
Volume 3 - Capítulo 236
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para Bahlsen com os braços cruzados, esperando pela explicação de como esse beco era o local em que deveria começar a procurar pelo ‘Colecionador’. E ele rapidamente o fez.
— Veja, o Colecionador possui alguns hábitos diferentes. O mais importante de se notar é que ele escolhe vítimas aparentemente aleatórias. Algumas delas possuem vagas conexões entre si, enquanto outras não poderiam ser mais diferentes. Isso porque ele não se importa com o status, idade, gênero ou aparência das vítimas… mas com suas partes. Como se estivesse comprando, ele seleciona o melhor do melhor com que se depara.
— Hm, isso faz sentido… Se ele quer criar algum tipo de abominação, usar os ingredientes mais fortes e de melhor qualidade faria muito sentido. — O Demônio apontou com um aceno lento, embora tenha sido surpreendido quando Bahlsen balançou a cabeça.
Parecia que havia mais do que só isso.
— O ‘melhor’ não significa ‘mais qualidade’ nesse caso. Suas vítimas seguem um tema, embora um muito, muito sutil que a maioria nunca perceberia, mas eu consegui. Em retrospecto, o tema quando minha esposa e filha foram assassinadas era simples: elas se assustaram com um rato-de-conha correndo no chão na frente delas quando iam ao mercado. O colecionador as viu e as escolheu. Ele já havia escolhido mais três alvos desta vez, excluindo aquela a quem você está procurando, então consegui descobrir o tema dessa vez, e é tão arbitrário como sempre.
Eiro olhou para ele com uma carranca, curioso com o que poderia ser.
— O que foi que fez esse homem matar essas pessoas?
— … Elas espirraram. — Bahlsen explicou. — Foi isso que elas fizeram. É a única conexão que consegui chegar.
O Diabrete encarou Bahlsen com uma carranca.
— Como você conseguiu fazer conexões como essa? Como você poderia saber disso?
— Ah, é simples. O Colecionador sempre procura por vítimas em lugares muito populosos. Parece ser uma espécie de excitação para ele. Então, tudo o que tive que fazer foi conversar com as pessoas nos locais que as vítimas frequentavam no seu cotidiano. Veja bem, antes de assumir este meu ‘cargo’, eu trabalhava em uma nação estrangeira para… uma parte bastante secreta do governo. Mais especificamente, eu era especializado em manipulação de memória. Eu deveria fazer as pessoas se esquecerem, mas também posso fazê-las se recordar. Como interrogar potenciais testemunhas faz parte de uma investigação e fazê-las falar é uma habilidade que um investigador deveria ter, essa habilidade foi muito aprimorada. Se tornou mais difícil fazer as pessoas esquecerem, mas muito mais fácil fazê-las se recordar. Assim, até mesmo detalhes como o espirro de um estranho podem ser trazidos à tona.
— Você possui uma boca muito solta para alguém com quem estou confiando um dos meus maiores segredos. — Eiro resmungou, mas Bahlsen sorriu em resposta.
— Não se preocupe, eu nunca revelei o segredo de ninguém. E, de novo, se você quiser acreditar nas informações que forneço, preciso te contar como as consegui.
— Então? Continue. — Eiro respondeu enquanto esfregava a ponte do seu nariz, e Bahlsen sorriu.
— Claro! Veja, na verdade, acabei de terminar de investigar as pessoas no lugar onde nos conhecemos e isso me levou nessa direção, pois a mulher que foi a última vítima vivia por aqui. O Colecionador gosta de matar suas vítimas em suas próprias casas, como uma espécie de ‘jogo de poder’. Matá-las nos lugares em que costumam viver pode ser simbólico. Nunca consegui falar com ele antes, então não posso dizer muito sobre a personalidade dele para chegar a alguma conclusão do porquê ele faz as coisas dessa forma.
O Demônio cruzou os braços com uma carranca suspeita. Isso soava meio… estranho.
— Se esse for o caso, então por que você está me deixando ir junto? Você quase o pegou por conta própria, certo? Não precisa de mim.
— Ah… — Bahlsen respondeu. — Isso não é verdade. Eu não sou um lutador, mas parece que o Colecionador pode ser. Ele é muito talentoso em me evitar, então ter uma segunda pessoa, que além disso parece ser um guerreiro muito poderoso, pode ser muito importante e uma adição vital. — O investigador explicou. — E eu sei que poderia confiar em você, porque se não fosse o caso não teria como você ter conseguido contratar dois Espíritos e ter formado uma conexão tão poderosa com eles.
— Falando nisso, como você sabe sobre eles? Consegue vê-los? — Eiro questionou. Ele se sentia incerto sobre isso, como se algo estivesse errado, apesar de Bahlsen parecer ser uma boa pessoa. Era como se seus instintos gritassem que Bahlsen era confiável, ao mesmo tempo que outra parte oculta de seus instintos sussurrava para Eiro fugir. Parecia sem sentido, mas era assim que era.
Bahlsen sorriu e olhou a cabeça na direção em que Nelli e Gongos estavam flutuando no espaço intermediário entre esse reino e o reino espiritual, onde Eiro conseguia vê-los.
— Consigo ver qualquer tipo de conexão que os outros não conseguem, e isso inclui aquelas de natureza arcana, divina ou mágica. Consigo ver o fio conectando você com os dois seres flutuando ao seu lado. O único caso em que vi algo desse tipo foi quando falei com um mago espiritual, mas a conexão era fraca, como se fosse se partir a qualquer instante, até mesmo se um inseto encostasse nela, mas a conexão entre você e seus dois Espíritos é diferente. Como… uma corda grossa que seria capaz de segurar cinco de você.
— … Compreendo. — Eiro respondeu, coçando a parte de trás do seu pescoço. Ele virou para o lado e olhou para Nelli e Gondos, que o encaravam de volta.
— Tem certeza de que isso é uma boa ideia? — O Golem questionou, querendo que Eiro fosse cauteloso com esse cara, desde que aparentava sentir as mesmas sensações que Eiro. Porém, o Diabrete não tinha muita escolha e, particularmente, não queria deixar esse cara correndo livre por aí, sabendo sua verdadeira identidade. Ele poderia matá-lo, claro, mas, por algum motivo, Eiro se sentia um pouco mal por esse cara.
— Acho que não há muito mais o que falar então, hein? Use seus poderes para encontrar o cadáver, e eu cuido do resto. — O Demônio sugeriu e parecia que agora foi a vez de Bahlsen ficar curioso sobre o motivo de Eiro querer encontrar o assassino.
Mas, por enquanto, ele parecia ter deixado de lado esses pensamentos e investigou ao redor deste local. Essa era a primeira vez que Bahlsen ficou em silêncio por mais do que dez segundos enquanto mais ninguém estava falando. Como se estivesse hiper focado no mundo ao seu redor, tentando procurar por qualquer coisa que pudesse ajudá-lo.
Claro, Eiro fez seu melhor para manter os olhos de Bahlsen à vista o tempo todo para que pudesse entender para o que exata ele estava olhando. Talvez conseguisse pegar uma coisa ou duas. De qualquer forma, por ora, Eiro teria que esperar um pouco mais. Ele ainda tinha uma semana sobrando, então não era um problema de fato se Bahlsen levasse seu tempo.
Mesmo assim os pensamentos de Eiro começaram a divagar. Começou a pensar sobre as palavras de Bahlsen. O assassino era um lutador, o que fazia sentido se gostava de matar as pessoas brutalmente por diversão, mas parecia que ele também era um lutador muito capaz, um muito forte. E nisso mesmo, Eiro percebeu que algo estava estranho, adicionando uma última conexão mental para descobrir esse mistério por conta própria, enquanto Bahlsen fazia suas próprias coisas.
Duas das missões resultariam em Eiro sendo caçado publicamente. Nem o mercador nem o diretor deveriam ter proezas de combate imensas ou até mesmo tempo para caçar Eiro por conta própria. Então, eles tornariam isso público e colocariam uma recompensa por Eiro. Dependendo da informação que recebessem quando ‘descobrissem a existência’ de Eiro, eles também poderiam revelar que ele era um monstro. Claro, isso era algo que ele gostaria de evitar. Ele não queria que seu segredo fosse revelado.
Entretanto, quando se tratava do assassino, era diferente.
Se ele era tão forte, então provavelmente mataria Eiro, o que insinuava a penalidade da missão de qualquer maneira, mas ele não revelaria informações sobre tudo isso, desde que isso poderia revelar sua identidade como o assassino. Então, ele caçaria o Diabrete por conta própria. Isso significava que a razão dessa penalidade ser diferente das outras duas, em vez de ser inspirada pelo fato de que Eiro queria esconder quem, ou o que, ele era, deveria ser inspirada por outro motivo: pelo fato de que o Demônio não queria morrer e o medo da morte que carregava consigo desde que viu seus companheiros Diabretes Inferiores espalhados pelo chão da floresta naquela época.
Então, estava claro que o assassino era uma pessoa muito poderosa. Quem sabe, talvez ele já fosse parte da organização, embora parecesse um pouco improvável que existisse uma missão se fosse o caso. Por outro lado, Eiro não sabia como o sistema de missões funcionava, então poderia ser algo do tipo.
Assim que Eiro pensou nisso, Bahlsen começou a sair do beco como se estivesse em um transe, seguindo um rastro invisível. Eles continuaram pelas ruas das favelas, enquanto o investigador olhava sem parar para os arredores, tentando encontrar o máximo de pistas possíveis.
Desse modo, Bahlsen e Eiro pararam na frente de um prédio em ruínas. Eiro pressionou sua palma na parede que a formava e bateu seu pé no chão, enquanto fechava os olhos e tentava ‘sentir’ tudo que havia ao seu redor, começando a franzir a testa.
— Isso é estranho… — O demônio murmurou. Ele empurrou a porta de madeira apodrecida e caminhou pelos cômodos pequenos e sujos, seguido por Bahlsen. Assim, Eiro logo se deparou com outro cômodo, pressionando mais uma vez sua mão na parede, mas dessa vez, em vez de tentar sentir as coisas ao redor, revelou algo que já estava lá desde então. A figura de uma mulher morta escondida à plena vista. O problema era que o cadáver estava perfeita escondido, usando furtividade. O tipo que te permitia se misturar com o ambiente.
O mesmo tipo que Eiro estava tentando aprender com a ficha de furtividade que sempre colocava no fantoche.