A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 221

A Virtude do Demônio

Eiro olhou ao redor, tentando encontrar o Rastejante Terrestre mais próximo, um tipo de monstro furtivo parecido com um inseto que tinha uma carapaça coberta por rochas, terra, musgos e pequenas plantas. Tinham uma peçonha paralisante muito poderosa e como atacavam qualquer coisa que viam usando esse veneno, eram uma ameaça até para pessoas de alto nível, já que elas não tinham uma boa resistência a venenos e peçonhas. Como era muito difícil de serem vistas antes que fosse tarde demais, esse era um pedido que não era aceito com tanta frequência, exceto em casos especiais.

E dessa vez parecia um caso bastante especial, desde que Eiro era o líder de um grupo. Ele já havia provado múltiplas vezes dentro da guilda que tinha uma percepção incrível e que poderia ver através de coisas furtivas com facilidade, então as pessoas da guilda se apresentaram primeiro e pediram que Eiro e os outros aceitassem o pedido. Recentemente esses Rastejantes Terrestres se tornaram bastante problemáticos e aumentaram em número, então o máximo possível deles tinha que ser eliminado.

Honestamente, isso veio em um momento incrível. Monstros que só eles eliminariam e poderiam gastar quanto tempo quisessem nisso. Nem precisavam entregar nenhum tipo de material para isso, só precisavam provar que os Rastejantes Terrestres foram mortos. Isso significava que Eiro poderia abrir esses insetos e armazenar a peçonha deles em algum lugar.

Isso seria útil na infiltração da Organização, pois havia um problema. Embora Eiro soubesse que deveria ser capaz de produzir coisas como peçonha em seu ferrão, não importava o quanto tentasse, simplesmente não funcionava. Então, até que descobrisse uma solução, teria que depender de forças externas.

Claro, também havia outro benefício nisso. Eiro retirou um pouco da peçonha paralisante da garrafa e a levou até sua boca, antes de ingeri-la. Era uma quantidade muito pequena, suficiente para restringir as funções corporais de Eiro, mas isso ainda era suficiente para que praticasse uma certa habilidade.

[Você foi afetado por Paralisia Menor. Todos os movimentos físicos serão restringidos em 30%.]

[Resistência à Toxinas (Iniciante) subiu de nível!]

— Perfeito. — Eiro murmurou enquanto seu corpo estremecia em resposta à peçonha percorrendo seu corpo. Foi uma boa ideia alternar entre ingeri-la e inseri-la em um corte no seu braço, desde que essa era a principal diferença.

Se uma toxina tivesse efeito através da ingestão, toque ou inalação, era um veneno. Se tivesse efeito através do contato com um ferimento, por exemplo, após ser mordido por uma cobra ou ferroado por uma abelha, era peçonha. Claro, havia mais diferenças, mas o sistema parecia feliz com a primeira explicação.

Quando Eiro engoliu a substância, recebeu ‘Resistência a Venenos (Iniciante)’ e quando inseriu no pequeno corte que fez no seu braço, recebeu a habilidade ‘Resistência a Peçonha (Iniciante)’

Essas duas então se combinaram e se tornaram a habilidade ‘Resistência à Toxinas (Iniciante)’. Na verdade, Eiro já deveria ter feito algo assim antes. Claro, ele nunca encontrou de fato venenos ou peçonhas, já que era capaz de evitar, mas agora que jogava nas grandes ligas e continuava encontrando pessoas com conjuntos de habilidades divertidos e bastante únicos, era só uma questão de tempo até que encontrasse alguém ou algo capaz de usar venenos.

Ter uma resistência contra isso seria útil, especialmente se acabasse usando peçonha. Seria um pouco incômodo se acabasse se ferindo ou infectado usando diferentes substâncias. Ele não tinha certeza se seria resistente contra elas.

Com um sorriso sarcástico e de nojo, James encarou o Demônio.

— O que diabos você está fazendo? Você é masoquista? Não quer parar de fazer isso? E se algo acontecer e precisarmos de você?

— Oh? Isso significa que você fica assustado sem mim? Quero dizer, faz sentido que um lacaio seja inútil sem seu mestre. — Eiro riu um pouco, mas logo tinha uma adaga negra na frente do seu rosto.

— Eu vou te matar, sabia? — James rugiu, mas Eiro continuou a sorrir.

— Heh, vá em frente e tente, meu caro lacaio. — O demônio respondeu e logo escutou mais alguém reclamando.

— Ei, irei ajudar ele se você não parar com isso! Sei que peçonha não funciona em mim normalmente, mas ainda não é agradável! — Bavet exclamou alto e Eiro olhou para o slime envolvendo o Rastejante Terrestre com o seu corpo.

— … o que você está fazendo? — Eiro questionou e Bavet parou por um momento. Apesar do fato de não ter olhos, o Demônio ainda conseguia sentir o slime o encarando.

— Estou matando essa coisa, mas você disse que não posso me transformar, então demorará um tempo… Você quer que eu fortaleça meu ácido, certo? — Bavet perguntou e Eiro balançou a cabeça.

— O completo oposto, na verdade.

Eiro fez Bavet ‘cuspir’ o Rastejante Terrestre e então olhou de volta para o slime.

— O que eu quero é que você mantenha a forma base de um slime. Ou melhor, de um Slime Sem Forma. Quero que você fortaleça suas habilidades de transformação.

— Então, como diabos eu devo matar essa coisa enquanto estou no formato de um slime? E como isso irá fortalecer minha transformação? Você é um idiota? — Bavet perguntou, mas Eiro o encarou.

— Só porque estou um pouco mais legal com você, isso não significa que pode falar comigo dessa forma, sabia?

— … certo, me desculpe… — O slime se desculpou nervoso, mas o Demônio suspirou.

— Não se preocupe. Escute o que digo de agora em diante. Eu disse para manter a forma base de um slime, não que você não pode se transformar. Mude seu formato para coisas que não são objetos específicos que você já viu antes, mas sim… conceitos. Você fez isso antes, quando estava me guiando, com Sammy e Leon montanha acima. Você cortou uma parte do seu corpo e a transformou em uma lâmina afiada, mas não era nenhum objeto em particular, mas um conceito de uma lâmina e aplicou em si mesmo. É isso que eu quero que você faça.

— Oh… — O slime murmurou. — Então é isso? Quer que eu pratique mudar diferentes partes de mim mesmo em coisas diferentes, é isso?

— Entre outras coisas, sim. Só quero que você melhore o seu controle o máximo possível. Essas coisas influenciarão suas possíveis evoluções, afinal. — Eiro comentou. O slime balançou seu corpo, o equivalente a um aceno de cabeça, então se concentrou no Rastejante Terrestre de novo. Mais uma vez, Bavet envolveu a criatura parecida com um inseto, mas em vez de tentar dissolvê-lo, como antes, tentou algo mais.

Ele transformou partes do seu interior em agulhas, as quais pressionou nas áreas mais fracas do Rastejante Terrestre, matando-o antes de o cuspir de volta.

— Então, é isso que você queria de mim? — Bavet questionou e com uma expressão satisfeita e o Demônio assentiu.

— Uhum, exatamente isso. Bom trabalho. Continue com isso e tente pensar em formas diferentes de matá-lo que não necessitem que mude sua forma base para algo completamente diferente.

— Parece um incômodo… — Bavet reclamou, mas, neste ponto, Eiro já havia parado de prestar muita atenção nele e, em vez disso, olhou para o segundo que precisava da sua atenção: Gobo.

Eiro estava tentando se certificar de ensiná-lo em diferentes disciplinas baseadas em combate, dependendo do tipo de talentos que ele tinha, mas, de alguma forma, ele não entendia que não precisava fazer tudo de uma vez e sim trocar entre as diferentes habilidades para tornar tudo mais eficiente.

Por exemplo, tentar conjurar um feitiço enquanto balançava sua lâmina em direção a alguém parecia uma ideia muito boa para salvar tempo, mas, em vez disso, só resultava em conjuração e esgrima desleixadas. Aqueles que tinham dificuldade com multitarefas nunca conseguiriam fazer esse tipo de coisa e embora Gobo fosse inteligente se comparado aos outros Goblins ou Hobgoblins, ele não era tão esperto.

Eiro era capaz de fazer esse tipo de coisa nesse momento, mas mesmo isso necessitaria que se concentrasse muito e com frequência cometeria pequenos erros. Nunca foram ao nível de custar sua vida ou algo do tipo e Eiro conseguia julgar as situações de quando poderia e não poderia usar algo, mas Gobo era diferente. Ele não era capaz disso e não parecia muito interessado também. Em vez de focar no panorama geral, estava se concentrando nos detalhes. Ele não tirava os olhos do alvo, seu principal inimigo.

Em alguma extensão, isso era bom, mas algumas vezes era algo que custaria sua vida se estivesse lutando contra múltiplos inimigos de uma vez, e considerando que Eiro já havia investido tanto em tentar transformar Gobo em um lutador adequado e um recurso de verdade, seria um desperdício deixar algo assim simples acontecer sem nem mesmo tentar fazer algo a respeito, afinal Gobo deveria ser o líder da Vila Goblin. Um líder que não era capaz de prestar atenção aos outros não era o melhor que existia.

Portanto, enquanto Gobo tentava atacar um dos Rastejantes Terrestres que Eiro revelou para ele, o Demônio arremessou uma pequena rocha nele. Sem força para causar danos, mas ainda suficiente para irritá-lo e confundi-lo por um momento ou dois.

— M-Mestre, o que você está fazendo? — Gobo perguntou com um leve sobressalto, mas Eiro continuou o encarando, algo que, por algum motivo, Gobo retribuiu, encarando os olhos de Eiro. Enquanto isso, o Rastejador Terrestre pulou em Gobo, apesar de que o Diabrete tenha arremessado uma pedra nele, dessa vez muito forte, para atordoá-lo por alguns instantes, fazendo com que Gobo olhasse de volta para ele. Ele aprecia ter um problema com visão de túnel.

— Gobo, continue prestando atenção ao Rastejante Terrestre… — O Demônio exclamou. Após de se certificar de que o Hobgoblin pelo menos o escutou dizer isso, continuou jogando pequenas pedras no corpo de Gobo, até que ele fosse capaz de desviar, ou pelo menos reagisse a elas.

‘Isso realmente vai demorar, né?’

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