
Volume 3 - Capítulo 200
A Virtude do Demônio
Eiro estava mais uma vez sentado na biblioteca, lendo um livro pelo qual se interessou, quando alguém entrou no cômodo para falar com ele.
— Eiro? — Arc perguntou e o Demônio olhou para o jovem.
— Sim? Está tudo bem? — Ele respondeu.
Arc assentiu e caminhou até Eiro, que estava sentado em uma das cadeiras com um livro no colo. Gobo e o Slime estavam no chão, enquanto o slime ajudava Gobo a aprender as palavras corretamente.
— Acho que preciso da sua ajuda com um pouco de magia. Pode vir aqui fora por um momento? — Arc perguntou. Eiro assentiu e colocou o livro ao lado.
— Claro. Qual é o problema, afinal?
Arc coçou seu pescoço incomodado, embora essa expressão incomodada logo tenha se transformado em um sorriso pequeno.
— De algum modo, não consigo fazer as chamas ficarem na minha espada. Ela foi projetada para isso e consegui utilizá-la com a espada de madeira que você fez para mim antes, mas é muito mais difícil com essa.
— Hm… é mesmo? — Eiro perguntou e Arc assentiu.
— Sim, é isso.
Um pouco depois, os dois chegaram aos jardins onde Arc praticava o tempo todo. Havia algumas marcas de queimadura no chão, como Eiro esperava. Isso mostrou que Arc praticava sem parar até conseguir.
Eiro esticou sua mão na direção do menino, para que ele entregasse sua katana. Ela não foi feita para Eiro, então não conseguiria lutar perfeitamente com ela, mas para esse tipo de demonstração ficaria tudo bem.
Havia um pequeno pedaço de metal colocado logo ao lado do cabo que funcionava como um substituto para o gerador de faíscas que Eiro usava, para que Arc conseguisse criar as chamas que quisesse utilizar.
Eiro criou uma pequena faísca e fez as chamas envolverem a lâmina.
— Deixe-me adivinhar, você não consegue ir além desse passo? — Eiro questionou e Arc acenou com a cabeça.
— Sim. Isso funciona em uma luta, mas não da forma como fazíamos antes, certo?
— Sim, isso mesmo. É uma forma de conjuração física. Praticar assim é uma boa ideia e você nunca deve esquecer de tirar um pouco de tempo para isso. Mesmo sem uma espada, com suas mãos. Suas próprias chamas não irão te machucar, então você ficará bem nesse aspecto.
— Eu sei, eu sei, estive praticando como você me instruiu, mas não consigo fazer a verdadeira infusão. É frustrante, e isso significa algo vindo de mim! — Arc exclamou com uma risada, ao que Eiro só pôde concordar.
Emoções como ‘frustração’ também eram vistas como negativas para a habilidade de Arc, portanto ele não a sentia, mas para Arc as emoções tendiam a se acumular e transbordar aos poucos.
Nunca houve algo como uma grande inundação, mas ocorria um pouco aqui e ali. Nesses momentos, a habilidade de Arc subia de nível muito rápido, então não sentia emoções assim por muito tempo. De qualquer forma, parece que agora estava transbordando depois de falhar repetidas vezes no que queria fazer. Eiro deveria ajudar para a habilidade ‘Resistência a Emoções Negativas’ de Arc não subir ainda mais de nível.
Após pensar um pouco, Eiro assentiu.
— Certo… é bastante simples, na verdade. É como você fez com a espada de madeira, porém muito mais difícil. A espada de madeira foi feita com o objetivo de facilitar a infusão para dominar o básico. Ela te auxiliou ao atrair magia de fogo para dentro de si durante a infusão. Esta lâmina não, ela possui grande capacidade ao ser infundida com magia de fogo, mas é mais difícil de penetrar em seu interior. — Eiro começou a explicar. — Agora me diga, o que você faz quando tenta infundir nela?
— Bem… — Arc começou. — Tento infundir de forma constante, então começo a focar em pontos específicos e começa a funcionar com um pouco de força, mas nunca tão bem, é sempre super instável.
— Ah, claro que é. — Eiro disse e entregou a katana para Gondos, enquanto criava uma parede de gelo espessa na sua frente.
— Vamos dizer que essa é a ‘parede’ que está impedindo sua magia de infundir na sua lâmina. — Eiro explicou, desenhando uma linha pequena de terra cerca de dois metros atrás da parede, então voltou para o outro lado da parede. — O que você está fazendo é isso. — O Demônio apontou e, sem hesitação, socou a parede de gelo. Um buraco apareceu no seu centro, no qual se espremeu e escalou para chegar ao outro lado da linha.
— Você força o seu caminho através de um ponto específico. — Ele disse e com um aceno de sua mão reparou a parede de gelo. — Mas o que você precisa continuar fazendo é isso. — O Demônio comentou, dando um passo na direção da parede e empurrando a perna através dela. Ele derreteu lentamente as partes que precisava e as reparou depois de passar por elas. Logo, chegou ao outro lado da linha enquanto a parede continuava em perfeito estado.
Mas parecia que Arc ainda não havia entendido.
— Então… o que isso significa? — Ele perguntou com um sorriso sarcástico. — Só tenho que fazer isso com constância, é isso?
— Sim e não. Você estava fazendo certo em alguma extensão. Algumas pessoas tentam infundir magia em si mesmas ou em suas armas, infundindo todo o seu corpo ao mesmo tempo. Por outro lado, é mais eficiente empurrar tudo para dentro de um único ponto, movendo-o para o seu coração e permitindo que o seu corpo faça o resto naturalmente. Isso significa que você está na direção certa ao tentar focar em um ponto, mas ainda não encontrou a forma correta de se aproximar. Você está fazendo isso com força, danificando a lâmina no processo. Não se preocupe, não é tão fácil danificá-la, então ainda está em perfeitas condições, mas se continuar fazendo isso, será outra história. Você precisa mover sua magia pelas áreas centrais e depois espalhá-la, assim que atravessar a ‘parede’. — Eiro explicou enquanto pegava a katana de volta com Gondos.
— Essa é a diferença entre isso… — Enquanto falava, a lâmina mais uma vez foi envolta por chamas , — … e isso. — De repente, as chamas desapareceram, como se fossem sugadas pela ponta da espada. Alguns segundos depois, parecia que a lâmina em si havia começado a aquecer. O metal não estava derretendo, mas começou a oscilar, com as bordas balançando ligeiramente.
Então, não muito depois, parecia que o próprio metal havia se transformado em chamas. Eiro assumiu o controle dessas ‘chamas metálicas’ e endireitou seu gume. A lâmina estava muito quente e afiada, ao ponto de apontá-la na direção da parede de gelo fazer com que ela derretesse.
— Isso é… isso é infundir? Parecia muito diferente para mim… — Arc murmurou e Eiro começou a sorrir.
— É um tipo de infusão, sim. Essa é uma forma em que você foca mais em aprimorar a lâmina usando a essência da magia de fogo. É um passo além do que você já conhece. A maneira como você fazia com a espada de madeira e como está tentando agora é combinar a lâmina com o poder da magia de fogo.
No instante seguinte as chamas começaram a aparecer ao redor da lâmina. Elas não estavam sendo controladas para grudarem na lâmina, mas o próprio metal parecia ser a fonte do fogo dessa vez.
— Desse modo. É fácil alternar entre os dois assim que você sabe como. — Eiro comentou.
Então ele teve uma ideia. Fazia isso tão naturalmente com a katana e até certo ponto com suas adagas, por que nunca mais tentou esse método enquanto se infundia? Em vez de se combinar com a magia, só precisava se aprimorar com ela. Ele havia tentado antes, mas isso foi durante a primeira vez que aprendeu a como mudar a forma como se infundia magia em armas ou ferramentas. Não havia funcionado, na verdade, acabou o machucando.
Eiro se livrou da magia dentro da katana e entregou de volta para Arc, que parecia ter compreendido algumas coisas observando seu pai. O Diabrete se fundiu com Gondos e observou enquanto Arc tentava controlar sua magia, dando instruções específicas sobre seu controle de mana.
Assim, uma vez que Ac parecia ter entendido o que precisava para praticar, Eiro começou a praticar por conta própria. Até então, ele não infundia seu corpo com magia com muita frequência nos combates, mas sempre que conseguia, fazia com o uso de pedras mágicas que controlava para que a magia pura percorresse todo o seu corpo de imediato.
Sempre que usava sua própria magia, cobria o seu corpo na maioria das vezes, infundindo ligeira o seu corpo, se infundia. Era um método fácil e rápido de produzir resultados de alta qualidade. O motivo para isso era que ele nunca foi capaz de infundir seu corpo com sua própria magia, como fazia com a magia das pedras mágicas. Sempre era muito mais difícil e algumas vezes o prejudicava quando não tinha cuidado… mesmo quando utilizava pedras mágicas, o ‘segundo nível de infusão’ era impossível, isso só poderia ser feito com sua própria magia, então nunca funcionou no seu corpo. Parecia como se esticasse, dilacerando seu próprio corpo.
Agora, era capaz de se fundir com Espíritos com facilidade. Eiro retirou o gerador de faíscas e criou uma chama usando sua magia. Tentou assegurar que todas as partes da chama estivessem sob seu controle e, em seguida, inseriu-a na sua mão esquerda. Não queria quebrar sua prótese, então usou sua mão real para que fosse mais seguro, já que ela poderia ser curada com magia de cura.
Eiro empurrou a magia em sua mão e a transformou como se estivesse se infundindo com a magia de fogo das pedras mágicas. Era como se o seu corpo tivesse se transformado em chamas até certo ponto. Assim, Eiro tentou ir além disso: ele fez a magia penetrar no âmago do seu ser.
Logo as chamas desapareceram e tudo o que sobrou era a mão esquerda de Eiro. Ela balançava ligeiramente quando ele tentou tocá-la com sua mão direita, mal sentindo resistência, como se sua carne fosse feita de espuma, mas ainda era mais sólida do que quando sua mão se transformou em chamas, mesmo agora.
Respirando fundo para controlar seus pensamentos e respiração, Eiro deu um passo na direção da parede de gelo que ainda estava erguida para que Arc pudesse praticar com ela. Colocou a mão no gelo, mas antes de fazer contato, ele derreteu.
Parecia que Eiro teve sucesso no que queria fazer. Ele havia ido além da infusão de magia comum à qual estava acostumado e aprimorado o seu corpo com o poder da magia de fogo.