
Volume 3 - Capítulo 219
A Virtude do Demônio
Eiro se sentou na biblioteca, brincando com sua nova magia de sombras. Era difícil fazer qualquer coisa além de manipular a forma bidimensional da sombra no momento, mas, pelo menos, Eiro ainda conseguia se infundir com magia de sombras, então poderia parar de usar as pedras mágicas e dar a elas outros usos, como dar para Gobo quando estiver irritante demais e precisar de um suborno para ele ficar quieto por um tempo.
O Demônio olhou entre a sombra que tentava conjurar na sua pele enquanto era cercado por múltiplas fontes de luz, tentando aumentar o nível da magia com rapidez e encarou os dois monstros sentados na sua frente.
— Gobo, Bavet. — a atenção dos dois foi atraída para o Diabrete, que se levantou e se livrou das chamas que usava como fontes de luz. — Venham comigo. — Ele disse, caminhando em direção à passagem secreta desse cômodo para que conseguisse chegar mais rápido ao porão.
Bavet subiu pela perna de Gobo, enquanto o Hobgoblin corria atrás de Eiro e perguntou:
— O que faremos?
— Checar o nosso convidado. Só isso. — Eiro explicou. — Vamos esperar que ele sinta vontade de conversar conosco hoje.
O Demônio, o Hobgoblin e o slime foram até o porão e Eiro conseguiu abrir a sala oculta com magia bem rápido agora que tinha um pouco de prática com essa porta em particular.
Eiro entrou na sala cheia de inúmeras gaiolas e celas, encontrando a cela em que o jovem da organização estava. John Hawley. Depois que as duas dúzias de ratos arranharam muito, muito lentamente todo seu corpo, Eiro decidiu dar uma pequena pausa durante a noite.
Não era uma pausa ‘real’. Eiro, na verdade, estava aproveitando essa chance para praticar magia de sombras, desde que conseguia criar sombras como se estivesse fazendo coisas horríveis com outra pessoa. Felizmente Bavet poderia recriar a voz de todos os seres que já escutou antes, então fingiram que Eiro estava torturando e matando brutalmente Evelyn, alguém que esse homem deveria conhecer por fazer parte da organização.
Claro, Eiro não era forte o suficiente para derrotá-la ainda, mas no mínimo conseguiu convencer John de que esse era o caso, afinal ele não conhecia os status de Eiro, então não havia como achar que o Diabrete não era tão forte depois de derrotá-lo com tanta facilidade.
Ele só conseguiu derrotar John em menos de um minuto porque o jovem era um idiota, mas ele mesmo parecia bastante convencido, então não era surpresa ele pensar que Eiro era muito mais forte que ele. O Demônio só queria intensificar esses pensamentos, para que nem mesmo tivesse a ideia de escapar.
De qualquer forma, agora que tudo estava feito, Eiro caminhou até a frente da cela, olhando para o único olho que restou a John, desde que destruiu o outro com seu ferrão antes.
— Ei. Tudo certo? Dormiu bem? — Eiro perguntou com um sorriso brilhante no rosto enquanto se sentava na frente da cela, encarando o homem dentro dela.
— O qu- O que você quer de mim…? Escute, c-cara, farei o que quiser contanto que me deixe ir…
— Me desculpe, isso não acontecerá. — Eiro respondeu sem rodeios, sem nem pensar sobre. Estava claro que ele diria isso em algum momento ou outro. — O motivo para você estar aqui é bem simples. Você nos atacou e me feriu. Então atacou meu filho. Fique feliz por ainda não estar morto. Embora, em alguns dias, vai desejar que esteja, haha.
— Por favor… eu te dou din… dinheiro ou… mulheres… ouvi falar que você gosta de criar crianças, certo? Posso trazê-las para você.
— Por que as pessoas continuam pensando que eu ‘gosto de crianças’? Primeiro, não tenho desejos sexuais. Segundo, as crianças que sua organização conhece são minhas crianças, ou seja, sou o pai delas e farei o meu melhor para protegê-las.
— M-Mas você é um demônio, você — O jovem exclamou e Eiro esfregou a ponta do seu nariz enquanto se levantava
— Tudo bem, então faremos dessa forma… — Ele suspirou, enquanto se virava para as três mesas com os cadáveres dos capangas. Estranhamente eles não começaram a apodrecer, o que parecia ser um efeito colateral das diferentes substâncias injetadas neles, mas de qualquer maneira, não importava se seus órgãos internos, sangue e inúmeros fluidos corporais foram trocados por outras coisas, uma parte permanecia a mesma. A carne. Eles ainda tinham carne humana.
Eiro usou sua adaga para cortar uma tira fina de carne do braço da mulher e então a levou até a cela, enquanto Gobo e Bavet observavam tudo o que ele fazia.
— Você não parece ter conhecimento sobre muitas coisas. Primeiro, o fato de que não sou um lixo desagradável, como você. — O Diabrete comentou. — Bem, posso ser, mas sou outro tipo. Vamos pegar comida apodrecida que foi deixada no lixo por semanas, então foi comida por um lobo que depois a defecou, e você é o mofo branco e peludo que cresce nessa merda. Eu sou o lixo que alguém joga no lado da estrada. Você é muito, muito mais nojento. Pelo menos na minha opinião, outros podem discordar. — Com isso, Eiro abriu a cela e entrou nela. John estava acorrentado na parede e não poderia alcançar Eiro, então o Demônio se sentou ali.
— Como você não entende algo tão básico, tenho que presumir que é um idiota. E, como um idiota, pode não saber sobre isso, mas você sabe o que ocorre quando uma pessoa come outra pessoa? — Eiro questionou com um leve olhar e John olhou de volta para ele com uma expressão aterrorizada
— El-Eles recebem a… a habilidade ‘Tabu’…
— Bom trabalho! Exato! E você sabe o que acontece com uma pessoa com a habilidade tabu? — Parecia que, depois que Eiro questionou isso, John ficou assustado demais para responder, então o Demônio continuou por ele. — Bem, é muito simples. Durante o grau iniciante, você se torna um animal. É claro, você ainda estará completamente consciente e sua personalidade permanecerá, em sua maioria, intacta, pelo menos no começo, mas não conseguirá controlar o seu corpo como antes. Você começará a alucinar e, no fim, escutará qualquer comando emitido por outra pessoa. Então, no grau aprendiz, não sua mente, mas seu corpo mudará. Você perderá cabelos, sua pele secará e engrossará, como couro. Sentirá fome cada vez mais pela carne de outras pessoas e não será mais a mesma pessoa de antes. Então, no grau intermediário, o mais alto que conheço até agora… Você não será nada além de um monstro. — Eiro explicou.
— Na verdade, gostaria de ver como essas mudanças acontecem, mas, por ora, só estou almejando o grau iniciante. Você será convencido muito fácil a me contar as coisas, talvez no… bem, nível 20 ou 30 parece correto. — O Demônio comentou com um sorriso. — Ah, e o melhor de tudo, a habilidade tabu te faz desejar comer carne humana mais do que tudo. É meio insano, na verdade, pelo menos de acordo com o que li antes. De qualquer forma, , depois dessa explicação, tenho boas e más notícias para você. Qual você quer escutar primeiro? — Eiro perguntou com um sorriso e John o encarou nervosa abrir os lábios.
— As-As — Ele começou, mas Eiro riu e balançou a cabeça.
— Bem, não me importo. Vamos começar com as más. Você não consegue a habilidade Tabu a menos que escolha consumir ativamente a carne das pessoas! Como é uma maldição concedida pelos deuses e infelizmente esses deuses não são idiotas, então só julgam impiedosamente aqueles que escolhem comer os outros. Então, você não receberá essa habilidade tão cedo. — Eiro explicou e John mostrou um sinal de alívio na sua face, apesar de que logo percebeu o que Eiro disse no começo.
— Hm? Ah, está se perguntando por que é a má notícia, certo? Bem, como eu disse, eu adoraria ver sua habilidade tabu subir de nível, então é uma má notícia para mim, mas Ei! Pelo menos a boa notícia ainda é para você! — Eiro riu. — Você ainda tem um tempinho até que fique tão louco de fome que comerá voluntariamente a carne humana. Nesse tempo, ainda terá a chance de me contar tudo enquanto eu te torturo. Parece um acordo justo, certo? Pelo menos você não se transformará em um monstro irracional. Isso seria uma vergonha, certo? Não seria?
Eiro encarou John com um sorriso satisfeito no rosto, o qual não conseguia mais esconder. Claro, Eiro dizia com frequência que não era nem um monstro nem uma pessoa, mas o fato é que ele parecia ter partes de monstros, afinal. Ele também tinha partes humanas, então era mais como se ele fosse um monstro e uma pessoa, mas isso não vem ao caso.
Em tempos como esses, quando Eiro via uma pessoa que desprezava fazer uma expressão de horror, medo e desgosto, ele simples se sentia muito… bem. Ele não se sentia assim quando era uma pessoa que gostava, não conhecia, ou apenas não gostava. Os únicos momentos em que se sentia assim eram quando observava alguém que odiava completamente. Como este garoto, John, bem aqui.
E parecia que ele percebeu que Eiro estava se sentindo assim. Assim, cuspiu o pouco de saliva que tinha na boca na direção de Eiro, que a impediu com magia de água e a fez flutuar de volta à boca de John e descer por sua garganta. Ele pensou que essa era uma boa chance.
— Essa foi uma péssima escolha, cara. — Eiro riu, mas o jovem o encarou.
— Vai se foder! — Ele gritou, tentando arrancar as correntes de si de todas as formas possíveis, mas o Diabrete o encarou, estalando os dedos.
Imediatamente John parou o que estava fazendo e arregalou os olhos, começando a se contorcer de dor enquanto Eiro congelava a saliva que ele cuspiu antes. Claro, Eiro fez seu melhor para espalhar a saliva dele ao redor da sua garganta. Respirar ficava difícil à medida que cristais de gelo se formavam e estreitavam os caminhos que o ar poderia percorrer, enquanto sentia queimaduras de gelo intensas em seu interior.
Qualquer tentativa de falar causou mais dor, já que John rasgava a própria garganta ao separar as partes que estavam congeladas. Claro, essa dor o fez gritar mais ainda. Era um ciclo infinito!
Bem, dois, na verdade.
Um ciclo direto no qual a dor infligida a John o fazia se mover, o que o machucava ainda mais.
E um ciclo mais sutil, em que a dor e o sofrimento que John sentia faziam Eiro se sentir ainda mais animado, fazendo-o querer machucá-lo ainda mais.
Parecia que Eiro encontrou outro hobby pelas próximas semanas.