
Volume 3 - Capítulo 201
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para sua mão com uma expressão bastante curiosa. Queria ver o que mais aconteceria se ele se infundisse com os diferentes tipos de magia que possuía. Primeiro, se livrou da magia de fogo que infundiu na sua mão esquerda e então retirou um frasco que carregava na sua bolsa o tempo todo.
Abriu-o e retirou água refinada que estava dentro dele. Com um rápido movimento do pulso, a água jorrou do frasco aberto e se moveu ao redor da mão do Demônio. Eiro se certificou de infundir sua mana na água, pressionando-a na sua mão. Respirou fundo para se acalmar e tentou realizar o procedimento normal de se infundir com algo.
Era muito diferente de quando infundia com a magia das pedras mágicas, desde que conseguia criar em sua ‘essência mágica’ bruta, como se fosse mana elemental, em vez do elemento físico. Com fogo era algo diferente, já que o fogo em si era como uma energia, muito parecido com mana. criar calor sem chamas também poderia ser considerado magia de fogo, então poderia infundir com muita facilidade no seu corpo, mas quando se tratava de água… Nesse instante, mal parecia que Eiro conseguiria perfurar sua pele tentando empurrá-la mais para dentro. Então, pensou em como se sentia quando se fundia com Nelli ou Gondos. Era uma sensação muito diferente de se infundir com uma pedra mágica.
— Devagar… — O Diabrete sussurrou para si. Ele tentou absorver a água, como se estivesse bebendo pela sua pele. Queria misturá-la com cada fibra do seu ser. A água que estava tocando na pele de Eiro começou a desaparecer depois de ser absorvida pelo demônio que a controlava.
E logo, Eiro abriu seus olhos.
— Funcionou…? — Ele murmurou e moveu sua mão suja, surpreendendo-se ao ver… algo bastante confuso acontecer. Era como se sua mão estivesse cheia de água, criando pequenas ondulações com cada movimento que fazia. Era uma sensação bastante estranha, na verdade e Eiro não tinha certeza se isso tinha alguma utilidade, até que percebeu uma coisa.
Eiro assumiu sua postura de combate corpo a corpo, fechando sua mão direita abaixo da lateral do seu peito e esticando sua mão esquerda para frente. Devagar, o Demônio mudou a posição de suas mãos, movendo o punho para frente e sua mão esquerda para o lado do seu corpo, com a palma ainda aberta. Ele torceu o corpo um pouco para o lado enquanto fazia isso.
Assim, com um movimento rápido, Eiro recuou a mão direita e empurrou sua mão esquerda, enquanto torcia seu corpo para a esquerda para aumentar a velocidade de sua mão. Claro, nada aconteceu na hora, mas Eiro conseguiu perceber o uso para sua mão neste estado.
Por causa do movimento rápido seguido pela sua parada súbita, foi como se todo o ‘líquido’ compondo sua mão avançasse em pequenas ondas, reunindo-se no centro de sua palma, criando um pequeno ‘espinho’. Essas ondas não carregavam a carne aquosa de Eiro, mas a mana dele. De uma vez, ela se reuniu na palma dele e foi propulsionada para frente, como se forçada a sair do seu corpo em um nódulo pequeno e comprimido com uma velocidade que era difícil adquirir por meios normais, até mesmo para Eiro.
Com um pouco de curiosidade, pegou o gerador de faíscas com sua mão direita e criou uma pequena chama, a qual reuniu na frente da sua palma esquerda usando magia, começar a repetir o mesmo movimento que fez antes.
Reuniu mana em sua mão esquerda para que ainda mais mana fosse usada naquele ‘nódulo comprimido’. Assim, depois de golpear com sua palma para frente, a mana foi empurrada em direção à chama, mas Eiro antecipava isso e, no momento certo, tornou sua mana o ‘combustível’ para as chamas. Então uma bola de fogo muito rápida, embora pequena, foi disparada.
— … O que você acabou de fazer…? — Jess desceu as escadas em que estava. Ela, assim como James e Krog, observavam há um tempo Arc praticar e tentavam ajudá-lo, mas a única com afinidade com o elemento fogo era Jess, uma maga, então nenhum deles conseguia ajudá-lo além de mostrar para o garoto o que conseguiam fazer com suas próprias magias e armas, o que não parecia de muita ajuda. Então, depois de notar isso, se contiveram um pouco e assistiram a Eiro tentar ensinar Arc, mas isso era algo que Jess não poderia ignorar.
— Você… conjurou um feitiço de Bola de Fogo sem desenhar um círculo mágico? — Ela questionou de longe. Jess sabia que Eiro era capaz de desenhar círculos mágicos com velocidade imensa, mas isso foi rápido demais até mesmo para ela enxergar. Porém, Eiro olhou para ela com um sorriso na face.
— Não. Isso foi conjuração física, Jess. — O Demônio comentou, mas a jovem o encarou em descrença.
— Não há como diabos isso ser conjuração física… Isso foi muito rápido para ser conjuração física!
— Eu sei, mas é por causa dessa nova técnica. — Eiro explicou, presunçoso. Ele apontou sua mão na direção de Jess e mostrou o que fez para criar esse efeito. Se conseguisse praticar o suficiente para que completasse o processo de infusão em alguns instantes, então deveria ser capaz de usar tal habilidade em combate.
Até mesmo James e Krog compreenderam quão incríveis eram as possibilidades que isso abria.
— Isso não é considerado trapaça neste ponto…? O que diabos foi isso? — James questionou e Krog esticou o dedo e cutucou a palma de Eiro, observando-a se mexer.
— Hm… isso não é como, sabe, um slime? Aquelas caras são imunes a danos contundentes, certo? Se você transformar todo o seu corpo, sua defesa aumentará, é isso? — Korg perguntou e Eiro refletiu por alguns segundos assentir.
— Acho que sim, mas quando estou lutando contra pessoas usando armas contundentes, se tiverem espadas ou lanças, tornaria mais fácil de me ferir. Embora… — Eiro pensou sobre esse tipo de uso para essa habilidade e tentou a técnica depois de ativar a habilidade ‘Pele de Pedra’ que recebeu ao levar sua Resistência para 100. Para surpresa de Eiro, parecia que sua pele rígida e muito alterada não mudava a forma como sua mão funcionava. Ele deveria usá-la mais vezes, afinal, não havia motivos para não aproveitar disso. Ficaria um pouco mais pesado e mais lento, mas não era muito.
‘Interessante.’
Eiro pensou sobre o que mais poderia fazer e, no fim, decidiu levar essa técnica um passo adiante. Desativou a pele de pedra e começou a se infundir completamente com água refinada, de cima a baixo. Era uma visão interessante, no mínimo. Parecia que os outros estavam se divertindo bastante, cutucando o corpo dele em diferentes lugares e observando as ondulações viajarem. Até Arc tirou uma breve pausa no seu treinamento.
De qualquer forma, Eiro tentou fazer o que fez antes, dessa vez com muito mais intensidade do que antes. Criou uma bola condensada de chamas na frente da sua palma direita e assumiu a postura adequada. A infusão de água funcionou perfeita com sua mão de madeira, motivo pelo qual queria testar isso agora, afinal como sua mão de madeira poderia agir como um cajado ou varinha, poderia aumentar a potência ou quantidade de mana.
Então, com a palma direita puxada para trás e seu punho esquerdo para frente, Eiro começou. Ele puxou seu punho esquerdo, torceu a parte superior do seu corpo para a esquerda e deu um passo para frente com o pé direito, pressionando sua palma direita enquanto controlava a água que infundiu no seu corpo para aumentar a força das ondas.
O pequeno nódulo muito comprimido que foi criado foi disparado através das chamas em alta velocidade. Era tão rápido que os outros nem conseguiram rastrear, pois não esperavam tal velocidade, mas isso não era tudo: enquanto as ondulações continuavam percorrendo o corpo de Eiro, mais alguns nódulos de mana foram disparados, ainda que a velocidade e o poder de cada um diminuíam a cada vez. Era um pouco desapontador, mas não era um problema.
No fim, Eiro ainda conseguiu criar uma técnica que ele era capaz de usar, uma técnica que combinava artes marciais com a magia que talvez nunca tivesse sido vista antes.
Eiro ficou satisfeito, muito satisfeito, na verdade. Disparar uma bola de chamas não era tudo para o que essa técnica era útil. Ao mesmo tempo, deveria ser possível controlar seu próprio corpo de forma impossível se comparada a antes. No geral, seus movimentos agora eram estranhos. Era como se parte deles fosse atrasada se comparada a antes. Moveu sua mão para o lado e a água infundida no seu corpo fluiria nesta direção, fazendo com que sua mão se movesse ainda mais para lá. Era possível se mover de formas que talvez não fossem possíveis antes. Essa era uma chance que Eiro simples não podia desperdiçar.
— Ei, sua boneca maldita. Venha até aqui! — Eiro disse com um sorriso amplo enquanto caminhava até uma área vazia do jardim. A princípio, parecia que Jess ficou bastante irritada.
— Espera, ele não está me chamando de ‘boneca’, está? — Ela questionou com um sorriso irônico enquanto olhava para James e Krog, mas, alguns segundos depois, Arc a tranquilizou de que este não era o caso.
— Não. Ele está falando sobre uma boneca literal. Bem, tecnicamente é um fantoche, eu acho.
O trio de aventureiros olhou confuso para o que Arc disse, mas ficou ainda mais confuso quando viu, de repente, um fantoche de madeira com a mesma constituição física de Eiro, caminhando até o Diabrete.
— Espera… o quê? — James perguntou com um sorriso irônico e Eiro esticou a mão e retirou a ficha de ‘Furtividade’, deixando a de combate corpo a corpo.
— Meu parceiro de treino. Jura fez para mim antes morrer. Não sei como ele o construiu, mas parece se igualar aos meus atributos e até mesmo cresce junto comigo. Dessa forma, posso praticar diferentes técnicas com minha imagem espelhada. — Eiro explicou. Krog se aproximou e se inclinou para frente.
— Essa coisa deveria ser capaz de te enfrentar? Está brincando? — Ele questionou e esticou o dedo para cutucar o dedo do fantoche, mas todo seu corpo foi virado e arremessado alguns metros atrás do manequim. Claro, Krog não sofreu danos mas sentiu um pouco de dor, sem perder pontos de vida.
— Bem, sim. É o que me ensinou todas as minhas técnicas. Veja bem, tenho algumas fichas que consigo colocar no seu corpo, representando cada habilidade. Mestre de Combate Corpo-a-Corpo, Maestria com Adagas, Corrida Livre e Furtividade. São técnicas de pessoas que alcançaram o grau de mestre em suas respectivas técnicas.