
Volume 3 - Capítulo 237
A Virtude do Demônio
Assim que Eiro viu o cadáver deitado no chão à sua frente, empurrou uma onda de mana para cada parte do seu corpo que conseguia, manipulando tudo o que era capaz para sentir cada detalhe do espaço ao redor.
— O ‘Colecionador’ possui uma habilidade incrível na área de ‘Furtividade’. Pode ser por isso que algumas vezes você tem dificuldade contra ele. Felizmente sou o pior oponente que um lutador baseado em furtividade poderia querer, mas, ainda assim, é problemático. Muito problemático. — Eiro comentou enquanto se agachava na frente do corpo. Ele parecia estar em perfeitas condições. Se Eiro não soubesse a verdade, à primeira vista teria achado que essa mulher estava tirando um cochilo. Por fora, ela não parecia ter ferimentos visíveis, e seu torso também estava coberto por uma camisa grossa que escondia o fato de estar completa afundado onde não havia ossos.
O Colecionador havia retirado todos os órgãos internos que havia dentro dessa mulher. Eiro cerrou os dentes e olhou para Bahlsen.
— Procure por quaisquer pistas que puder. Se conseguir me dar algo, nem que seja o menor traço do odor do Colecionador, serei capaz de encontrá-lo. — O Demônio anunciou. Não sabia por quê, mas Eiro sentia… nojo com essa visão. Apesar do fato de ter observado um homem devorar cadáveres, rasgando-os com os dentes enquanto sentia emoções semelhantes ao prazer ou deleite.
Mas ver esta mulher dessa forma, deitada sem a menor possibilidade de vida, Eiro sentiu… um tipo de vazio. Como se seu corpo tivesse um abismo profundo e escancarado dentro dele, como essa mulher. Não era uma sensação que ele gostava de experienciar, mas era algo com que tinha que lidar.
— Claro, mas acalme-se primeiro. Não queremos que você cometa algum erro porque está irritado, queremos? — Bahlsen apontou com um leve sorriso direcionado para Eiro, enquanto se aproximava da garota morta. Enquanto olhava para ela, franziu as sobrancelhas e respirou fundo. Ele também foi afetado por isso, se lembrando da sua família.
O Diabrete aguardou enquanto Bahlsen fazia sua mágica. Sem ter que esperar por muito tempo, ele logo pareceu ter descoberto algo que poderia ajudar Eiro.
— Embora não tenha encontrado algo que possa te ajudar a rastrear o cheiro dele, posso te dar outra informação. Como sempre, ele usou uma faca muito afiada que deve ter uns 18 centímetros de comprimento e 2,8 centímetros de largura. É uma faca de um gume, uma que foi reaproveitada de uma faca de cozinha comum. Comparado aos ferimentos mais antigos que dei uma olhada, esses parecem ligeira mais… bagunçados. Não muito, se comparado ao estado em que os via antes. E com ‘bagunçado’ quero dizer que as bordas dos cortes não estão tão limpas como eram antes. Embora não esteja certo, por muito tempo presumo que ele também usa algum tipo de magia para ajudá-lo, talvez algo que o permita diminuir o sangramento ou facilitar cortar através da pele. Ele é capaz de usar magia, porém não tenho certeza se a usou aqui, embora pense que sim.
— Entendi, entendi… — Eiro respondeu com um leve resmungo.
Para ele, os cortes pareciam muito limpos. Claro, havia um pequeno rasgo irregular em vez de um corte regular, mas era tão pequeno que Eiro ficou surpreso por Bahlsen ter sido capaz de vê-lo. Em primeiro lugar, o Demônio não conseguiu imaginar que fosse possível cortar de forma mais limpa que isso. Ainda mais que antes, ficou impressionado com a habilidade que o Colecionador estava mostrando. Ele era uma pessoa muito forte, não havia mais dúvidas em Eiro, não que houvesse muito do que duvidar em primeiro lugar.
De qualquer forma, Eiro permaneceu ali e tentou descobrir algo que Bahlsen não conseguiu, e começou a tentar separar os aromos desse cômodo. Talvez conseguisse identificar os aromas persistentes nesse prédio.
Eiro escutou que era possível para pessoas que tinham um nível muito alto em furtividade reduzir seus batimentos ao ponto em que parassem de bater, diminuir sua respiração ao ponto de praticamente não respirarem e apagar quase completa seus odores corporais. Esse colecionador também era capaz de fazer coisas assim, desde que conseguiu disfarçar até mesmo coisas como cadáveres depois de matá-los, mas o fato era que não havia como se livrar completamente de todos os vestígios e isso ajudaria a encontrar o odor específico que procurava, desde que seria fraco em comparação com todo o resto.
Mas, ainda assim, por ser tão fraco, Eiro não conseguiu captar bem suas propriedades. Ele sabia que ele estava ali, mas não sabia bem como era. Era como a sensação de uma palavra estar presa na ponta da sua língua, só que com odores.
Entretanto, como ações como apagar odores são anormais, uma certa força tinha que ser usada para realizar isso.
E essa força era mana.
Eiro virou a cabeça para Gondos e esticou sua mão na direção dele. O Golem compreendeu de imediato o que o Demônio queria e pressionou a palma da mão que escolheu expor. O Espírito percorreu o corpo de Eiro e se fundiu com ele, fornecendo ao Diabrete a capacidade de sentir mana com muito mais intensidade do que a minúscula quantidade que conseguia quando aprendeu a habilidade de se combinar com seus Espíritos.
De qualquer forma, o aspecto da ‘mana’ foi aplicado a tudo o que Eiro sentia. Embora apagar um cheiro fosse uma boa forma de se tornar irrastreável por meios físicos, ela se tornava o alvo perfeito para ser rastreada por meios mágicos, desde que requeriam muita mana. A mana se fundia com partes do odor e o escondia, desse modo, Eiro conseguiu captar o cheiro deixado pelo assassino e, agora, conseguia procurá-lo.
Com um sorriso no rosto, olhou para Bahlsen.
— Siga-me. Reportaremos isso aos guardas mais tarde, ou deixaremos o corpo dela aqui se precisarmos. Por ora, precisamos ir em frente e rastrear o Colecionador. — Eiro disse, ignorando o fato de que Bahlsen estava tentando questioná-lo sobre o que acabou de fazer, por que aumentou sua altura, por que sua voz mudou e por que estava mais musculoso agora, mas Eiro o ignorou, já que não era importante.
O demônio seguiu o cheiro e o rastro de mana, cuja origem era o assassino. Primeiro, ele os levou de volta às ruas das favelas. Eiro estava dando seu melhor para ignorar os outros, enquanto tentava focar no aspecto mágico das coisas, mas isso era algo difícil se fazer quanto mais tempo se passava. Na verdade, esse foi um dos maiores períodos que Eiro passou fundido com Nelli ou Gondos. Definitivamente o mais longo com uso em uma situação real, aliás. As únicas vezes em que Eiro e Nelli ou Gondos passaram disso foi quando praticavam para aumentar o tempo que conseguiam ficar fundidos de forma confortável. Como a fusão estava longe de ser perfeita, isso era algo muito importante de se descobrir.
Eiro seguiu o rastro do odor do assassino pelas ruas, até que a trilha saiu das favelas e seguiu em direção às áreas comuns da cidade. A princípio, era como se o Colecionador estivesse correndo sem objetivo, mas parecia mais como se estivesse procurando por algo.
‘Possivelmente a próxima vítima,’ Eiro pensou. Então Bahlsen o parou.
— É aqui que o rastro leva? — Ele perguntou e Eiro se virou e acenou a cabeça.
— Sim, é aqui. Isso te dá alguma pista?
O investigador olhou para um dos prédios adjacentes à rua, acenando com a cabeça sem dizer nada. Eiro olhou para o prédio um pouco confuso, percebendo do que se tratava.
— Essa é a pousada em que você está ficando, não é? — O Demônio perguntou. Sem hesitar, Bahlsen olhou para Eiro.
— Ele está indo até lá? Diga-me, está?
Eiro respirou fundo e tentou continuar seguindo o cheiro, visualizando o rastro em sua mente. Pelo que conseguia dizer, era como Bahlsen presumiu. O rastro do odor levava direto para a pousada. Sem hesitação, os dois entraram e continuaram seguindo o cheiro. Ele subia as escadas, até o fundo do corredor.
— Ele… para aqui… — Eiro murmurou confuso, enquanto olhava para sua frente. Bahlsen parou na frente da porta com uma expressão em branco.
— Este é o meu quarto… Ele veio aqui na noite passada? Esse bastardo está brincando comigo?
Com puro ódio brotando dentro de Bahlsen, ele continuou encarando a porta.
— Eu não notei nada quando acordei essa manhã e definitivamente teria percebido. Então, você disse que parou aqui? Quer dizer que o rastro leva para dentro do quarto? O filho da puta me observou dormir?!
Eiro olhou para ele e balançou a cabeça.
— Não, é como eu disse. A trilha para aqui. Ela desaparece bem em frente à porta. É bastante forte aqui, mas não parece ir para outro lugar. Sem entrar no quarto, sem continuar pelo corredor. A única coisa que consigo imaginar é que ele fez o exato mesmo caminho, voltando até a vítima…
O problema com isso era simples: deveria ser impossível. Não era improvável, era impossível. A única explicação lógica que Eiro conseguiu pensar era que o assassino parou de usar mana para esconder seu odor e, em vez disso, usou outros meios para fazê-lo desaparecer, de forma que nem mesmo Eiro conseguia perceber.
A única forma possível era se o assassino tivesse o Ás de Copas, que o fazia desaparecer do mundo por doze horas, mas esta carta estava com Eiro, então, de novo, era impossível.
— Quem quer que seja o ‘Colecionador’, ele é insanamente forte…