A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 210

A Virtude do Demônio

Eiro encarou Evelyn e deu alguns passos na sua direção, mas a Feiticeira da Pedra de Sangue olhou de volta com uma expressão confusa e se afastou de Eiro.

— Esse sangue negro… Você só pode usá-lo uma vez, certo? Era um tipo especial de sangue com alta quantidade de mana para que pudesse controlá-lo à distância, mas agora, toda a mana foi usada. — Eiro adivinhou e a mulher arregalou os olhos em choque.

— Como você — ela questionou, embora não tivesse conseguido terminar a sentença antes que Eiro a interrompesse.

— Porque não sou um idiota.

Ao escutar essa breve conversa, Solomon ficou mais curioso sobre o que estavam conversando.

— Eiro, Evelyn, qual o significado disso? Que tipo de ‘sangue negro’ é esse?

Eiro encarou os olhos de Evelyn com um olhar penetrante, enquanto olhava para o Rei e dizia:

— Ah, não se preocupe. Evelyn já sabia o que sou, provavelmente por sentir as propriedades especiais do meu sangue, ou minha forma através do meu sangue ou algo do tipo. Parecia que ela estava tentando impedir de revelar isso para você usando alguma substância especial. — O Demônio explicou. O tom de sua voz insinuava que estava rindo sobre isso, mas seu rosto, que Evelyn conseguia ver, estava preenchido de fúria e ódio.

Então, o rosto de Eiro retornou para um sorriso enquanto se virava.

— É provável que ela estivesse preocupada com sua reação. — Eiro riu enquanto voltava até Solomon e a Filha do Inverno, enquanto Evelyn permanecia ali, completamente perplexa.

Havia alguns motivos para Eiro não ter revelado o que ela fez. Primeiro, se a irritasse, ela poderia acabar matando Solomon e Eiro, se livrando do corpo do Demônio e dizendo aos guardas que não conseguia enxergar nesse lugar tão bem e que Eiro foi quem matou o Rei.

Eu queria evitar isso. Bem, desde que a Filha do Inverno estava aqui, seria muito difícil para Evelyn fazer isso, de qualquer forma, mas acima de tudo, Eiro não queria lutar na frente da Filha.

Era desrespeitoso.

— Entendo… Então, vocês estão mesmo se dando bem, não é? Estou feliz que esse seja o caso! Então, Eiro, isso significa que você-

— Oh, você e eu a lideraremos até a cidade, Solomon. Minha decisão permanece a mesma. — Eiro explicou, interrompendo o Rei, que assentiu.

— Compreendo. É uma pena, mas se esta é a sua escolha, não a ignorarei. Me desculpe, Evelyn. Por favor, volte para a cidade antes de nós.

A Feiticeira da Pedra de Sangue encarou Eiro com fúria nos olhos e assentiu com a cabeça.

— É claro, sua majestade. — E com isso, se virou e caminhou pela floresta na frente dos outros.

Eiro adoraria matar Evelyn agora, mas só por conseguir evoluir não significava que era capaz disso. De qualquer forma, isso seria arriscado, mas para a sorte de Eiro seu crescimento de atributo por nível era muito alto se comparado a outros. Seus atributos acabariam crescendo muito se saísse para caçar por um tempo.

Apesar disso, o fato de que o ‘Caminhante do Gelo Fragmentado’ só forneceu um nível para ele era algo incômodo. Isso significava que teria que começar a procurar por monstros mais fortes do que os que encontrava no geral, e isso já era um incômodo por si só. Ele não tinha certeza se havia lugares como o que estava pensando agora. Pelo menos, não perto daqui.

Era um incômodo, mas era algo com que Eiro tinha que viver por ora.

— Então… — O Demônio começou a vestir sua capa de volta, infundindo suas asas com magia das sombras de novo e olhando para a Filha do Inverno. — As Damas encontraram um guia substituto?

Com um aceno lento, a Filha sorriu para Eiro.

— Sim, há um jovem que parece bastante interessante nessa posição. Quando um batedor foi enviado para procurar por um novo guia, esse homem estava esperando para assumir a tarefa.

— Oh, sério? Interessante. — Eiro comentou. — Então, vamos esperar que ele faça um bom trabalho, certo?

— Claro que sim. Entretanto, duvido que as Damas o achem mais divertido do que você e Jura. — A Filha riu e Eiro retribuiu a risada.

— Entendo… — Eiro começou enquanto tentava pensar em alguns tópicos que a Dama do Inverno gostava de falar, os quais as Filhas também ficavam curiosas, para que conseguisse ter uma conversaria apropriada e suave com ela durante o tempo que esperavam para poder ir à cidade e enquanto caminhavam até lá.

No fim, parecia que essa ideia funcionou bem, já que não demorou muito para Eiro encontrar um bom tópico por agora. Tinha relação principal com as diferentes plantas que tinham que ser coletadas para as Damas e suas Filhas, por exemplo, que tipo de usos elas tinham além dos que Eiro já sabia, ou melhor, supunha saber e para que eram usadas no Reino Espiritual, ao qual a Filha do Inverno retornaria mais tarde.

Isso não foi tudo, também conversaram breve sobre Skyhart e sobre o ancestral de Solomon, o qual também foi abençoado pela Dama do Inverno. Solomon nunca teve a chance de falar com a Filha, já que nunca soube o que precisava fazer por ela e nunca teve a chance de se aproximar dela, olhando para a Filha como se ela fosse algum tipo de arte ou performance que não deveria ser interrompida.

Era por isso que o Rei, em particular, parecia muito animado de falar com a Filha e ficou muito feliz por Eiro ter tornado isso possível. No começo, Solomon estava muito tenso, mas assim que começaram a se mover até a cidade, não estava muito diferente de como conversava com o Eiro.

Ele estava um pouco relaxado às vezes, mas não era como se Eiro se importasse, pois estar relaxado não significava que era idiota ou ingênuo demais. Ele parecia muito bom em julgar as pessoas e sempre olhava além da superfície, o que poderia ser visto pelo fato de não se importar com Eiro ser um Demônio.

A Filha do Inverno ficou assustada quando notou que havia muitos soldados e guardas os seguindo, mas depois que Eiro explicou que era assim que os humanos funcionavam e que não deixariam Solomon caminhar sozinho sem nenhum tipo de proteção, ela pareceu compreender e deixou assim por enquanto, contanto que não fosse ameaçada ou incomodada.

Parecia que a decisão de Eiro de se livrar das armas foi uma boa ideia. Enquanto o grupo caminhava e o sol se punha, Eiro já conseguia ver as belas luzes coloridas cruzando o céu acima deles.

Era deslumbrante e uma das partes favoritas de Eiro sobre o Solstício de Inverno no geral. Logo, entraram pelo primeiro portão e viram algumas das pessoas que viviam no círculo externo se reunindo ao lado da estrada para observar a Filha do Inverno passar. Alguns deles acabaram seguindo Eiro, Solomon e a Filha do Inverno, para que pudessem observá-la por mais tempo e estarem presentes enquanto ela estava na cidade.

E como sempre fora, o tempo que levou para chegarem ao destino pareceu muito, muito menor do que deveria e logo chegaram à parte principal da cidade. Aqui, Eiro conseguia sentir o cheiro de vários pratos fritos, cozidos, assados, qualquer coisa, na verdade. O som das pessoas rindo e conversando ecoava pelas ruas e inúmeras pessoas se reuniam ao redor.

O único lugar onde não havia ninguém era a rua central que levava à praça na frente do castelo, por onde a Filha, Eiro e Solomon passariam. Assim que a Filha entrou no alcance de todos, as ruas tão ocupadas, barulhentas e animadas ficaram em um silêncio absoluto, enquanto todos observavam a Filha do Inverno caminhar na frente do Rei deles e de um indivíduo mascarado e desconhecido.

Após alguns momentos de silêncio se espalhando por essa parte da cidade, algumas pessoas começaram a sussurrar entre si. Algumas pessoas falavam sobre quão linda e majestosa a Filha do Inverno era, outras sobre o porquê de o Rei estar caminhando atrás dela e não ao lado, mas sim ao lado daquele ‘cara aleatório’.

E havia muitas pessoas reclamando sobre as novas regras implementadas neste ano, as quais não permitiam mais reunir certas plantas durante a cerimônia e que algumas pessoas tivessem que reunir algumas coisas para oferecer à Filha.

Logo, chegaram à praça de verdade, onde havia uma grande quantidade de pessoas os esperando. Aquelas que foram escolhidas para apresentar as oferendas extras permaneciam perto dos portões do castelo, junto de Charles e as crianças de Eiro. Os três membros do grupo de Demônio pareciam estar em algum lugar mais ao lado, já que não eram permitidos ficar bem em frente ao portão. Havia muitas pessoas falando sobre as crianças de Eiro e o motivo de elas estarem ali.

Havia algumas teorias ridículas como:

‘Talvez essas crianças sejam as oferendas’ ou ‘talvez o Rei tenha alguns bastardos’ ou algo do tipo, mas, no fim, isso não importava muito.

Quando entraram na praça, a Filha do Inverno continuou até o centro, o local em que parecia feito para ela parar. Parecia haver alguns entalhes no chão para isso. Essas runas estavam em uma linguagem que Eiro simples não entendia ou reconhecia, o que era mais do que irritante. Havia tantas linguagens antigas diferentes… De qualquer modo, Eiro imaginou que esses entalhes foram criados pela Filha do Inverno ou que o ancestral de Solomon, com a bênção da Dama do Inverno, havia sido instruído a como fazer isso.

De qualquer forma, Solomon e Eiro pegaram outro caminho para a praça em vez de atravessá-la, já que a praça em si estava reservada para a Filha. Os guardas pareciam ser contra isso e alguns dos espectadores nobres que encaravam a Filha com raiva, mas o Diabrete lidaria com esses idiotas mais tarde.

Isso não importava, desde que Eiro estava ficado na fila enquanto ela entrava no centro da praça. Com uma expressão satisfeita, ela se ajoelhou no chão e esperou que Eiro e Solomon chegassem em seus lugares.

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