A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 209

A Virtude do Demônio

No seu caminho de volta para a clareira, Eiro olhou para a gema em sua mão. Era de qualidade muito alta, pelo que conseguia dizer. Ele não sabia muito sobre como determinar o valor de gemas e cristais, mas sabia quando via uma gema preciosa.

Ela era clara e linda, tinha uma forma física forte que tornava quase impossível quebrá-la e era boa conduzindo magia, especialmente magia de gelo. Também seria um material incrível para um cajado, mas por ora deveria ser algo que Eiro usaria para se desculpar apropriadamente com a Filha do Inverno. Até mesmo elas apreciavam coisas assim, afinal.

Assim que estava para se aproximar do Rei, alguém parou na frente de Eiro.

— O que foi? — O Demônio perguntou com uma voz rouca. Ele não conseguia se acalmar quando tinha essa mulher na sua frente.

Evelyn riu e deu de ombros, enquanto cruzava os braços.

— Nada, nada. Eu adoraria ver o que você tem, na verdade. — Ela disse com um sorriso e Eiro levantou a cabeça.

— Oh, você quer ver o que eu tenho aqui? É uma adaga, sério, gostaria de ver mais de perto?

Sem se importar com as palavras de Eiro, ela continuou a rir e se aproximou. Evelyn olhou para a gema que ele estava segurando e estendeu a mão.

— Me dê. — Ela disse, como se o comandasse a fazer isso.

— Por que eu faria isso? — O Diabrete retrucou e passou por ela.

— Oh… Você acha que é uma boa ideia?

Ao escutar o tom da voz dela, Eiro se virou e a encarou com uma carranca profunda.

— Eu acho, mas você é simples demais para entender.

Eiro tentou continuar caminhando até Solomon, mas, mais uma vez, Evelyn o impediu.

— Não é isso que quero dizer. É que se você for em frente, teria que lidar com as consequências, sabe?

— Isso é sobre aquele sangue negro que você me fez engolir? — Eiro questionou de imediato e Evelyn começou a sorrir.

— Bom, você percebeu. Sim, é isso. Se eu quiser, posso te controlar como eu quiser. Posso fazer você ficar de joelhos e implorar para que eu perdoe sua existência, ou posso fazer com que ataque a Dama que você tanto ama. — Evelyn comentou com uma expressão presunçosa.

Eiro levantou as sobrancelhas com curiosidade.

— Oh, esse sangue tem propriedades espaciais?

— Claro que não, o que você está dizendo? — Evelyn respondeu com um olhar profundo, mas foi interrompida.

— Então, cale a boca antes que eu enlouqueça de verdade. É vergonhoso que você não saiba a diferença entre a Dama e suas Filhas, então pelo menos tente agir como tal. Vai se foder. — Eiro se virou e caminhou até Solomon de novo. Falou com o Rei por um tempo, contando a ele sobre os materiais que reuniu e o porquê seriam oferecidos à Filha.

Parecia que Solomon estava bastante interessado e empenhado nisso, o que era bom. Parecia que ele nunca foi educado apropriadamente sobre como fazer as Damas, ou suas Filhas neste caso, felizes.

Com sorte no futuro, ele não continuaria a cometer erros como esse, mas Eiro ficou bastante curioso com outro detalhe. Por que a filha nunca fez algo apesar de ser tratada de forma tão ‘rude’? As damas que Eiro conhecia ficariam furiosas se fossem tratadas dessa forma, mas essa simples deixou acontecer. Talvez ela fosse tímida ou gentil. As filhas tendiam a ser muito diferentes umas das outras algumas vezes e frequente tinham traços de personalidade muito humanos.

Eiro olhou para o centro da clareira com pura curiosidade em seus olhos e se agachou no chão de novo.

— Bem… De qualquer maneira, me acorde se algo acontecer na clareira. — Eiro disse para Solomon, antes de se sentar de pernas cruzadas na neve e fechar os olhos. Só queria meditar um pouco para que não desperdiçasse o tempo que tivessem que esperar.

Parecia que demorou um bom tempo. O sol nasceu e subiu até o topo do céu e mesmo assim a filha não apareceu, mas, perto da noite, embora ainda um pouco cedo demais, a Filha do Inverno parecia aparecer lenta no centro da clareira na frente de Eiro.

Uma última vez, o Diabrete se certificou de que apenas ele e Solomon estavam aqui. Parecia que Evelyn não sairia também. Isso era muito, muito irritante, porque era óbvio que ela planejava algo.

De qualquer forma, por ora, isso não importava. Ele estava preparado para qualquer coisa que ela pudesse jogar nele, então Eiro cruzaria a ponte quando chegasse lá.

O Demônio se levantou e se aproximou da Filha do Inverno, que olhava para ele com interesse. Solomon estava logo ao seu lado, também carregando algumas das oferendas preventivas que ofereceriam para ela.

Eiro parou na frente da filha. Ela parecia igual à Dama, só que do tamanho de uma pessoa normal. Suas roupas eram um pouco menos complexas e decoradas, mas ainda emitiam a sensação de nobreza e divindade que Eiro era capaz de sentir da Dama. Parecia que havia um motivo para que essa Filha fosse escolhida para representar a Dama por conta própria.

— É bom conhecê-la, Filha do Inverno. Eu sou Eiro, um escolhido pela sua Dama. — O Demônio explicou, mas isso parecia desnecessário.

— Eu sei quem você é. Quem não sabe, afinal? — A filha perguntou com uma leve risada. — Na verdade, estou surpresa que haja oferendas este ano. Já estava ficando farta de não receber nenhuma. — A filha explicou e Eiro assentiu.

— Eu compreendo. Peço desculpas pela forma como as pessoas deste lugar agiram com você ao longo do tempo. Esse homem ao meu lado é Solomon Sigurd Skyhart, o Rei deste país e um dos descendentes de um dos escolhidos pela nossa Dama. Juntos, ele e eu viemos nos desculpar pelas más condutas às quais você foi exposta.

Com uma risada, a filha olhou para Eiro e balançou a cabeça.

— Oh, não se preocupe. As oferendas são mais importantes para minha mãe. Posso viver da beleza das pessoas por quem passo, apesar de que ainda preferiria receber oferendas. Não se pode viver exclusivamente de gratidão, afinal.

— É claro. Aqui, essas oferendas são para você. Uma para cada ano que foi maltratada. — Eiro explicou e colocou diferentes materiais na sua frente. Enquanto isso, Solomon encarava Eiro com olhos maravilhados, animado por ver que ele contou a verdade e parecia ter sido escolhido pela Dama do Inverno.

A filha olhou para todas as oferendas que Eiro entregou e assentiu a cabeça, satisfeita.

— Elas são lindas. Obrigada. Parece que ainda é um pouco cedo para irmos até a cidade, não é?

— Sim, está. Então, em vez disso, gostaria de conversar com você, se não se importar.

— Claro, por que não? Como eu poderia recusar o homem cujas palavras e comportamento foram um dos motivos para ser escolhido por minha mãe? — Ela questionou com curiosidade e Eiro assentiu.

Ao mesmo tempo, parecia que Evelyn estava movendo suas mãos, aparentemente tentando aplicar algum tipo de manipulação. Eiro pensou que deveria ser o sangue negro dentro do seu corpo. Ele se livrou da maioria dele, mas ainda tinha um pouco. Ele não se misturou com seu próprio sangue ou algo do tipo, mas se grudou em diferentes partes do interior do corpo dele, e como não restava muito, ele não sentiu nada além de um leve puxão na direção que ela queria.

Ele percebeu o que Evelyn planejava fazer e escolheu brincar junto.

— Acho que, para começarmos, devo mostrar a você minha verdadeira forma. — Eiro disse enquanto colocava a mão na sua máscara. — Este é o mesmo caso para você, Solomon, mas, por favor, confie que não importa o que aconteça, eu sou aquele que você conheceu. Não havia falsidade na minha personalidade nem no meu exterior. — O Demônio avisou e então retirou sua máscara, guardando-a em sua Tesouraria.

O rosto vermelho de Eiro foi exposto ao ar e o Diabrete retirou seu capuz. Ele segurou a pedra mágica das sombras colocada entre seus chifres e a removeu, fazendo-os retornarem à sua forma original.

Solomon não pôde deixar de encará-lo confuso, enquanto o Demônio retirava a capa do seu corpo, para que pudesse mostrar sua verdadeira forma para a Filha e para o Rei. Eiro a mostrou para ambos por respeito. Ele respeitava a filha como a criança de uma velha amiga e Solomon porque ele era um novo amigo. Ambos mereciam vê-lo dessa forma.

Os padrões azuis na pele vermelha de Eiro se estendiam até as partes azuis da sua pele. A massa sombria nas costas de Eiro desapareceu devagar para mostrar suas asas e cauda de aparência ameaçadora, que agora balançava para frente e para trás.

Claro, Solomon ficou surpreso com isso. E não só surpreso, mas chocado, o que Eiro compreendeu, mas ainda não esperou a reação de Solomon, porque no instante seguinte, o Rei começou a rir alto.

— Você era um demônio este tempo todo? Então é por isso que você vestia uma capa esse tempo todo? Não se preocupe, meu amigo, tais coisas não importam para mim. Eu mesmo tenho sangue de um monstro em mim, o sangue de um dragão. É bastante fraco agora que chegamos à minha geração, mas, independentemente disso, o sangue de um monstro flui por mim. Sei muito bem que ser bom é mais importante do que aquilo como você nasceu. — Solomon explicou. — E embora eu tenha escutado que você fez coisas bastante extremas. Acredito que tinha suas razões. Confio em você, não há necessidade de se preocupar.

Com um sorriso, Eiro acenou a cabeça.

— Entendo… Então, obrigado por me aceitar como eu sou, Solomon.

— É claro, meu amigo. — O Rei disse com um sorriso, o qual Eiro retribuiu. Enquanto isso, uma certa Feiticeira da Pedra de Sangue encarava Eiro, Solomon e a Filha do Inverno em confusão. Ela não esperava que ambos não se importassem com o fato de que Eiro era um monstro.

E, com um pequeno sorriso, Eiro olhou para Evelyn, mostrando a ela seu olhar profundo pela primeira vez após sua evolução.

— E agora você, mocinha.

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