
Volume 3 - Capítulo 235
A Virtude do Demônio
— Ele é chamado de ‘Colecionador’? Sério? — Eiro questionou com um sorriso irônico sob sua máscara e o homem à sua frente assentiu lenta com um pouco de surpresa. — Sim, já ouviu falar dele antes?
— Não, não é isso… — Balançando a cabeça, o Demônio cruzou os braços. — Uma das classes que tive era chamada de ‘Colecionador’, então é estranho ouvir alguém ser chamado por esse apelido.
— Ah… — O homem respondeu. — Bem, essa é uma infeliz coincidência, não é?
Eiro assentiu.
— Pode-se dizer que sim. De qualquer forma, no fim, não importa. Logo ele será chamado de ‘antigo colecionador’.
— Entendo, então você também está decidido a capturá-lo. — Com um sorriso brilhante na face, o homem olhou para Eiro com uma expressão animada, mas o Demônio deu de ombros.
— Melhor do que ‘capturá-lo’, eu quero matá-lo.
Com um aceno lento, o homem olhou de volta, sorrindo um pouco.
— Entendo… Por acaso estaria interessado em trabalhar comigo nisso? — O homem perguntou. Ele olhava para Eiro com uma expressão séria e dedicada e o Diabete pensou que não havia razão para recusar a ajuda, afinal, ele poderia ser útil.
— Claro, ter outro Portador de Carta pode ajudar. — Eiro disse. O homem o encarou de volta e sorriu.
— Pensei que estava imaginando, já que você mal reagiu. De fato, também sou um companheiro portador de carta. Estou feliz que você não está pensando em esconder isso.
— Não que isso fosse funcionar de qualquer forma, certo? Venha, acho que podemos falar um pouco melhor do lado de fora. — O Demônio sugeriu. O homem à sua frente assentiu e escolheu seguir Eiro para fora.
Foram para uma área onde não havia ninguém por perto, onde Eiro se inclinou contra a parede encarando o homem.
— Vamos começar pelo básico. Primeiro, como você deve saber pela força da ‘Aura’ que sente de mim, eu possuo mais de uma carta. Só irei revelar aquela que usarei ao seu redor, o Três de Espadas. Tenho cinco lâminas que estão sob meu controle e estou quase conseguindo a sexta. Segundo, meu nome é Eiro. Esse é o meu nome de verdade, então não questione. Terceiro, não revelarei nenhum outro tipo de informação sobre mim, incluindo meus motivos para caçar o ‘Colecionador’. Você não precisa me contar sobre sua carta, seu nome real, ou nada sobre você, contanto que forneça algo para me referir a você e informações sobre o assassino.
Parecia que o homem estava de acordo com tudo isso, embora, na verdade, Eiro estivesse tentando descobrir qual carta ele possuía. Ele não tinha cartas físicas com ele, então tinha que estar na sua forma de item. Exceto se fosse uma Carta de Ouros, claro. Então, seria uma habilidade. Apesar de que não parecia haver nada tão especial nele, pelo que Eiro sentia, então talvez não fosse uma habilidade.
Bem, foi isso que Eiro pensou, até que ele foi informado do contrário.
— Acho que devo pelo menos contar minha carta em troca por você ter dito a sua. Talvez isso facilite para que acredite nas minhas palavras. Bem, minha carta é o Cavaleiro de Ouros. O-
— O Investigador… — Eiro terminou com uma carranca profunda. — Sabe, acontece que é bem difícil para eu acreditar que você tem essa carta, considerando que aceitou a ajuda de um completo estranho e nem o questionou.
— Tem certeza disso, Senhor Demônio? — O homem respondeu. — Sei bastante sobre você. Você tem corrido por essa área da cidade o dia todo, falando com diferentes pessoas sobre não apenas o assassino, mas também perguntando se precisam de ajuda. Você parece bastante gentil, apesar do fato de que um dos Espíritos parece olhar para você constantemente. Vi você mover suas mãos e embora sua mão direita pareça um pouco ferida, você é incrivelmente habilidoso e não apenas no campo de combate. Claro, você se move quase sem fazer barulho e a maioria das pessoas não sabe da sua presença até que fale com elas ou pare no caminho delas, mas pela forma como se porta, você prefere um estilo de combate mais direto, se puder lutar dessa forma. — Ele resumiu.
— Também posso mencionar o fato de que tudo o que você carrega, sejam suas roupas, seja sua bolsa e as coisas dentro dela, são de alta qualidade e possuem aspectos especiais. Sem mencionar que você parece esconder partes do seu corpo com magia. Há muitas coisas que já sei sobre você.
Eiro esticou a mão na direção do homem e retirou sua adaga da Tesouraria, segurando sua ponta contra a garganta dele.
— Por quanto tempo você esteve me seguindo? — Eiro questionou. — E, mais importante, como você se escondeu de mim?
Com uma leve risada, o homem balançou a cabeça.
— É um fato que conhecemos a existência um do outro há alguns minutos, mas este é o poder da minha carta. Ela me permite conectar as coisas na minha cabeça instantaneamente, relembrar de conhecimentos por um instante para conectá-lo ao que estou tentando descobrir e muito mais. Cartas com figuras são incríveis, não são?
Eiro encarou o homem de volta enquanto cerrava seus dentes, afastando sua adaga. Era isso que o Cavaleiro de Ouros deveria fazer, mas ele não esperava encontrar duas pessoas com cartas com figuras em um curto intervalo. Tanto Evelyn, portando a Rainha de Paus, como este homem, portando o Cavaleiro de Ouros. Embora não houvesse uma diferença direta entre as cartas do Ás ao Dez, as cartas com figura eram mais versáteis, mas mais difíceis de controlar. Elas não tornariam seu portador inerentemente mais forte, como qualquer outro Portador, mas as Cartas com figura muitas vezes tinham um traço único.
Esse não era o principal foco de Eiro agora. Na verdade… o fato de que ele descobriu tudo isso era problemático. Ele sabia que havia algumas pessoas que confiavam em monstros, mas-
— Posso ver que você está preocupado. Não se preocupe, não baseio meu julgamento em coisas como raça, idade, gênero, ou coisas com as quais não temos influência. Eu faço meus próprios julgamentos. — Com uma piscadela, o homem esticou sua mão. — Caso contrário, não teria revelado que conheço sua verdadeira identidade e teria esperado uma oportunidade para fugir ou te emboscar, não é mesmo?
— Como você descobriu? Tem habilidades de ‘Avaliação’ por causa dessa carta? — Eiro questionou, mas o homem balançou a cabeça.
— Na verdade não, embora muitos pensem que possuo. O que o Naipe de Ouros faz é aprimorar as capacidades que você já possui. Do ás ao dez, elas aprimoram seus atributos básicos, o único que não pode ser aprimorado é a Força de Vontade, enquanto as Cartas com figuras afetam conceitos. E, no meu caso, é o conceito da investigação. Não possuo nenhuma habilidade de avaliação em primeiro lugar, então não havia nada para ser aprimorado. Ah, mas como tenho essa carta há muito tempo, talvez eu consiga uma habilidade de avaliação quando conseguir minha classe única depois de alcançar o nível 100 da próxima vez. — O homem explicou com uma rajada de palavras.
Com um sorriso no rosto, continuou.
— De qualquer forma, descobri isso de uma forma muito simples. Pelo contorno do que quer que seja que você está tentando esconder. Presumo que são asas e uma cauda? Claro, de imediato, isso significa que você não pode ser uma pessoa. Há uma raça de pessoas parecidas com pássaros, que possuem asas e algo similar a uma cauda, mas as asas são conectadas aos seus braços, enquanto a cauda é curta e atarracada. Sua cauda parece estar enrolada ao redor da sua cintura e suas asas não estão conectadas aos seus braços. Então, você tem que ser um monstro. Junto com o fato de que você parece cobrir sua pele para não revelar nada, você parece perfeitamente humanoide, exceto por essas partes extras e até mesmo escolheu esconder seus olhos. Suas orelhas também parecem pontudas, julgando pelo contorno que consigo ver… Portanto, a conclusão é muito simples. Um tipo de monstro com um tom de pele diferente de qualquer pessoa, com potencial para ter asas, chifres e caudas, com olhos e orelhas que também são diferentes dos das pessoas e, para completar, potencial para ter inteligência e destreza incríveis, como você já me mostrou. O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi ‘Demônio’. Então, tentei a sorte.
Eiro olhou de volta para o homem, resmungando e suspirando, sentindo-se um pouco sobrecarregado por esse tipo. Ele parecia ser do tipo de pessoa que divagava sem parar. Claro, Eiro também tinha a tendência de fazer isso, mas a forma como esse cara falava ainda era de outro nível.
— Ótimo, acredito em você por ora, porque tudo o que você disse está correto. Não sei se posso confiar tanto em você, mas, por enquanto, definitiva preciso da sua ajuda e prefiro não ter que te matar para conseguir sua carta, já que você tem outras informações que eu não tenho. Eu tenho muitas outras questões, mas, por agora, me diga como te chamar e vamos começar essa maldita investigação. Aliás, me diga por que não conseguiu descobrir isso sozinho, apesar de ter conseguido deduzir que sou um Demônio a partir de uma interação de dois minutos.
— Haha, maravilhoso! É bastante intrigante trabalhar com um ser de outro reino como você! Você deve ser capaz de me fornecer um tipo completamente diferente de contribuição! — O homem exclamou. — Mas não se preocupe, se desejar, pode me chamar de Bahlsen.
— Não sou do inferno, passei toda minha vida neste reino, mas é um prazer conhecê-lo, Bahlsen. Por ora, tem algumas ideias de onde devemos começar a procurar.
— Oh, é claro, eu sei! Bem ali, na verdade!