A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 216

A Virtude do Demônio

— Idiota…? Espera, foi esse cara que atacou a Dama? — Jess perguntou com uma carranca profunda, olhando para os três cadáveres deitados em cima das mesas na frente da cela e Eiro assentiu.

— Sim, é ele. Ele é parte da mesma organização que Evelyn. Ele parecia bastante forte, mas parecia bastante idiota e não sabia o que eu poderia fazer, então consegui derrotá-lo com certa facilidade. Acho que é forte na questão de atributos, mas não é particularmente habilidoso, se isso faz sentido.

— Acho… acho que faz? Mas e esses caras? Por que estão aqui? — James questionou com uma expressão preocupada.

— Não são pessoas aleatórias, são…?

Com um suspiro, Eiro balançou a cabeça.

— Pensei que você perceberia, mas não, eles não são pessoas normais. Fui eu quem os matou, mas isso porque são parte da mesma organização que esse cara, apesar de serem de um nível inferior. São peixes pequenos, na verdade. Qualquer um de vocês poderia cuidar de dez deles ao mesmo tempo.

— Entendo.., mas por que você acha que eu teria percebido isso? — O Elfo da Luz perguntou, confuso, olhando para elas. — Deveria conhecê-los ou algo assim?

Eiro caminhou até um dos cadáveres e levantou o braço de um deles, espalhando sua mana pela pele do homem. Alguns instantes depois, um padrão branco e brilhante com um leve tom azulado apareceu no pulso do homem.

— Isso serve para identificação. É similar ao sistema que está embutido nos nossos cartões da guilda, uma pequena variação. — Eiro explicou. — Isso não pode ser falsificado e não durará muito mais tempo também, senão eu poderia cortar a pele desse cara e fingir ser ele.

— Certo, me desculpe por não prestar atenção aos feitiços sutis colocados nos pulos dele, em vez do fato de haver cadáveres aleatórios na minha frente. — James respondeu enquanto estalava a língua, com os braços cruzados e Eiro deu de ombros em resposta.

— Justo. Bem, de qualquer maneira, só temos que esperar um pouco.

E assim que Eiro estava para falar, a coisa que ele esperava aconteceu na hora certa. O homem na cela acordou.

— Oi…? — Ele resmungou alto, tentando segurar seu braço e pescoço doloridos, mas Eiro sorriu enquanto se agachava na frente da cela.

— Ah, não se preocupe, me certifiquei de te curar! Só que não sou tão incrível com tratamentos de emergência, então ainda pode doer um pouco. — O Demônio comentou e o jovem olhou para ele, confuso.

— O que você fez comigo, seu verm- — ele exclamou com um olhar profundo, cheio de ódio com uma voz rouca e quebrada que saiu da sua garganta meio aberta, mas Eiro o interrompeu ao manipular o teto e chão feito de pedras abaixo e acima das barras de aço sólidas na frente da cela para fazê-las ranger alto.

— Ah, você é um idiota. Como conseguiu chegar ao ponto de receber dois itens especiais? Luvas que te permitem encolher qualquer coisa que toca, assim como anéis que te permitem desacelerar o tempo e um implante especial que desacelera o tempo para você caso morra, para que as pessoas possam vir ao seu auxílio. Estou certo, não estou? — Eiro perguntou com um pequeno sorriso na face e os olhos do homem assumiram uma forma bastante agradável.

Uma forma de choque, medo e desespero.

— Muito bem, parece que você está sem palavras, hein? Que bom, achei você um pouco irritante antes. Deixe-me explicar o que faremos de forma muito, muito, muito simples que até mesmo um pedaço de lixo como você compreenderá. Você responderá minhas questões, ou sentirá muita, e quero dizer muita, dor. — O Demônio apontou, mas o homem o encarou de volta.

— Não vou te contar nada! — Ele gritou, fazendo Eiro suspirar alto e coçar a parte de trás da sua cabeça.

— Hm… Merda, não esperava essa resposta. — Eiro comentou. — Bem, acho que posso te dar um tempo para pensar primeiro. Deixarei esses caras com você para que não se sinta sozinho, certo?

Com isso, Eiro apoiou a parte superior dos três corpos na mesa e posicionou suas cabeças para que seus olhos mortos encarassem a face do homem.

— Ah, aliás, diga para esses caras deixarem o maldito item de desacelerar o tempo um pouco mais fraco… foi bastante irritante pegar tantos deles para encontrar o limite… — Eiro comentou enquanto segurava a gaiola que estava atrás das mesas e a levava em direção à cela em que o homem estava. Abriu a porta da cela e passou pelo homem. Com um sorriso pequeno e sutil, abriu a gaiola com sua mão e a esvaziou na cabeça do homem, puxando-a para longe das coisas que caíam nele.

Havia cerca de duas dúzias de ratos, eles estavam caindo em câmera lenta na direção do homem.

— Ah, eu esvaziei os estômagos deles e dei um pouco de… bem, uma droga que os deixa muito famintos e agressivos, haha. Não se preocupe, você não será afetado pelo efeito do item, eu me certifiquei disso.

Eiro comentou enquanto olhava para a pilha de ratos famintos e enfurecidos caindo na direção do homem. Havia alguns fios metálicos os conectando e uma delas tinha o item de ‘câmera lenta para segurança’ conectado a ela, que se espalhava para todos os ratos. Havia um limite para quantas coisas ele conseguia desacelerar de uma vez, mas parecia que essas duas dúzias de ratos serviram muito bem.

— Hmm, acho que eles devem ter, pelo menos, mordiscado sua pele quando eu voltar. Não se preocupe, sei quando eles forem longe demais os impedirei. Você não morrerá essa noite. — Eiro explicou com uma risada e depois saiu da cela de novo.

Ele fez os outros três saírem das masmorras na sua frente e os seguiu, escutando enquanto o homem implorava para que Eiro voltasse, antes que os ratos começassem a devorá-lo em câmera lenta.

Quando saíram do cômodo, percebeu que Jess, James e Krog o encaravam com desgosto, então parecia que Eiro tinha que esclarecer algo.

— O quê, você prefere ter psicopatas como esses correndo por aí? Não se preocupe, aqueles ratos não estão drogados nem mesmo com muita fome. São ratos dóceis em que eu e o slime fizemos uns testes há duas semanas. Conseguem escutar comandos muito bem, portanto disse para arranharem ele, mas com a forma com que estão experienciando o tempo, vai ser como se o arranhassem três ou quatro vezes antes de serem retirados.

— Mas… isso ainda é tortura… não é…? — Jess questionou e Eiro olhou para ela com um aceno.

— Claro, e tortura psicológica. Estou tentando fazer com que fique tão assustado comigo que me conte tudo o que quero saber. Não posso fazer isso com abraços e beijos.

Com um resmungo, Krog olhou para Eiro e caminhou até as escadas.

— Acho que o ponto dela é que tortura é errado, de uma forma ou de outra. Só é…

— Inumano? — Eiro perguntou sem pestanejar. — Hah! Entendi o que você quer dizer, mas sabe o que também é inumano? Fazer um Diabrete Inferior que estava exausto por caminhar quatro horas sem descansar ser pendurado em uma árvore, onde a única forma dele não sufocar até a morte era ficar nas pontas dos pés o tempo todo. Um único deslize e ele já era, isso não é tortura?

Com um olhar profundo, Eiro olhou para James, que percebeu do que ele estava falando enquanto olhava para o chão.

— Isso é diferente, eu só estava pensando em todas as coisas que você fez para outras pessoas, e-

— Nesse ponto, eu nunca havia causado um único ponto de dano. Eu era um Diabrete Inferior de nível 1. O pior ato que já havia feito foi cuspir em outro Diabrete atrás de mim. Não havia matado nem mesmo um inseto, pelo que eu saiba. Era a literal definição de uma ‘criatura inocente’. — Eiro comentou. Honestamente ele não tinha raiva pelo que James o fez passar naquela época. Já superou, na verdade. O que o irritava era que esses caras continuavam fingindo que Eiro era pior do que todos os criminosos que as pessoas já criaram.

Com um rosnado profundo, olhou para o Elfo da Luz.

— Você está certo, isso é diferente. Sabe por quê? Aquele homem ali é puro lixo e faz parte de uma organização desprezível. Aquelas três pessoas mortas ali… dei uma olhada nos seus corpos e eles foram submetidos a experimentos inimagináveis. Por fora estão bem, mas não possuem nada de humano sobre eles. Nenhum órgão humano, nem mesmo sangue humano. O símbolo que mostrei antes não era a identificação dos membros e sim uma forma de diferenciar suas ferramentas, seus escravos. Ele tentou matar uma deusa da natureza no meio de uma cidade e quase matou a mim e às crianças. Se você tivesse lutado contra ele, talvez estivesse morto nesse instante. Agora me diga, desses dois caminhos, qual é pior? Aquele em que um pirralho convencido tortura um ser inocente por satisfação própria ou aquele em que um babaca irritado tortura um pedaço de merda para se livrar de ainda mais babacas para o bem da próxima geração?

James ficou parado, sem palavras. Parecia que ele não sabia mais o que fazer. Eiro esperava que ele ficasse irritado e refutasse, o que teria sido mais satisfatório do que o que aconteceria a seguir.

— Sim… você está certo. Me desculpe. — James admitiu. — Não tenho o direito de te julgar. Também não sou uma boa pessoa… eu mesmo tenho a habilidade de tortura, mesmo que nunca tenha desejado tê-la. Não sou um herói, nem o mocinho, mas pelo menos quero que você admita que também não é nada disso. — Com um tom genuíno na sua voz, James sorriu para Eiro, que agora estava sem palavras.

Ele não esperava esse tipo de resposta. Era um tom que Eiro só escutou uma vez vindo de James e isso foi durante a conversa sobre seus passados na caverna da vila Goblin. Ele soou triste e um tanto assustado.

— Sei que não sou o mocinho aqui, confie em mim. Não sou o herói, mas também não acho que eu seja o vilão. Na verdade, gostaria de ser um terceiro poder nesse mundo. Já disse antes, mas quero abolir o sistema de heróis e Reis dos Monstros. O primeiro tem o grupo de pessoas mais fortes no mundo, enquanto o último tem o grupo de monstros mais fortes, os Nobres. Eu quero me tornar uma terceira força da natureza, como o ‘Herói’ e o ‘Vilão’. Não quero forçá-los a fazer o que acham ser contra o correto, então não pedirei o mesmo de vocês três, então… — Eiro começou e as três pessoas na sua frente o encararam de volta, preparadas para escutar a sugestão que ele estava para fazer. —… vocês se tornarão uma força da natureza comigo?

Comentários