A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 215

A Virtude do Demônio

Todas as pessoas importantes nesse salão encararam Eiro com confusão depois que ele fez esse anúncio bastante inesperado. Alguns momentos depois de tentarem compreender se o que Eiro disse era verdade ou não, um dos nobres estalou a língua.

— Tisc, quem você acha que é, seu pirralho? Ninguém te ensinou bons modos? — Ele questionou e Eiro o encarou com um olhar irritado e com o coração batendo rápido. O demônio respirou fundo e se aproximou de forma curvada.

— Você quer boas maneiras, hein? — Eiro murmurou enquanto se levantava na frente do nobre que acabara de falar, que ainda encarava o Diabrete com uma expressão presunçosa. Num instante, Eiro estreitou suas costas e bateu os calcanhares juntos, colocar uma das mãos atrás das costas, pressionando o dorso na mão contra seu centro e colocando a palma direita sobre seu coração.

— Se esse for o caso, então me perdoe pelo meu comportamento rude, meu Senhor. Estava insinuando que não desejo que faça declarações tão sem sentido sobre minhas crianças, especialmente nesta situação. Embora elas mereçam os maiores elogios, tentar escolher o futuro delas sem nem mesmo saber seus nomes é bastante desrespeitoso, não acha? — Eiro perguntou com um tom claro, fazendo o nobre à sua frente dar um passo para trás em surpresa, mas no fim, não parecia ter mudado de opinião.

— Os nomes deles não importam. Devem ficar orgulhosos de servir esse país com a vida deles! De forma alguma importa quem você ou eles são, contanto que esse país precise deles, eles irão.

— Ah, foda-se, não consigo continuar com isso enquanto esse idiota fodido fala… — Eiro rosnou baixinho para si mesmo e encarou os olhos do nobre. Suas palavras surpreenderam a todos, mas como Eiro disse com um tom de sussurro, eles tentavam entender se ouviram o que pensavam ter escutado. — De novo, meu Senhor, acho que são declarações bastante sem sentido, não são? Especialmente na frente de uma pessoa que pode matar cada pessoa nesse salão e não deixar nenhuma evidência.

— O que você es-

— O que eu estou dizendo? Oh, me perdoe, eu presumi que um homem com posição tão alta no exército real seria bastante inteligente. Parece que foi uma suposição equivocada, me desculpo, meu Senhor. Então, por favor, deixe-me dizer em palavras que você talvez compreenda com mais facilidade. — Eiro disse e afastou sua mão do seu coração e uma adaga apareceu em sua mão. Ao mesmo tempo, sem que reagissem, Eiro deslizou pelo chão para se aproximar do homem e segurou a adaga bem na frente da garganta dele.

Por nervosismo, o homem engoliu a saliva em sua boca e o pomo de Adão se moveu para cima e para baixo, arranhando-se na ponta da adaga. Antes que qualquer um pudesse reagir e se afastar, Eiro daquele nobre, ele falou de forma que ninguém conseguisse se mover.

Eiro copiou a forma como a habilidade de Felix funcionava, na qual a mana era infundida na sua voz. Claro, Eiro não tinha nenhum tipo de habilidade especial para isso, mas ainda assim deveria aumentar o efeito da sua nova habilidade de Carisma.

— Se você, miserável, ousar tramar contra mim ou minhas crianças, o mero pensamento de tocar num único fio de cabelo dos seus corpos agora ou no futuro, esse momento será a última vez que você respirará. Entendeu, seu porco maldito? — Com um rosnado profundo, Eiro olhou direto para o nobre. Seus olhos não eram visíveis, mas Eiro ainda estava fazendo contato visual com o homem.

Os guardas no salão congelaram antes mesmo de conseguirem segurar suas armas e ninguém ousou emitir qualquer som, até mesmo segurando a respiração.

Com um suspiro profundo, Eiro soltou sua adaga e, caindo alguns centímetros, ela desapareceu no nada. O Demônio se virou e voltou para suas crianças.

— Bem, espero que mantenham isso em mente no futuro. Não posso te impedir de tentar, mas, em retribuição, vocês não podem me impedir de retribuir o favor à minha maneira. — Eiro comentou. — De qualquer forma, vamos voltar para o motivo de eu ainda estar falando com todos vocês, seus inúteis. Quero que finjam que o ataque de hoje foi causado por algum tipo de monstro que conseguiu atravessar as muralhas. Não permitam que o fato de tal organização existir saia desse cômodo.

Com um tom de comando, Eiro voltou até suas crianças e ajudou Clementine a se levantar, ajudando-a a caminhar até a porta com os outros logo atrás dele. Assim que estava para sair, Solomon, o único que conseguiu se acalmar depois do que Eiro disse, olhou para o Diabrete com curiosidade.

— E por que isso? Por que não podemos falar sobre isso? — O Rei perguntou e Eiro sorriu sob sua máscara com uma risada silenciosa, o que fez Solomon relaxar e ficar tenso ao mesmo tempo. Enquanto isso, Gondos voou até a máscara do capanga que Eiro havia arremessado na mesa antes e pegou junto a luva especial que Solomon segurava.

Ele as levou até o Demônio, que pegou a máscara e a segurou na frente da sua própria.

— Não posso deixá-los em guarda, posso? — Eiro comentou com um sorriso amplo enquanto se virava e fazia a máscara extra e a luva desaparecerem dentro da sua Tesouraria.

Eiro levou as crianças até a carruagem e fez Arc dirigir para casa enquanto ele permanecia na cidade, já que ainda tinha que cuidar de algo.

— Tenha cuidado. — Arc disse com uma expressão vazia quando encarava Eiro, que riu e caminhou em direção aos portões do castelo.

— Haha, o quê, está preocupado comigo?

— Não deveria? — O jovem respondeu e Eiro olhou para ele com um sorriso sob sua máscara.

— Claro que não. Não há como eu deixar vocês para trás depois de fazer aquele discurso.

Com uma risada, Arc assentiu e fez os cavalos começarem a andar.

— Certo, justo. Chegue em casa no tempo certo, sim? Afinal, não conseguimos passar o dia juntos aqui na cidade, então devemos compensar um pouco.

— Estarei logo atrás de vocês. Não demorarei muito. — Eiro explicou enquanto subia nas costas de Lugo e o Cervo começou a correr em direção aos portões enquanto Arc e a carruagem se moviam. Primeiro de tudo, Eiro tinha que se encontrar com os outros.

Ele já tinha uma ideia de onde eles estavam, então não demorou muito para encontrá-los. Os pés de Eiro atingiram a camada de neve nas ruas e já conseguiu vê-los se aproximando.

— O que diabos foi isso? — James perguntou com uma carranca profunda. — Que tipo de bastardo tentou matar você?

— Ninguém. Estavam mirando na Dama. — Eiro comentou e o Elfo da Luz o encarou confuso.

— É? Que tipo de idiota tentaria lutar contra uma deusa de verdade?

Com um sorriso, Nelli flutuou e se inclinou contra a cabeça de Eiro.

— Exatamente! Que tipo de idiota pensaria nisso?

Eiro acenou com a mão para afastar Nelli enquanto olhava para ela.

— Em primeiro lugar, a Dama do Outono é uma vadia. Segundo, não lutei contra ela, fui contra a vontade dela e a fiz observar enquanto massacrei dúzias de humanos. Terceiro, elas não são deusas de verdade, são Espíritos Supremos e Deusas da Natureza, existe uma diferença. Não são real ‘seres divinos’, mesmo que estejam próximas disso.

— Não vou nem perguntar do que você está falando, mas me responda, quem fez essa merda? — James questionou de novo e Eiro suspirou.

— Explicarei no caminho. Voltaremos para casa, temos um convidado. — O Demônio apontou e olhou para Gobo enquanto fazia isso. — Essa também é uma boa chance para te ensinar mais um pouco, cara. Posso te ensinar sobre a estrutura interna do corpo humano, seus pontos fracos, quais pontos evitar em uma luta e assim por diante, tudo o que eu quiser. — O Diabrete comentou.

Parecia que o Hobgoblin ficou bastante animado com isso, mas, devido à estranha voz de Eiro, que era calma e animada ao mesmo tempo, James, Jess e Krog sentiram arrepios em seu corpo.

O grupo voltou até a mansão e como Eiro prometeu, não chegaram muito depois das crianças.

— Ah, aqui está você! Você voltou rápido mesmo. — Arc exclamou com um sorriso amplo, mal terminando de trazer os cavalos e olhou na direção dos outros. — É bom vê-los também… dia muito maluco, hein?

— Você pode dizer isso de novo…? — Krog respondeu com um sorriso sarcástico. — Pensei que poderíamos relaxar e comer comidas super deliciosas hoje!

— Haha, não se preocupe, Rudy disse que prepararia algo para acalmar os nervos. Felix e Sammy estão preparando algumas mesas no jardim para que possamos olhar as luzes no céu. — Arc comentou e Jess arregalou os olhos.

— Oh, isso soa legal! Eiro, é por isso que nos pediu para virmos aqui?

— Na verdade, não, não sabia sobre isso até agora. Arc, diga aos outros que já vamos. Só preciso mostrar uma coisa para esses caras. — Eiro disse e Arc deu de ombros em resposta.

— Entendido. De novo, não se atrase!

E com isso Eiro levou seu grupo, assim como Gobo e o Slime, pela mansão.

Os levou escada abaixo até o fundo do porão. Empurrou objetos na parede, usou mana em algumas partes e evitou outras e a parede magica escondida à sua frente desapareceu.

— Estamos nas… masmorras? Mas por que estamos…? — Jess questionou, confusa e Eiro permaneceu em silêncio enquanto os conduzia até uma cela específica.

— É simples, Jess. Estou introduzindo vocês ao nosso convidado. — Eiro apontou enquanto parava na frente de uma cela. Na frente dessa cela havia três mesas colocadas, cada uma segurando o corpo nu de três pessoas mortas, dois homens e uma mulher. Eles estavam bem à vista do homem acorrentado dentro da cela, que lutava para recobrar a consciência.

— Deixe-me apresentar a vocês o idiota.

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