A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 194

A Virtude do Demônio

Eiro não conseguiu conter seu sorriso. Esse foi um achado incrível e extraordinário. Com uma expressão satisfeita, o Demônio caminhou pela sala fazendo o modelo de gelo do círculo mágico, que as passagens secretas, salas e paredes pareciam criar, desaparecer.

— Então você acha que essas passagens são parte de um círculo mágico? — Nelli perguntou. — Não parece muito com um, parece? — A Náiade comentou.

Eiro não teve que pensar por muito tempo balançar a cabeça.

— Isso não é verdade. Pode parecer caótico a princípio, como tudo nesta mansão, mas há um estranho senso de ordem. Há padrões nisso, o tipo que reconheço em círculos mágicos. Acho que posso descobrir mais sobre isso aqui. — Eiro olhou para os vários livros, passando seus dedos pelo couro velho ou até mesmo escrituras antigas nas estantes ao redor.

Ele não tinha certeza se era o cheiro do papel ou a poeira que era inspirada por seu nariz e boca a cada respiração, mas sentia que estava envolvido pelos livros em si.

Se Eiro conseguisse ficar acordado durante sua próxima evolução, passaria a maior parte do tempo aqui, tentando ler todos esses livros.

Mas eles não foram tudo o que impressionou. Em particular, havia uma coisa que chamou sua atenção. Havia um monstro que, a princípio, parecia bastante discreto, mas, em vez disso, era perigoso e gentil ao mesmo tempo. Um ser especial. Um monstro que não era um monstro.

Há centenas de anos, eles surgiam depois que uma raça de monstros e uma raça de besta mágica acabaram no mesmo território, separados do mundo ao redor. Porque isso aconteceu era incerto, fosse um feitiço ou um desastre natural, mas de qualquer forma, depois que muitos de ambos os lados morreram, eles começaram a procriar um com o outro.

Como ambas as raças eram bastante férteis, as criaturas resultantes logo superaram seus pais em números, e enquanto esses pais morriam, as criaturas continuavam a viver. Contidas dentro deste pequeno território, acabaram se matando para diminuir seus números, alimentando-se dos seus irmãos para continuarem vivos, enquanto os demais eram cuidados com o máximo de compaixão que podiam oferecer.

Em algum ponto a área contida foi aberta. Era desconhecido até hoje se foi um feitiço ou um desastre natural, mas as criaturas conseguiram escapar. Elas se espalharam pelo continente e devido aos seus baixos números, logo foram reduzidas a números ainda menores.

O importante era que essas criaturas tinham os aspectos tanto de Bestas Mágicas quanto de Monstros. A cada cem níveis, não apenas evoluíam, como seu próprio ser era evoluído. Muitos poucos seres tinham evoluções tão abstratas ou extremas como eles tinham.

Os seres que eram quase indistinguíveis das pequenas, inocentes e raras bestas mágicas conhecidas como Dragão-Fada se transformaram em enormes, ameaçadores e gentis Dragões Mágicos.

E depois disso, seguindo essa evolução copiando dragões em que algumas dessas criaturas especiais se transformaram, veio outro passos. Elas encolheram, como se comprimissem todo o seu poder em uma nova forma.

Ainda tinham a forma de um dragão, mas agora mal tinham o tamanho de um cavalo comum. Em vez de escamas, seus corpos eram cobertos por pelos endurecidos. Pelo que Eiro escutou e conseguia dizer olhando para este ser, se você transformasse seus pelos em roupas, seria capaz de se proteger contra inúmeros golpes de espadas de vários indivíduos habilidosos, sem nem tentar.

Além disso, o pelo era dito ser um incrível conduto de magia, o que significava que poderia aumentar a força da sua magia e a velocidade com que a mana se recuperava.

Esse ser lendário que se dizia ter existido 5 vezes até esse estágio de evolução, a Grandeza, agora estava diante dele na forma de um corpo empalhado. Era muito lindo, honestamente, mas Eiro ainda ansiava pelos materiais dessa criatura. Eles dariam equipamentos defensivos incríveis.

Eiro passou seus dedos pelo cadáver da Grandeza, sentindo o ar frio penetrar em seus ossos. Com um sorriso animado e satisfeito, Eiro deu um passo para trás e olhou para o pequeno livro na frente do corpo empalhado.

Ele o abriu e logo encontrou, não as informações que já sabia de diferentes bestiários sobre os seres lendários ou místicos, mas também informações extras que nunca ouviu antes.

Desenhos detalhados das suas estruturas internas e externas em diferentes níveis, como músculos, ossos ou órgãos e tudo que tivesse importância. Mesmo coisas que não eram importantes, pelo menos não para Eiro. Havia algumas possíveis ideias do que causou a criação da Grandeza em primeiro lugar. Na verdade, o Choromante que costumava viver aqui pensava que não foi uma coincidência que gerou a Grandeza.

Ele acreditava que talvez algum tipo de ser superior interveio e brincou de Deus. Parecia que ele estava muito confiante nessa teoria. Eiro não tinha muitas informações além do que este livro dizia, mas não havia nenhuma razão para negar essa possibilidade. O próprio Eiro conhecia seres poderosos usando suas habilidades para experimentos, mesmo que fosse por diversão ou tédio.

Por ora, Eiro escolheu manter esse livro com ele. Era bastante interessante e se conseguisse descobrir boas maneiras de utilizar os materiais dessa Grandeza morta, seria um bom uso do seu tempo. Havia muitas outras cosias boas aqui. Cajados, varinhas, gemas, cristais, pedras mágicas, até mesmo grimórios, um buffet de itens que Eiro adoraria usar e estudar.

Mais importante, atrás de uma barreira extra da qual Eiro não tinha ideia de como atravessar no momento, o Demônio conseguia ver uma grande árvore. Ele não conseguiu encontrar nenhum tipo de descrição e sempre que tentava atravessar a barreira acabava do outro lado do espaço cilíndrico, como se qualquer coisa que estivesse contida ali fosse inexistente. Eiro queria muito descobrir que tipo de madeira era… e adoraria fazer algo com ela.

Porém, sabendo que não precisava se apressar, Eiro caminhou até a entrada dessa biblioteca escondida, subindo as escadas. Assim que voltou para a biblioteca comum, inseriu sua mana no mesmo livro que começou a breve ‘sequência de desbloqueio’ de antes e observou enquanto as estantes atrás dele subiam de novo, logo retornando ao mesmo lugar em que estavam antes, sem revelar o espaço atrás.

Mais uma vez muito animado por ver tudo isso acontecer, Eiro foi até a entrada da biblioteca, logo avistando os membros do seu grupo se aproximando. Ele olhou na direção deles e esperou.

— Sim? — Eiro perguntou quando eles estavam próximos o suficiente para escutarem e James cruzou os braços quando parou na frente do Diabrete.

— O que devemos fazer com as aranhas? Não podemos deixá-las naquele espaço aberto. É um pouco perigoso, certo?

— Claro que é, mas não iremos mantê-las lá. — O Demônio comentou. — Deve haver espaço em dos cômodos do porão.

— Cômodos do porão? Como a adega ou algo do tipo? Claro, quando aquele cara nos mostrou o local, havia espaço suficiente ali. — Krog comentou com um sorriso, pronto para se virar e começar, mas Eiro o impediu.

— Espere, espere, não é disso que estou falando. Na verdade, estou falando das masmorras. — Eiro explicou e Jess inclinou a cabeça par ao lado, confusa.

— Não sei do que você está falando, não há nenhuma masmorra nesta mansão, há? — Ela questionou.

Com um leve sorriso, Eiro deu de ombros.

— Claro, se é isso que pensa. Bem, não deve ser uma masmorra de fato. Duvido que fosse uma prisão, provavelmente era usada pelo mesmo motivo que nós a usaremos, como um lugar para manter os monstros, mas definitiva vimos algo como gaiolas, certo, vocês dois? — O Demônio perguntou enquanto olhava para os dois Espíritos, que acenaram com a cabeça.

— Hm… Tudo bem, acho que deve ser a hora de mostrar para vocês de qualquer maneira. Sei que não revelarão meus segredos, então está bem. — Com isso em mente, Eiro caminhou pelo corredor e empurrou seu pé contra um dos tijolos da parede. Ele foi pressionado e uma simples porta oculta se abriu, mostrando um conjunto de escadas atrás delas que levava direto para o porão.

— Sigam-me, vocês quatro. — Eiro disse com um sorriso, falando com as três pessoas e Gobo, que seguia em silêncio. Ele parecia um pouco intimidado por esse ambiente, algo que o Demônio não esperava dele. Eiro esperava que conseguisse treiná-lo para que ficasse confortável em quaisquer circunstâncias. Se ficasse desconfortável em lugares aos quais não estava acostumado, então a sua capacidade de combate seria prejudicada, como sua concentração em geral. E, dependendo da situação, especialmente essas que poderiam deixá-lo desconfortável, não era algo que Gobo pudesse permitir.

De qualquer forma, assim que chegaram ao fundo das escadas e caminharam até a adega de vinho, Eiro olhou para os barris grandes colocados ao redor. Eles eram grandes o suficiente para que o grupo conseguisse permanecer confortável. O Diabrete colocou sua palma em um dos barris e inseriu mana nele.

Enquanto dizia aos outros para ficarem quietos, Eiro moveu sua mão ao redor, girando a tampa do barril ao mesmo tempo.

Ele girou devagar, como se estivesse tentando abrir algum tipo de fechadura codificada em um cofre. Em algum ponto, as coisas que permitiam a Eiro identificar se estava certo quase desapareceram, dificultando para que Eiro soubesse o que fazer, então olhou para Gondos.

O Golem afundou no corpo dele, mostrando pela primeira vez sua forma demoníaca fundida para os membros do grupo. Agora, Eiro conseguia destrancar isso sem problemas, desde que era algum tipo de fechadura mágica.

Em diferentes posições, Eiro inseriu a quantidade certa de magia, conforme pensava na lógica da fechadura e prosseguiu. Com um sorriso, Eiro observou a tampa do barril girar por conta própria. Como se estivesse sendo parafusada em algum lugar, a tampa desapareceu dentro do barril, até que parou no local em que outra tampa deveria estar, mas em vez de parar, caiu para frente, em uma sala do outro lado.

Assim, o Demônio esticou sua mão na direção da sala além do barril.

— Aqui estamos, Senhoras e Senhores. As masmorras dessa mansão… — E Eiro não pôde deixar de rir com a expressão confusa de James, Jess Krog depois que se fundiu com Gondos.

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