
Volume 3 - Capítulo 212
A Virtude do Demônio
A gema estava parada no chão e o foco de Eiro foi atraído para ela, quer ele quisesse ou não. Era como se sua cabeça fosse forçada nessa direção e não havia nada que pudesse fazer sobre isso.
Eiro empurrou seu pé para abaixo dela e a chutou para cima, como não conseguiria segurá-la agora. No fim, acabou fazendo um pequeno ‘ninho’ com os braços na frente do seu peito. O impacto o machucou um pouco, desde que seus braços estavam quebrados, mas conseguiu segurá-la.
O Demônio caminhou até os outros para que conseguisse um pouco de cura. O cara que havia arremessado a rocha nessa direção desapareceu logo depois que a Dama fugiu. Ou era o que pensou a princípio, mas, de repente, sentiu outra rocha vindo. Dessa vez, não conseguiria bloqueá-la, mas também não poderia desviar… as crianças estavam logo atrás dele.
Antes que conseguisse terminar seus pensamentos, sentiu algo puxar sua capa enquanto seus pés eram retirados do chão. Rudy havia agarrado Eiro e o jogado para trás.
O jovem colocou as mãos na frente do seu corpo em uma postura simples de defesa, para que conseguisse se estabilizar. Rudy definitivamente seria arremessado! Ele não sofreria nenhum dano, mas não era forte o suficiente para impedir a rocha!
Assim que Eiro pensou em usar magia para ajudar ele de alguma forma, a rocha já havia o alcançado. Ela pressionou os braços de Rudy e Eiro pensou que, a qualquer momento, ele seria arremessado, mas em vez disso, outra coisa aconteceu.
Rudy havia se posicionado de forma que não pegasse a rocha na altura do seu centro de gravidade e sim para que conseguisse jogá-la para baixo, no ponto mais baixo possível. Claro, Rudy foi pressionado no chão e deslizou sobre os guardas que estavam atrás dele, mas isso não foi tudo. Por causa do seu posicionamento, a rocha foi empurrada um pouco e errou todos atrás do garoto, além disso, Rudy não foi arremessado com tanta força, pois a força era mais para baixo do que para frente e grande parte dela foi empurrada no próprio chão.
Com um grito alto, o garoto se levantou e correu na direção de seu pai, para a surpresa de todos que testemunharam isso acontecer. Ver Eiro bloquear a primeira e impedir seu movimento foi impressionante, mas ver um jovem lidar com ela e não parecer ser afetado também era algo digno de se ver.
— Você está bem? O que podemos fazer para ajudar? — Rudy perguntou, encarando Eiro com preocupação e o Demônio se sentou ali, olhando para todos.
— Rudy, proteja os outros, incluindo Solomon e Charles. Sammy, diga para os cidadãos voltarem para suas casas, Arc, você pegue Avalin e Leon e os leve para algum lugar seguro. Clementine, consegue-
Assim que Eiro olhou para a jovem, ela já estava encarando Eiro intensamente. Ela tinha uma certa expressão no seu rosto que Eiro não gostava muito. O Diabrete estalou sua língua e se virou para Gondos. Fornecendo a ele quanta mana fosse necessária, fez o Golem criar uma cápsula grande o suficiente para cobrir Eiro, Clementine e os dois Espíritos. Arc, Rudy e Sammy já sabiam o que estava ocorrendo, mas todos os outros estavam confusos e assustados.
A fome de Clementine estava descontrolada. Recentemente ela não esteve cercada por pessoas que estavam feridas e isso foi logo durante o momento em que estavam tentando ajudá-la a manter sua fome sob controle, então estava mais sensível a esse tipo de fome. E Eiro estava com muita dor agora, o que parecia delicioso para Clementine.
O Demônio cerrou seus dentes e encarou a garota.
— Clementine, pode esperar alguns instantes, certo? Realmente preciso que espere. — Eiro disse para ela, tentando ajudá-la a manter sua mente sob controle, o que Nelli auxiliou o máximo que pôde. Eiro jogou a gema que segurava no chão e tentou entrar no estado meditativo para aumentar seu fluxo de mana. Enquanto isso, a Náiade envolveu os braços dele com magia de água para ajudá-lo.
Eiro não tinha nenhum talento particular para magia de cura, mas ossos quebrados como esses deveriam ser curados em cerca de 10 minutos. Tempo que não tinham, mas pelo menos Eiro era capaz de fazer outra coisa.
Ele mesmo usou magia de água para controlar seu sangue para que conseguisse colocar seus ossos nos lugares corretos, tentando fazer algumas das partes fraturadas ou estilhaçadas se curarem, mas as rachaduras maiores ainda estavam lá. Na verdade, Eiro tinha ferimentos como esses por todo o comprimento dos seus braços, o que era muito, muito irritante.
O Demônio cerrou os dentes e tentou aguentar a dor, quando escutou outra pancada alta do lado de fora, seguida por Rudy caindo no chão e outra pancada alguns momentos depois, que era outra rocha acertando o chão depois de ser desviada por Rudy.
— Eiro — O Diabrete escutou o sussurro de Solomon do lado de fora da proteção em que estava e, devagar, focou sua atenção nele. — Não permitirei que alguém cause caos dentro da cidade desse jeito. Todos serão forçados a sair em alguns momentos, então peço a você: nos ajude por quaisquer meios possíveis. Eu encobrirei qualquer coisa que seja necessária, me faça esse favor!
E, antes que Eiro tivesse qualquer chance de reagir, Solomon seguiu os guardas que o ajudavam a fugir desse ataque.
— Clementine… — O Demônio murmurou, enquanto retirava sua capa e se livrava das duas pedras mágicas das sombras que usou para esconder sua ‘verdadeira’ natureza. Estendeu seus braços para a menina e, antes que percebesse, a jovem passou suas mãos sobre eles. Por um instante, Eiro sentiu a dor do toque antes de sentir seus ossos serem corrigidos. A fome de Clementine desapareceu, mas, em vez disso, agora sentia uma dor imensa depois de ter seus braços quebrados depois de curar os de Eiro.
— Shh… — O Demônio murmurou, envolvendo a garota não com seus braços, mas também com suas asas, enquanto Nelli afundava em suas costas. O corpo de Eiro mudou enquanto se fundia com o Espírito, antes que usasse magia em Clementine nos seus braços, afinal ela estava muito abalada para fazer isso por conta própria.
Felizmente, apesar das habilidades de Eiro serem baixas quando se tratava de magia de cura, devido à imensa receptividade de Clementine, conseguiu terminar a maioria da cura em menos de um minuto.
Clementine se sentou no chão frio, exausta pelo que aconteceu, enquanto Eiro e Nelli se separavam para que a garota conseguisse terminar de se recompor, agora que havia se acalmado um pouco. No meio tempo, Eiro retirou seu Três de Espadas e fez as lâminas se combinarem com diferentes partes que costumavam formar sua mão de madeira. Recentemente descobriu que poderia combiná-las com muito mais precisão do que pensava, não armas e ferramentas, mas também outros objetos assim.
Usando essa habilidade e o fato de que conseguia controlar perfeitamente as cinco lâminas de uma vez, Eiro conseguiu consertar sua mão de madeira, em sua maioria, dentro de alguns segundos, reparando partes substitutas para uma mão completa, então conseguiu consertá-la sem ter que fazer partes novas.
Para a surpresa de Eiro… enquanto conversava, sua mão, algumas das partes que foram quebradas, na verdade, se ‘curaram’ sozinhas. Algumas vezes, os pedaços eram puxados de volta ao lugar pela mão de Eiro sem que ele precisasse levá-los. Parecia que essa mão de madeira havia se tornado parte dele.
Assim que o Demônio terminou com isso, analisou a área ao redor para certificar-se de que todos haviam saído ou se escondido.
Os únicos nas ruas eram Rudy, alguns guardas que não queriam deixar o garoto sozinho, assim como alguns batedores aleatórios tentando reunir informações sobre o ataque.
— Com um suspiro profundo, Eiro tirou sua bolsa e a entregou para Clementine com outras coisas que poderiam revelar sua identidade se fossem vistas.
Retirou o Ás de Copas, derramou seu conteúdo sobre sua pele e tentou infundir o seu corpo com ele.
[O poder do Ás de Copas flui através de você. Pela próxima hora, você evitará o mundo.]
Assim que ficou invisível, ele removeu a cápsula de rocha ao redor dele e pulou no ar com o máximo de força que conseguia. O efeito foi ativado e os outros não conseguiriam percebê-lo, mas ele não receberia a ‘sorte’ que tinha sempre que usava o Ás de Copas, no qual qualquer tipo de ataque o evitaria por completo. Também parecia que os outros ainda não se esqueceriam dele. O efeito foi muito enfraquecido e o tempo em que ficaria ativo também diminuiu bastante.
Mas era suficiente para o que Eiro queria fazer. Pela primeira vez, Eiro bateu as asas, tentando controlar o ar ao redor com magia. Ele voou mais alto que o esperado. Essas asas tinham um poder imenso, isso era certeza.
Agora que estava no ponto mais alto, deixou-se cair um pouco e girou seu corpo antes de esticar suas asas. Fez com que planasse na direção de onde essas rochas crescentes eram arremessadas.
Logo, avistou quem era: era um jovem, vestindo luvas e sentado em uma pequena pilha de rochas do tamanho de punhos. Ele levou sua mão para trás e, com um movimento rápido, jogou a pedra para frente. Ela voou em uma linha reta e sua velocidade era insana. Era possível ouvir até mesmo o ar estalar.
Eiro mergulhou na direção daquela rocha. Agora, ela tinha o tamanho de uma cabeça e parecia que seu peso era proporcional ao tamanho da rocha. Então, Eiro conseguiu chutá-la no chão com muita facilidade.
Ela deslizou por mais um tempo, mas parou antes mesmo de entrar na praça e cresceu ao seu tamanho máximo. Eiro interrompeu a infusão com o Ás de Copas e derramou o restante do líquido de volta na própria taça, guardando a Carta de volta em sua Tesouraria.
— Ei, seu pirralho… — Eiro disse em um rosnar profundo enquanto encarava o jovem prado ali, com os olhos cheios de ira. — Seus pais não te ensinaram a não jogar pedras por aí?