A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 228

A Virtude do Demônio

Eiro lia um livro em sua mão, como fazia quando não tinha mais nada para fazer, olhando para a cama ao seu lado, onde Gobo descansava com sua febre altíssima que deveria tê-lo matado há muito tempo.

Bavet teve que ser colocado em um recipiente especial, pois acabou ficando mais quente que água fervente. Eiro notou que sua própria temperatura havia ficado muito alta durante sua evolução dessa vez, só que não era tão ruim. Era um resultado do aprimoramento da evolução. Ambos, Gobo e Bavet, eram mais fracos que Eiro, então eram afetados com mais facilidade por coisas assim.

Mas isso não importava, já que os dois já estavam esfriando de novo. Os três dias estavam perto de acabar, mas levaria algumas horas até lá.

— Faz um tempo desde que você conseguiu se sentar sem fazer nada de importante, certo? Mesmo quando esteve trancado durante sua evolução, meditou para tentar se aproveitar do seu corpo em transformação. — Com um tom relaxado, Nelli apareceu ao lado de Eiro. O demônio virou a página para continuar sua leitura.

— E? — Ele perguntou, ela deu de ombros.

— Ei, não estou reclamando. Estou acostumada com as coisas serem mais lentas de qualquer forma.

— Justo. Jura nunca foi do tipo de pessoa que fica muito animada com as coisas.

Com um aceno rápido, Nelli concordou.

— Exato, então todas as coisas pelas quais passamos nesses últimos tempos foram mais que suficientes para mim. Pode parar de causar confusão onde quer que vá.

— Eu honestamente ficaria feliz se conseguisse, Nelli, mas nós dois sabemos que esse não é bem o caso. — Eiro sorriu e a Náiade resmungou alto enquanto revirava os olhos, apesar do fato de que Eiro conseguia ver isso naquele momento. Bem, esse foi o motivo para ela ter feito isso em primeiro lugar, irritá-lo um pouco.

Pelas próximas horas, também não aconteceu muito. Pensando que deveria preparar tudo o que precisava para se infiltrar na organização, Eiro foi até o porão. Gobo e Bavet já estavam um pouco melhores que antes e não morreriam por causa disso.

Por outro lado, aquele que Eiro visitaria talvez morresse muito em breve, ou pelo menos deveria estar bem perto de morrer. Eiro entrou nas masmorras e foi até a cela de John Hawley, seu prisioneiro e vítima de tortura.

Ao longo dos últimos dias, Eiro fez o seu melhor para acelerar o processo de fome extrema. Primeiro, forneceu o mínimo absoluto de água necessária para sobreviver. Bem, um pouco menos que isso. O suficiente para que não morresse de sede e enlouquecer por conta da fome. O Demônio tentou seu melhor para fazer com que os órgãos de John estivessem trabalhando ao máximo possível, em vez de pararem de funcionar para usar o mínimo de energia, pois, desse modo, Eiro fez o corpo de John usar muita energia, fazendo com que ele ficasse com fome ainda mais rápido.

No primeiro dia, os órgãos de John estavam para falhar porque ele não tinha energia suficiente para mantê-los ativos. Então, Eiro desacelerou um pouco e alimentou John com uma quantidade ínfima, enquanto manipulava a mana e a Força Vitral dele para se certificar de que ainda estivesse muito faminto, mas não morrendo.

Desde então, o Diabrete se certificou de mantê-lo em um estado à beira da morte, enquanto tentava convencê-lo a comer a carne.

Quando Eiro o deixou ontem, isso parecia estar funcionando muito bem, mas agora tinha que assegurar que funcionaria. Claro, também se certificou de que ele não conseguisse comer suas próprias bochechas ou língua ou nada do tipo. Para isso, utilizou algo muito simples.

Primeiro, arrancou todos os dentes afiados que John poderia usar para cortar sua língua ou arrancar a carne dela e de seus lábios, além disso, Eiro também adicionou alguns pedacinhos na mandíbula de John, substituindo alguns por madeira, assim como suas mãos, para ter certeza de que ele não conseguia mover seu maxilar enquanto Eiro não estivesse por perto e, de algum modo, esmagar suas bochechas e língua com seus outros dentes.

Era improvável que ele recorresse a isso, mas nunca se sabia. Então, Eiro foi até a cela e inseriu seu Três de Espadas nas partes de madeira da mandíbula de John, assumindo um controle sutil dela. Dessa forma, Eiro poderia impedir qualquer tipo de intenção que John tivesse de se machucar. Claro, para que ele conseguisse falar e comer, se pretendesse, Eiro também colocou alguns dentes de madeira nos pequenos ‘espaços’ que já havia preparado dentro da mandíbula de John, para que pudesse colocá-los e retirá-los com facilidade.

— Johnny, Johnny, o que eu faço com você? Você está partindo meu coração, Johnny? Você acha que eu gosto de verdade disso? — Eiro questionou com um tom amargo na sua voz, enquanto John o encarava de volta, com olhos exaustos e praticamente mortos.

Em uma tentativa falha de tentar criar qualquer tipo de som com sua garganta, John começou a falar. Se Eiro não tivesse sua audição especial, talvez nem tivesse conseguido escutar o que John tentou dizer.

— Fom… Fome… eu preciso… preciso de comida… água… sede… fome… — John murmurou enquanto encarava Eiro e logo tentou empurrar seus dentes de madeira contra sua língua. Eiro teria o impedido, mas parecia que ele nem tinha força sobrando para fazer isso.

— Acho que me preocupei sem necessidade. — O Diabrete suspirou e logo se levantou para se virar. O Demônio se aproximou dos três corpos na frente da cela, os quais apodreciam de formas irregulares. Os órgãos, que mal estavam vivos e já estavam apodrecendo, eram uma massa mole que preenchia o interior dos cadáveres com gás que fazia os corpos incharem e emitirem odores repugnantes de todas as partes dos corpos.

O Demônio passou a faca por uma pele da perna deles para retirar um pedaço bastante grande e suculento de carne, e então o levou até John.

Eiro se agachou na frente do homem morrendo de fome e segurou o pedaço de carne próximo a sua boca. Se quisesse que John recebesse a habilidade tabu, então John tinha que comer por conta própria. Se fosse forçado, então seria outra coisa.

Sendo honesto, Eiro ficou muito feliz que aparente esse tipo de situação não contasse como ‘forçada’, pelo menos de acordo com o que leu sobre essa habilidade especial. Pelo que conhecia, os deuses talvez tivessem a mentalidade de: ‘Se você for devoto, iria preferir morrer do que pecar’. E isso acabou sendo muito útil para Eiro.

Especialmente agora que John parecia disposto. Ele se inclinou um pouco para frente, o pouco que conseguia com a forma como sua cabeça estava acorrentada à parede, e tentou raspar um pouco da carne humana que Eiro segurava em sua direção. Para ajudá-lo, Eiro aumentou a quantidade de Força Vital na mandíbula de John, assim o Demônio observou enquanto o jovem mordiscava a carne humana apodrecida.

Ele estava para vomitar, mas, não tinha nada para regurgitar, então poderia continuar comendo. Dessa forma, a carne humana deslizou pela garganta de John. Com alguns momentos, Eiro esperou que algo acontecesse, notando algo. Não foi uma notificação nos olhos de John, na verdade, eles se tornaram vivos de novo. Parecia que John havia ficado mais energético depois de comer um pouco. Depois de provar o primeiro pedaço, não parecia tão ruim assim.

Desse modo, John continuou se alimentando vigorosamente da carne humana que Eiro entregava para ele. Mais e mais, ele continuou comendo, tanto que Eiro teve que extrair ainda mais dos cadáveres.

Então, logo, uma notificação apareceu na visão de John, e o horror cresceu no jovem enquanto se sentava ali, petrificado.

[Você abandonou os deuses, então eles fizeram o mesmo com você.]

[Habilidade Tabu (Iniciante) aprendida]

Ainda não houve nenhuma mudança imediata em John, mas parecia que elas aconteceriam muito em breve.

Assim, Eiro começou a sorrir enquanto pegava um dos cadáveres, um dos dois homens. Ele guardaria a mulher para quando John estivesse um pouco saciado, afinal, a habilidade ‘Tabu’ era muito amplificada por qualquer tipo de desejo ‘Tabu’, o que incluía necrofilia. Eiro encontrou algo parecido com um ambrosia fraco dentro de um dos cômodos aqui, embora parecesse ter sido descartado pelo antigo dono da mansão, que tentava encontrar uma forma de controlar monstros para diferentes propósitos.

Portanto, se Eiro quisesse, depois que John não quisesse continuar comendo, ele poderia aumentar a habilidade Tabu dele de outros modos, sem ser com canibalismo. Por ora, isso era o suficiente para Eiro, que colocou o cadáver que carregava na frente de John, afrouxando as restrições dele.

 John se ajoelhou na frente do copo e cravou as unhas da mão que restava na carne, rasgando-a e enfiando-a na boca.

Parecia que a habilidade Tabu de John estava subindo de nível e tomando conta da dele cada vez mais, até que ele afundou seus dentes no cadáver, como uma besta.

Por agora, Eiro se sentou na frente da cela e continuou observando John, enquanto ele se transformava em algo que não era mais humano.

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