A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 220

A Virtude do Demônio

— Gobo, olhe aqui. Como é chamada essa parte? — Eiro perguntou enquanto olhava para o Hobgoblin, que se inclinou para olhar mais de perto a ferida que Eiro havia aberto na mão de John. Gobo pensou por um tempo, depois encarou sua própria mão, esfregando seus dedos.

— O… osso Trique… Triquetral? — Gobo respondeu nervoso, mas Eiro balançou a cabeça, embora tenha feito isso com um sorriso no rosto.

— Perto, mas não! Este é o osso ‘Pisiforme’. Embora seja conectado ao Triquetral, então deixarei essa passar. — O Demônio disse com um sorriso e Gobo olhou de volta para Eiro com um sorriso brilhante.

— Obrigado, Mestre! — Ele exclamou, animado. Nos últimos tempos, Gobo se tornou surpreendente bom em linguagem comum, em um ritmo muito rápido. Bom, essa era uma das principais coisas que tentou aprender e ele ainda falava como um idiota na maioria das vezes, pronunciando errado algumas palavras, ou usando palavras erradas. Ele havia melhorado muito, na verdade, ainda mais rápido do que Eiro poderia ter conseguido sem a habilidade de aprimoramento que recebeu de Avalin naquela época.

De qualquer forma, a seguir, Eiro empurrou uma das ferramentas na ferida aberta na mão de John para remover ambos os ossos Triquetral e Pisiforme, os quais foram substituídos por peças especiais de madeira feitas especificamente para John. Não era uma combinação perfeita como a mão de Eiro, mas ainda deveria cumprir seu papel. Isso era um experimento, afinal.

— Isso… isso machuca… pare… pare… — John gaguejou, com a voz fraca, mas Eiro olhou de volta com um sorriso.

— Hm? Finalmente sente vontade de me contar agora?

John olhou para Eiro, que retornou com um olhar profundo. Parecia que olhar para ele já o enfurecia, então estava ainda mais decidido a não contar nada para ele nesse momento.

— Vai se… fo… der… — Ele murmurou. Eiro deu de ombros e continuou colocando os ossos de madeira no lugar. Essas duas eram as últimas peças que precisava trocar na mão que sobrara.

Na verdade, Eiro só queria ver quão bem isso funcionava e quão estáveis esses pedaços eram se comparados aos ossos comuns dentro do corpo. Oh, claro, se haveria alguma mudança em sua destreza depois que sua mão fosse curada.

Por ora, Eiro mudou o fluxo da Força Vital de John e o inseriu nesses dois ossos de madeira adicionais, pegando um pouco da água refinada que Nelli fez para ele e começou a tentar curar esse ferimento.

Agora, a mão de John estava completamente coberta por cicatrizes, mas a maioria havia se curado muito bem.

— Certo! Parece que tudo está pronto. — O Diabrete comentou. — Vamos lá, tente mover sua mão para mim.

Eiro disse e soltou a mão, mas, por enquanto, ela pendia. Com um suspiro, Eiro agarrou o punho de John e pressionou em algumas partes, forçando os músculos da mão a se tensionarem em locais específicos. Então Eiro conseguia ver que ela estava se movendo, pelo menos.

Não doeu mais do que deveria, após ser curada e os movimentos funcionavam. Eiro estava um pouco preocupado de que houvesse alguns problemas e que certas partes se movessem de formas que ele não queria, mas, no fim, parecia muito normal.

Eiro suspirou e prosseguiu para o próximo passo. A última etapa do teste inicial. Ele se livrou da Força Vital que colocou nos ossos de madeira há alguns momentos. Normalmente isso faria algumas partes do corpo morrerem, mas essas partes nunca foram desse corpo, em primeiro lugar. Desde que o corpo de um ser vivo não se movia por causa dos ossos, mas por causa da retração e extensão dos músculos, isso não deveria mudar a forma como se movia, algo que Eiro confirmou após pressionar o pulso de novo alguns instantes depois. O motivo principal para ter colocado a Força Vital nos ossos de madeira foi para que o processo e cura funcionasse, certificando-se de que estivessem fixos no lugar mesmo depois que os ferimentos fossem fechados com magia.

De qualquer forma, como a Força Vital não fluía natural para objetos inanimados, acabariam completamente desprovidos de Força Vital, e como eram objetos inanimados, Eiro conseguia fazer mais uma coisa. Ele retirou o Três de Espadas e combinou as cinco lâminas com os diferentes ossos de madeira dentro da mão de John.

As lâminas não cortaram a carne enquanto isso ocorria, mas se combinaram com os ossos de madeira, transformando-se em algo semelhante a uma névoa deslizando pela pele dele. Agora, Eiro conseguia controlar a mão de John.

Claro, embora os ossos não controlassem os movimentos do corpo de um ser vivo, isso acontecia porque eles não tinham como se mover por conta própria. Se fossem capazes de se mover sozinhos, contanto que o corpo não resistisse aos movimentos, seria possível que os ossos movimentassem o corpo.

Na verdade, Eiro se divertiu um pouco com isso.

Embora fosse irritante que tivesse que controlar cada osso individualmente, isso mudaria com a prática. Por exemplo, havia uma ferramenta que Eiro possuía que podia se abrir. Se ele combinasse uma única lâmina do Três de Espadas, agora era capaz de não mover a ferramenta, mas fazê-la se abrir.

Isso significava que, se Eiro praticasse bastante, em algum ponto, ele conseguiria controlar a mão ao mover uma das lâminas, e se aprimorasse ainda mais, talvez controlaria todo o corpo de uma pessoa assim, algo que não era possível com nenhum tipo de magia. A única em que Eiro conseguia pensar que permitia um controle tão delicado era o tipo que criava uma forma artificial com magia e então a controlava, mas a maioria dos outros tipos eram aqueles em que o corpo se movia por conta própria e recebia comandos. Como necromancia ou magia de charme, por exemplo.

Dessa forma, Eiro conseguiria fazer pessoas com esses ossos especiais andarem por conta própria e então as controlaria se precisasse. Desde que era capaz de manipular o comprimento dos fios do Três de Espadas, contanto que se concentrasse em um único, deveria ser capaz de controlar alguém de uma distância considerável, enquanto Eiro observava de uma distância segura e tentava descobrir as habilidades e técnicas do inimigo.

Claro, Eiro planejava usar isso em monstros e não em pessoas, desde que bestas nem mesmo saberiam que tal mudança aconteceria se as nocauteasse, mas era mais difícil de fingir com as pessoas, ainda mais se fossem guerreiros. Poderiam notar em algum ponto se seus ossos parassem de curar. Claro, havia alguns problemas com os nervos que poderiam descobrir também. Então, contanto que Eiro não pensasse em uma solução para isso, seria difícil achar meios de usar isso em pessoas. Provavelmente não havia ninguém disposto a fazer esse tipo de experimento por vontade própria.

Eiro já havia pensado em criar diferentes fantoches de madeira que poderia controlar, mas não havia muitas escolhas além de controlá-los o tempo todo. Ele não poderia se desconectar deles se precisasse, então seria um incômodo e só poderiam ser usados em situações específicas.

De qualquer forma, por ora, Eiro decidiu que havia feito o suficiente com John pelo dia. Havia praticado tortura com mana mais cedo, então John estava muito exausto. Seria chato se ele acabasse ficando inconsciente em algum momento.

Assim, Eiro desconectou o Três de Espadas dos ossos de madeira de novo e saiu da cela.

— Durma bem, Johnny. — Eiro disse com um sorriso no rosto, saindo da sala oculta e se alongando um pouco. — Isso está um pouco chato. Ele não fala, não importa o que eu faça. E parou de gritar tanto, parece que está se acostumando com a dor.

— Isso, ou não consegue gritar mais por causa de quanto já fez isso. — Gondos sugeriu em resposta, mas Eiro deu de ombros.

— Talvez, mas sua garganta não parece tão irritada no momento, então não sei. Teremos que esperar para ver. Seu corpo parece estar reagindo à fome neste ponto, parece bem magro. Não deve demorar muito mais.

— Que bom… Esses três corpos estão fedendo a merda. — Bavet reclamou e Eiro olhou para ele.

— Acha que eu não sei disso? Óbvio que sei, mas é parte do processo. A forma como esses cadáveres estão apodrecendo é irregular e particularmente desagradável por causa dos experimentos a que foram submetidos. Como John tem que olhar para eles quando abre os olhos, o que acontece por medo do que pode estar por perto, isso coloca uma pressão mental constante sobre ele. E comer carne podre aumenta o nível da habilidade tabu ainda mais. — O Diabrete comentou e Bavet encarou. Bem, ele não tinha olhos, mas Eiro conseguia sentir.

— Há algo mais, não há? — Ele questionou e Eiro o encarou com uma leve risada.

— Heh, você me conhece muito bem a essa altura. Honestamente, imaginá-lo comendo aquela carne podre e nojenta me fez meio feliz. — O Demônio comentou com um grande sorriso no rosto, enquanto Bavet resmungava alto.

— Tem certeza de que não sente luxúria? Isso soa como o que um pervertido diria.

— Haha, não se preocupe, isso não me satisfaz. É mais como uma… experiência espiritual. — Eiro comentou. — De qualquer forma, falando de experiência, vamos sair de novo. Vocês dois estão muito perto de evoluir, então seria uma vergonha não conseguir o mais rápido possível. Não podemos desperdiçar muito tempo com isso, afinal. Meio que há um limite para quanto tempo podemos esperar até que as pessoas da organização achem que John está morto. E se isso acontecer, será difícil se infiltrar naquele lugar. Antes disso, gostaria que vocês dois ficassem um pouco mais fortes.

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