A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 229

A Virtude do Demônio

— Oh, interessante, interessante… então é assim que a organização funciona, hein? E como sua posição é decidida? — Eiro perguntou com um sorriso interessado em seu rosto, e o ser na frente da cela assentiu, limpando o sangue nos cantos da sua boca, lambendo-o com vigor com sua língua alongada e bifurcada.

— Sim, sim… Nós somos ranqueados por força… Quanto mais forte você é, mais direitos possui… Há números e letras… se alguém alcança chega ao ‘Número 1’, ele tem o direito de desafiar a ‘Letra Z’… se vencer, podem se tornar uma letra… — John explicou enquanto mastigava os ossos no chão à sua frente. Ele havia mudado bastante e muito rápido quando a habilidade Tabu alcançou no nível 20.

Sua pele antes bronzeada, agora assumiu uma coloração pálida, como se fosse um cadáver, era seca como uma lixa. Os dentes e unhas de John racharam e, junto com o branco dos olhos, assumiram uma cor amarela, enquanto seu cabelo ficou branco e ralo, além disso, parecia que John mal conseguia fechar seus olhos injetados de sangue, e a cor de suas íris também estava mudando.

Na verdade, seria difícil para alguém o reconhecer nesse estado. Era uma maldição bem monstruosa. Eiro ficou feliz que os monstros eram odiados pelos deuses desde o começo… Se não, teria sido amaldiçoado há muito tempo. De qualquer forma, o bom era que John era influenciável com facilidade agora. Como se fosse incapaz de mentir, e respondia quaisquer questões que fossem feitas da forma mais verdadeira e genuína possível para ele.

— Então, de qual ‘rank’ você era? — O Demônio questionou e John olhou para ele com um sorriso brilhante.

— Eu era o número 9! — Ele explicou e Eiro levantou as sobrancelhas.

— Entendo… Você conhece algo sobre estes outros dois membros? Evelyn, a feiticeira da pedra de sangue, e Enka, o antigo guerreiro chefe de Argberg.

— Sim! Sim! — John exclamou com puro entusiasmo escrito no seu rosto. — Eu sei! Ambos são letras! Evelyn é a Letra ‘H’, e Enka a Letra ‘X’!

— Hm… Então, há uma diferença tão grande mesmo entre as ‘Letras’? Dever ser fácil passar pelos ranks de número, então… Certo, como posso me juntar à organização, e quais são os requisitos? — O Diabrete perguntou. Isso era o mais importante por ora. Parecia que se tudo era baseado em força, ele deveria conseguir passar pelos ranks de ‘Números’ com muita facilidade.

— Você precisa matar um número, ou ser convidado por uma carta! Mas monstros não podem se juntar, apenas pessoas, apenas pessoas! Monstros como você são usados como lacaios! —John explicou, embora também fosse bastante monstruoso no momento, apesar de que Eiro tivesse que pensar em outra coisa agora.

— Você deve estar brincando comigo, aquela vadia de fato tentou me enganar! — Eiro rugiu, tentando se recordar de quando Evelyn tentou convidá-lo para a organização. — Quão idiota ela acha que eu sou? Foda-se, quero matá-la!

— Calma, fique calmo, você terá sua oportunidade, apenas não deixe a marca te controlar. Continue fazendo mais perguntas… Há mais uma coisa que você precisa saber, certo? — Nelli interrompeu tentando acalmá-lo e o Demônio assentiu enquanto respirava fundo.

— Você está certa… desculpa. Certo, John. — Eiro disse enquanto se aproximava da cela de novo, com a criatura à sua frente rastejando pelo chão e o encarando com curiosidade e entusiasmo. — Por que você tentou matar a Dama do Inverno? De qual recompensa você estava falando?

— Você não sabe? Você não sabe? — John questionou com um sorriso brilhante, mas Eiro só o encarou. De imediato, John estremeceu devido ao medo que se enraizou nele. Mesmo que estivesse perdendo sua personalidade, esse fato ainda estava presente em seu subconsciente.

— A rec-recompensa… Por matar seres supremos… Reis e Rainhas dos Espíritos, ou seres antigos com força surreal… Batendo na porta dos céus ou dos infernos… se você os matar, conseguirá habilidades fortes…

Eiro olhou para John, esperando que ele continuasse, porém parecia que era só isso, sem nada mais a adicionar.

— Entendo. Acho que, tecnicamente, as Damas são tipos de Rainhas dos Espíritos, apesar de que talvez um pouco mais poderosas, mas que outros seres são esses? Como você sabe disso?

— Nós temos um artefato especial! — John exclamou.

— Vocês possuem ainda mais Cartas? Pensei que vocês só tinham três ou quatro…

— Não é uma Carta! As Cartas não são os únicos artefatos que temos! — John exclamou, e Eiro levantou as sobrancelhas.

— Parece razoável. E que artefato é este?

— Um livro… um livro cheio de tarefas! Como a Guilda…

Eiro começou a sorrir.

— É mesmo? Então, acho que isso é outra coisa em que devo colocar as minhas mãos. — O Diabrete disse, olhado para John com um sorriso. — Última pergunta. Onde eu preciso ir se eu derrotar um ‘Número’?

No fim da rua Seriam, ao centro da favela, ele virou à direita no beco, à direita na primeira bifurcação, à esquerda na segunda. Havia um beco sem saída. Aproximou-se da parede e bateu no tijolo central, preto como carvão. Uma batida. Pausa. Duas batidas. Pausa. Uma batida. Pausa. Três batidas.

Devagar, o tijolo preto central começou a se mover para trás e, além dele, tudo o que podia ser visto era um par de olhos encarando pela abertura.

— Eu te conheço? — Uma voz questionou, mas o homem parado na frente da parede no beco apenas sorriu de volta. Ele tinha um rosto comum, não havia nada de especial nele. Era um tanto memorável, claro, mas não porque esse homem em particular era feio ou bonito. Ele apenas tinha um rosto único e fácil de se recordar. Sua pele era pálida, e vestia um capuz preto como o breu. Parecia que apesar da altura do homem, suas capacidades na área de furtividade eram bastante impressionantes.

Ele abriu a boca.

— Acho que não.

— Então, por que está aqui?

— Encontrei um cachorro fugitivo, e sua coleira me dizia para vir aqui.

— O que mais a coleira dizia?

— Que ele era o novo cachorro da ninhada.

— Você o matou por conta própria? — O homem atrás da parede perguntou, mas aquele na frente apenas sorriu e balançou a cabeça.

— Acho que há um mal-entendido, eu não matei o cachorro fugitivo, eu o capturei. — Ele explicou, enquanto dava um passo para o lado.

Atrás do homem estava outra figura, ligeiramente curvada, mordendo suas unhas de nervosismo por não poder comer há um tempo. Parecia que essa …. pessoa que… aquela coisa costumava ser costumava ser bastante conhecida por aqui, então, apesar do fato de ser bem difícil reconhecê-lo para a maioria, alguém cujo trabalho era reconhecer seus membros percebeu de imediato quem estava parado ali.

— … Você o subjugou? O que você fez? — O homem atrás da parede perguntou e o homem parado na frente dele apenas empurrou seu rosto contra a abertura, encarando de volta a pessoa na sua frente.

— Acho que é melhor se eu explicar lá dentro, não acha?

O homem atrás da parede deu um passo para trás, logo antes da parede se mover um pouco e deslizar para o lado, tornando possível que o homem e aquela coisa entrasse.

Em sequência, os dois Espíritos flutuando ao lado do homem, escondidos dentro da parede, falaram com o homem pálido.

— Isso real funcionou, hein…? Mas Eiro, tem certeza de que ninguém reconhecerá o seu… ‘disfarce’?

O Demônio, que agora parecia fisicamente com uma pessoa, virou os olhos e sorriu um pouco. Ele não conseguia responder agora, mas, ainda assim, Eiro estava muito confiante de que funcionaria, afinal, teve a ajuda do mestre da transformação. Ele foi transformando com a ajuda de Bavet.

Depois que sua evolução terminou, ele se tornou capaz de realizar diversas coisas novas. Primeiro, sua habilidade de se transformar em qualquer coisa que queria foi aprimorada enormemente. Se ele se transformasse em coisas como aço, até muitos artesões acabariam sendo enganados por ele, pensando que ele era um aço de verdade.

Segundo, e mais importante, a nova habilidade de Bavet era ainda melhor do que Eiro esperava que seria. Em vez de apenas se conectar a uma substância específica de slime, Bavet poderia se conectar com qualquer coisa. Como nunca se transformava, significava que o núcleo de slime permanecia o mesmo, e estava mudando apenas o slime em si, o conceito era o mesmo, mas era limitado se não fosse o slime. As coisas podiam ser alteradas em formato, cor e textura, mas o material em si permaneceria o mesmo.

Já haviam testado isso com móveis, armas e cadáveres… E agora, o núcleo de slime de Bavet estava fundido com o próprio Eiro. Assim que se separassem, o corpo de Eiro retornaria ao normal sem sofrer nenhum efeito colateral, mas, neste instante, parecia com um humano. Sem chifres, cauda, ou asas, uma cor de pele normal e alguns detalhes alterados em seu rosto e corpo.

Claro, Eiro sabia quão completa essa transformação era, então tinha certeza de que nem mesmo Evelyn conseguiria descobrir a verdade apenas olhando para Eiro. Ela havia descoberto sobre Eiro a partir da forma com que seu sangue fluía dentro do seu corpo, afinal, mas agora nem isso ela conseguia fazer. Na verdade, esse era o disfarce perfeito que esperava.

Eiro e John, que era conduzido pelo Diabrete com uma corrente grossa de metal presa ao redor do seu pescoço, como um cachorro de verdade, seguiram o homem que os deixou entrar pela parede. Essa área era uma ‘rua secreta’ da cidade, bem escondida, pequena e só tinha uma entrada. Havia diferentes construções aqui, todas as quais pertenciam à organização. E, ao fim dessa rua, estava a entrada para uma estrutura maior.

— Entre ali… — O homem disse para Eiro, e o Demônio assentiu a cabeça. Ele puxou John com ele, enquanto as dezenas de membros da organização circulando por ali os encaravam com curiosidade.

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