depois que você trouxe John de volta para as masmorras, mestre. Me desculpe por contar agora. Tentei informá-lo mais cedo, mas você estava dormindo. Então, não poderia acordá-lo.
Eiro resmungou e assentiu.
— Mal tenho dormido ultimamente, então acho que apaguei, mas onde foi isso? E você acha que eles te observaram? Você viu alguém ou sentiu que estava sendo observado?
— Senti como se estivesse sendo vigiado. Agi como se não tivesse percebido, porque eles poderiam querer lutar se percebessem algo. Então saíram. Olhei para os lugares em que os senti, mas nada estava fora de lugar. Não, pelo que eu lembre, mas tudo parecia estranho. Não consigo descrever como. — Gobo explicou e Eiro estalou as juntas dos dedos com um resmungo irritado.
— Certo, se tiver pessoas vigiando a minha casa enquanto eu estiver fora, isso vai ficar feio. — Eiro rugiu enquanto caminhava em direção ao caminho que levaria para o lado de fora o mais rápido possível, seguido por Gobo e Bavet depois de explicar o que havia de errado.
— Você vai ver se há algo diferente, certo?
— Claro que vou. — Eiro respondeu a Bavet. — Confio nos instintos de Gobo. Como uma evolução baseada num Guerreiro Mágico, confio nos sentidos dele para sentir mudanças no ar como essas. Se usaram habilidades para se esconderem até certo ponto, tem que haver mudanças na mana que preenche o ar. Mesmo que ele não perceba, acho que é daí que ele sentiu a sensação de que algo estava ‘errado’. De qualquer forma, melhor prevenir do que remediar. Se alguém estiver bisbilhotando, quero saber quem é… — Eiro comentou sem pestanejar enquanto olhava para o slime atrás dele, cerrando os dentes e ressaltava. — Não permitirei que ninguém tente bagunçar com este lugar, de jeito nenhum.