
Volume 3 - Capítulo 238
A Virtude do Demônio
Eiro estava voando de volta para casa enquanto tentava descobrir como deveria tentar encontrar o Colecionador. Provavelmente não seria tão ruim se ele esperasse e permitisse que a missão falhasse, se preparando para o fato de que ele viria tentar matá-lo. Havia alguns problemas que teria que lidar como consequência disso, como ter que esconder as crianças até que o Colecionador morresse, para que ele não pudesse usá-las de alguma forma.
Mas, embora fosse útil aumentar seu rank na organização, no fim o mais importante que conseguiria disso tudo sem depender de sucesso ou falha era o fato de que iria subir de nível. Considerado a força aparente do Colecionador, não havia dúvidas de que Eiro subiria alguns níveis depois de matá-lo, e isso era muito mais valioso do que subir de rank na organização. Isso era algo que ainda não tinha certeza se valia a pena ou não.
Independente disso, claro que Eiro ainda gostaria de encontrá-lo nessa semana e o motivo principal para isso nem era aumentar seu rank na organização, mas que Eiro teria a vantagem da surpresa, ou assim esperava. Ele não tinha noção da extensão que o assassino ficaria ciente da sua existência e o que descobriria, mas se fosse ao ponto de saber tudo sobre suas habilidades, força e fraquezas, então isso seria uma desvantagem imensa, considerando que tudo o que Eiro sabia no momento era que ele era habilidoso com furtividade e poderia manusear uma faca.
— Você está bem, Eiro? — Gondos questionou depois de notar que o Demônio estava quieto, como ficava quando pensava demais. Eiro virou a cabeça para o Golem.
— Estou bem, não se preocupe. Só estou tentando descobrir como o assassino conseguiu desaparecer daquela forma. Não faz sentido que ele tenha conseguido… apagar completamente seu cheiro, exceto se seja muito, muito mais poderoso do que pensei, mas se esse for o caso, então a missão para matá-lo seria impossível. Não acho que seja o caso. — Eiro explicou tentando expressar seus pensamentos, algo que sempre ajudava seu raciocínio, fosse através da fala ou da escrita.
— Mas e se você nunca fosse capaz de completar a missão? Talvez eles tenham descoberto quem você é e deliberada te entregaram uma missão impossível de resolver? — Ao escutar as palavras de Eiro e notar o quão preocupado ele estava, Nelli deu sua opinião sobre a situação, mas Eiro balançou a cabeça em resposta a isso.
— Estou bastante confiante de que existem formas muito mais fáceis, se quisessem me matar. Maneiras de me usar para seus próprios fins. Se eles fizessem outra pessoa me matar, então isso significaria que perderiam três cartas. Duvido disso. — Eiro disse sem rodeios, levantando as sobrancelhas. — Mas, na verdade, acabei de ter uma ideia. No pior cenário, posso usar meu Ás de Copas. Seu efeito só acaba quando mato uma pessoa, então posso causar quantos danos eu quiser. A penalidade de um ano será problemática, mas é melhor que morrer…
— Na verdade, por que você nunca o usou da forma correta… exceto, de forma ‘errada’? Você nunca o bebeu. — Bavet comentou da palma de Eiro, desde que ainda estava fundido, e o Demônio assentiu.
— Não. Porque eu não preciso. Na maioria das vezes, consigo resolver a situação sem isso. Claro, se chegar ao ponto em que morrerei se não usar, contanto que ainda tenha a poção cheia, definitivamente a beberei e esperarei por mais um ano, se a solução for matar algo ou alguém.
Bavet permaneceu em silêncio por alguns instantes, tentando compreender que tipo de situação Eiro precisaria usar essa carta da forma correta, e por que ele não a usava para facilitar sua vida, até que Nelli explicou. Ela entendia o que Bavet estava pensando agora.
— Agora, o Ás de Copas é sem dúvidas a carta mais forte de Eiro. Ela possui muitos efeitos colaterais, mas, assim como ele disse, Eiro pode matar praticamente tudo com ela se quiser. Ele pode sair de qualquer situação, salvar qualquer pessoa que quiser e destruir uma cidade inteira, mas ele não o faz, porque é a sua carta mais forte. É literal o ás em suas mangas. Em uma emergência, definitivamente salvará a vida dele, não há dúvidas disso. E você não quer usar seu trunfo à toa.
Eiro concordava com o que Nelli disse. Ela estava certa, essa era a mentalidade dele e o raciocínio do porquê de não usar essa carta. Parecia que Bavet logo entendeu a razão do Diabrete fazer as coisas dessa forma e o resto do voo passou em silêncio mais uma vez, embora não tenha sido um voo muito longo.
Portanto, Eiro logo pousou na frente da sua mansão e entrou depois de um dia bastante longo. Parecia que todas as crianças estavam em seus próprios quartos fazendo suas próprias coisas, trabalhando em seus projetos, lendo, praticando alguma habilidade, ou se preparando para a escola que começaria daqui uma semana. Parecia que Felix estava muito nervoso, já que nem imaginava que conseguiria frequentar a academia.
Desse modo, Eiro escolheu tirar uma pausa, indo para seu quarto e caindo na cama depois de jogar o núcleo de Bavet na banheira de slime colocada na biblioteca para que ele pudesse assumir qualquer forma que quisesse. Ele fechou os olhos e decidiu tirar um cochilo, algo que não fazia com muita frequência.
Logo Eiro foi acordado com alguém batendo na porta. Não havia mais luz entrando pelas cortinas, então parecia que a noite havia chegado enquanto Eiro dormia. O demônio se levantou da cama e disse, com um suspiro:
— Entrem, vocês três.
A maçaneta foi abaixada e a porta foi aberta, James entrando seguido por Krog e Jess, todos olhando para Eiro com curiosidade.
— Então? — Jess questionou, já que mais ninguém fez. — Como foi?
Eiro coçou a parte de trás da sua cabeça, tentando pensar sobre e respondendo de uma forma muito simples.
— Bem, eu acho? Me tornei um membro, subi um pouco em seus ranks e aceitei algumas missões. — Ele explicou. — Falando nisso, como foi o para você hoje? Tiveram uma reunião com um antigo cliente, certo?
Os três se entreolharam com um leve resmungo, assentindo.
— Tivemos, mas foi muito irritante e paranoico. Então, quando tivemos que dizer que James não era mais o Líder do Grupo, ele começou a surtar e a pensar que seus ‘antigos inimigos’ estavam se apossando daqueles próximos a ele… ele está um pouco doente, se não percebeu. Ele nos pediu para encontrarmos algum tipo de bugiganga que foi roubada dele. O problema é que ele não quer nos contar sobre a situação porque pensa que podemos vender a informação, em vez de ajudá-lo. — Krog explicou com um tom irritado.
Eiro decidiu que deveria perguntar mais sobre isso mais tarde, mas era óbvio que o trio à sua frente queria saber mais sobre o que aconteceu com a organização hoje.
Portanto o Demônio começou a explicar as informações adicionais que descobriu sobre a organização, como que tipo de pessoa havia lá, como as estruturas dentro da base da organização eram construídas e coisas do tipo. Fora isso, não havia muito que Eiro ainda não tivesse contado para eles sobre as informações que conseguiu interrogando John.
Além disso, Eiro explicou as missões que recebeu assim como os palpites que tinha sobre o contexto das missões, agora que deu uma olhada em primeira mão. Isso, além dos problemas que tinha com uma das missões que ainda faltava, e seu encontro com Bahlsen.
— Outro portador de carta? E o Cavaleiro de Ouros, ainda por cima… — James murmurou. — Parece uma carta muito útil, não parece?
— Claro que é, principalmente se for combinada com a percepção de Eiro.
— Não seria impossível que alguém guardasse qualquer tipo de segredo de você? — Korg perguntou enquanto concordava com Jess, mas Eiro deu de ombros.
— Claro, parece útil, mas não acho que tomarei isso de Bahlsen. Ele parece um cara legal e não é do tipo que quero matar. Com esse tipo, posso até me sentir mal por isso. E como a única forma de conseguir uma Carte de Ouros é matando seu Portador, duvido disso.
Os três encararam Eiro um pouco surpresos.
— Sério? Você se sentiria mal por matá-lo?
— Claro que eu iria, não gosto de matar pessoas inocentes e mesmo que não demonstre isso, também me sinto horrível com o frenesi que tive quando dizimei metade de uma vila a sangue frio. No fim eu estava coberto pelo sangue das pessoas inocentes que matei. Não é uma sensação boa, sabe? — Eiro comentou. — Mesmo que eu tenha torturado John e o transformado em uma monstruosidade sem sentir nada além de prazer, ainda tenho algumas emoções ‘humanas’.
— Ainda parece estranho que sinta isso… — James admitiu. — Mas não estamos tentando te insultar, desculpa se pareceu. De qualquer forma, acha que ficará bem perseguindo um cara como esse?
— Acho que sim. Ou melhor, espero que sim. Já estou preparado para o pior cenário, na verdade… Terminarei a outra missão da prisão e então concentrarei toda a minha atenção no caso do assassino.