A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 211

A Virtude do Demônio

Logo, Eiro e Solomon alcançaram o lugar onde os outros também esperavam. O Rei se sentou no trono móvel preparado para ele, enquanto Eiro caminhou até suas crianças.

— Papai! — Avalin exclamou alto e pulou na direção do Demônio, que a segurou.

— Então, você já se divertiu aqui hoje? — Eiro perguntou e a garota assentiu.

— Uhum! Tinham tantos doces gostosos! Muitos doces supercoloridos! — Ela exclamou e Eiro encarou no fundo dos olhos da menina antes de olhar para Leon. Até ele parecia um pouco agitado e segurava a mão de Eiro, inclinando-se de forma que a mão dele era a única coisa que o impedia de cair.

O Demônio olhou para Sammy, que já estava desvaindo o olhar.

— Quanta açúcar eles tinham?

— Eu… Eu não sei do que você está falando… — Sammy disse. — Não dei nenhum doce para eles… — Ela comentou. E, para a surpresa de Eiro… não havia poder por trás das palavras dela, o que significava que a ‘verdade’ não foi distorcida. Sammy já era muito boa em suprimir os efeitos da sua voz, mas ainda havia resquícios, embora não fossem suficientes para deixar as pessoas mais inclinadas a acreditar nas suas palavras e não as ‘controlasse’ de fato.

Mesmo assim, embora estivesse suprimindo tudo na sua voz e já estivesse dizendo a verdade, não havia resíduos de poder na voz dela. Então, com um resmungo profundo, Eiro olhou para Sammy de novo.

— Então, quem deu doces para eles?

— Erm… — Sammy começou enquanto coçava suas bochechas. — Aquela mulher, Jess… ela foi até uma barraca com Avalin e Leon por um momento e, quando voltaram, eles já estavam comendo doces… e não queríamos tirar deles.

Eiro encarou Jess. Ela também estava olhando para ele, então desviou o olhar após se assustar. Jess não era capaz de ver a expressão dele por causa da máscara, mas o Diabrete tinha certeza de que ela sabia o que ele pensava.

— Esta será uma noite problemática… Vamos esperar que eles não durmam muito cedo hoje à noite. — Com Avalin sentada em um dos seus braços, com seus próprios braços enrolados no pescoço de Eiro para estabilidade e Leon segurando sua outra mão, o Demônio olhou de novo para a Filha do Inverno.

Parecia que as pessoas que foram escolhidas para presentear as oferendas à Filha estavam indo até ela e as colocando na sua frente. Inesperadamente Eiro notou que algumas pessoas estavam de fato convencidas de que aquilo estava dando certo, apesar de terem expressado suas reclamações momentos antes. O motivo principal para isso era que a Filha do Inverno estava sorrindo.

Durante os muitos anos em que ela visitou esta cidade, parecia que ela tinha uma expressão um tanto… fria. As pessoas pensavam que era para ser assim, já que a Filha do Inverno representava o frio em si.

Pelo menos estavam mudando de opinião, então tudo estava bem, mas independente disso Eiro ainda estava curioso sobre o que deveria esperar. Ele havia tentado dar a gema que coletou do Caminhante do Gelo Fragmentado à Filha, mas ela disse que ele deveria esperar até depois, onde algo especial deveria acontecer. Solomon pareceu bastante confuso, então ela não estava se referindo a algum evento normal que aconteceria todos os anos.

Demorou um tempo para que tudo acabasse e assim que acabou, a Filha do Inverno se inclinou para frente. Parecia que era hora para aquele evento, pois geralmente nesse instante a Dama desapareceria da cidade, então era provável que essa era a última coisa que a Filha faria hoje.

Ela colocou as mãos no chão à sua frente, bem em cima de duas partes específicas dos entalhes cobrindo toda a praça. Elas se iluminaram por baixo da fina camada de neve cobrindo o solo. Dessa mesma neve, várias flores do inverno brotaram e cobriram toda a praça com um brilho misterioso, enquanto as flores refletiam a luz dos entalhes.

Isso não foi tudo, porque a neve que estava caindo até agora se intensificou bastante, mas apenas dentro da praça. Sem chegar até as pessoas a circundando. Era como se um grande pilar de neve aparecesse do nada e era quase impossível enxergar através dele.

Então, de repente, a nevasca começou a se contorcer na forma de um tornado. O pilar encolheu em largura e logo cobriu a parte central da praça, antes que, de uma só vez, toda a neve sumisse sem deixar traços.

Para a imensa surpresa de Eiro, tanta que ele não tinha ideia de como deveria reagir, uma figura que ele não esperava apareceu no centro da praça, bem na frente da Filha.

Era a Dama do Inverno, em toda a sua glória, enquanto olhava ao redor.

— Oh? Fui chamada aqui, entendo? — A Dama perguntou com um tom surpreso. — Isso só pode significar que… — Ela começou e se virou devagar para avistar Eiro parado ali. — … que você está aqui. — A Dama foi com um pequeno sorriso no rosto, enquanto Eiro colocava Avalin no chão e soltava a mão de Leon, para que pudesse se aproximar da Dama do Inverno.

— É uma honra ser capaz de vê-la de novo, minha Dama. — Eiro comentou enquanto se ajoelhava na frente da Dama. Ele conseguia ouvir algumas pessoas se surpreenderem por ele estar se curvando na frente de alguém, incluindo um certo grupo de três pessoas com quem Eiro precisaria ter uma conversa depois. Com uma risada baixa, a Dama assentiu.

— Só posso compartilhar este sentimento. Não é possível para mim aparecer em outro lugar fora deste com tanta frequência. Estou feliz de que hoje seja tal dia, mas devo admitir, estou surpresa de ver você aqui, caro Eiro. — A Dama comentou e Eiro assentiu.

— Honestamente, foi pura coincidência. Acontece que conheci o governante desse Reino durante minhas viagens. Agora vivemos nesta capital. Só descobri recente que este lugar era visitado por uma das suas filhas.

— Você tem bastante sorte como sempre, não é? — A Dama perguntou com um tom divertido, rindo com a mão cobrindo sua boca. Eiro também não conseguiu negar isso. Então, recordou que ainda tinha algo para entregar à Dama.

— Ah, me desculpe, mas no passado, as pessoas desta cidade eram bastante desinformadas sobre como sua filha deve ser tratada. Agora mostrei para eles os costumes corretos, mas ainda desejo oferecer algo como um pedido de desculpas. — Eiro começou e, com um balanço do seu punho, uma gema apareceu na sua mão. Era quase translúcida e congelante, como se fosse um pedaço de gelo transparente.

O Diabrete a entregou para a Dama, que esticou sua mão e a recebeu alegremente.

— Que maravilhoso, não via uma gema tão grande como essa há séculos. — Ela exclamou com uma voz feliz. — Não se preocupe, as pessoas desta idade foram absolvidas, contanto que tratem minha filha com o respeito que merece daqui em diante.

— Claro que sim. Me certificarei de que — Eiro comentou, mas foi interrompido no meio da sua frase. Ele estalou seu pescoço e, sem hesitação, ativou sua habilidade ‘Pele de Pedra’ e deslizou pelo solo na direção de Gondos. O Espírito e o Demônio se fundiram, fazendo as defesas de Eiro aumentarem muito.

Antes que mais alguém pudesse notar ou reagir, uma rocha maior do que Eiro foi arremessada da direção da Dama em alta velocidade. Eiro não conseguiu tirá-la do caminho, porque não tinha certeza se era forte o suficiente para isso.

Claro que também não poderia deixar a rocha atingi-la. Eiro manipulou sua Força Vital para apoiar sua força o máximo possível, enquanto tentava usar magia de terra para desacelerar a rocha.

Assim que a rocha acertou suas palmas, uma forte rajada de vento se espalhou pela praça, enquanto uma notificação aparecia na frente de Eiro.

[-30.185 de Vida]

[Aviso! Seus braços foram quebrados!

A prótese de Eiro explodiu em pedaços ao longo das articulações e caiu no chão, com algumas poucas partes ainda conectadas à pele de Eiro. Todos os dedos haviam sumido e só restou metade da sua palma.

O demônio arregalou os olhos em resposta à dor que permeou o seu corpo, enquanto o som de ossos quebrando ecoou por suas orelhas. No instante seguinte, Eiro e Gondos foram forçados a se separar, porque os danos eram demais para suportarem enquanto mantinham a fusão.

— Minha Dama… — Eiro rosnou alto. — Vá! — O Diabrete exclamou. O ataque estava mirando na Dama e não em Eiro. A princípio, ele pensou que era o alvo, mas logo notou a fonte desse ataque.

Era um homem segurando rochas do tamanho de punhos em suas mãos. Ele falava algo sobre como ‘algum babaca bloqueou o ataque’, então não fazia sentido que Eiro fosse o alvo. Ele tinha atributos físicos muito altos e tinha uma habilidade especial. Porque a rocha que Eiro ‘pegou’ tinha metade do tamanho que tinha agora. Ela ainda estava crescendo e empurrando Eiro, enquanto ele se apoiava nela, sentindo dor.

Isso era ruim… muito, muito ruim.

Mas, feliz… a Dama já havia começado o processo de desaparecer quando a rocha foi enviada voando na direção dela, e a Filha do Inverno já havia desaparecido em primeiro lugar. A Dama havia assumido seu lugar quando apareceu.

— Me desculpe por não poder ficar e ajudar. — A Dama disse calmamente, mas o Diabrete balançou a cabeça de imediato.

— Não, está tudo bem! Saia! Por favor! — Eiro gritou e a Dama o encarou de volta.

— Então, deixe-me te dar um presente. — A Dama do Inverno desapareceu atrás de Eiro. Parecia que ela não tinha tanto poder quanto o Demônio pensava que ela teria, tendo sido transportada aqui contra os planos dela.

Eiro deixou seus braços caírem nos lados do seu corpo e se ergueu. Ele tinha que ser curado o mais rápido possível, mas, enquanto caminhava, com Nelli e Gondos pegando partes das próteses atrás dele, ele tropeçou na gema que havia entregado para a Dama, mas algo parecia diferente sobre ela… agora ela brilhava e atraía Eiro em sua direção.

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