
Volume 3 - Capítulo 193
A Virtude do Demônio
O homem que foi enviado para assegurar que Eiro e os outros chegassem à mansão sem preocupações saiu com os últimos limpadores e funcionários que estavam ali para garantir que tudo estivesse impecável. E agora Eiro final poderia começar a explorar tudo e encontrar um bom lugar para manter os monstros.
— Vocês três, tragam as aranhas aqui para dentro pelos fundos. Os informarei quando decidir onde deixá-las. — O Demônio disse enquanto olhava para Jess, James e Krog, que ainda estavam pensando na oferta que Eiro havia feito sobre se mudarem para a mansão.
— Gobo, ajude-os também. — Eiro adicionou enquanto olhava para o interior dessa sala para encontrar a entrada correta das passagens secretas, e os quatro em questão saíram para fazer o que Eiro pediu.
O Demônio usou magia de vento para espalhar rajadas de vento através dos corredores e cômodos, enquanto usava o efeito de retornar um ‘sinal’ sempre que o ar atingisse algo. Dessa forma, Eiro esperava descobrir onde estavam as entradas, por meio de coisas como fendas estreitas nas paredes. Claro, ele conseguiria encontrá-las quando parasse na frente delas, mas sabia sobre passagens ou salas secretas que necessitavam de ângulos específicos para serem encontrados, e Eiro não queria se incomodar tentando encontrar todos os segredos desta mansão dessa forma.
Logo, Eiro descobriu a entrada da primeira passagem. Parecia que esta tinha uma alta probabilidade de levar para um grande espaço subterrâneo, já que havia pelo menos um túnel subterrâneo conectado a ela. Bem, essa mansão também tinha um porão, então poderia levar para lá, mas Eiro queria ter certeza. Talvez poderia haver passagens secretas dentro de outras passagens secretas que ele não conseguira perceber assim.
Eiro não sabia o que era, mas havia muitas coisas dentro da mansão que estavam atrapalhando sua percepção. Provavelmente eram feitiços mágicos especiais feitos para isso. Isso não deveria ter muito efeito em Eiro devido à sua alta percepção, mas desde que começou a se fundir com Nelli e Gondos com mais frequência, também começou a desenvolver um leve sentido para coisas como mana e magia, no geral. Não era muito, agora conseguia diferenciar espaços que tinham muita mana e aqueles com pouca mana.
Também poderia fazer isso antes, só que agora sentia de forma diferente. De qualquer forma, por ora, o Diabrete parou na frente da passagem secreta que acabou de encontrar e tentou abri-la. Ela era simples, porque deveria ser. Na verdade, nenhuma dessas passagens secretas ‘normais’ era bem escondida, se comparada a alguns outros lugares que Eiro viu. Pelo menos, elas eram mais óbvias do que aquelas que havia na pousada que Felix os levou em Argberg.
O pior de tudo: este lugar era lotado com elas. Havia passagens secretas em quase todas as salas. Isso contribuiu para os rumores de que o antigo dono era um maluco completo.
Eiro empurrou a parede e ela cedeu, permitindo que entrasse em um túnel oculto.
— Isso o faz parecer um cara paranoico. — O Demônio murmurou. Os dois Espíritos flutuando ao seu lado pareciam concordar.
— Sim, você pode dizer isso de novo. Parece uma aberração, sinceramente. — Nelli comentou, embora Gondos só tenha rido baixinho.
— Você acha? Eu não diria ‘aberração’, mas sim excêntrico. Eu também não o chamaria de paranoico, senão ele nunca teria escolhido viver tão longe, teria? — O Golem comentou, o que Eiro concordou de imediato.
— Exato. Não faz sentido. Você pensaria que ele é paranoico por causa do número de passagens secretas, as quais podem significar que ele estava preparado para invasores a qualquer momento, mas ele escolheu viver em um lugar como este sem nenhum tipo de policiamento? Não faz nenhum sentido, então parece… estranho. — Eiro sugeriu enquanto descia os degraus dentro do túnel que o levou até um tipo de porão, como ele imaginava que faria. Apesar de que isso o fez se perguntar sobre algo.
— A forma como elas foram construídas também é bastante estranha. Nenhuma delas parece levar a um lugar mais seguro do que de onde vieram. Na verdade, não acho que vi alguma que leve para fora.
— Agora que você mencionou isso… — Nelli respondeu, enquanto Eiro continuava olhando para as passagens secretas. Dentro do porão destinado a ser uma adega, da biblioteca, dos quartos individuais e assim por diante. Assim como ele pensou, todos os cômodos tinham passagens secretas. Eiro não tinha certeza para que serviam, mas, pelo menos, elas tornariam mais conveniente se mover pelo lugar se precisasse se deslocar rápido.
De qualquer forma, depois que terminou de checar as passagens secretas regulares, Eiro escolheu procurar pelas verdadeiras. Aquelas que foram escondidas com o uso de magia em vez de meios físicos. Mesmo que tivesse tido tempo para entendê-las no começo, percebeu que algo estava estranho, mas não percebeu o que era até que Nelli e Gondos apontaram para ele. Apesar de que isso só aconteceu no primeiro caso. Depois disso, ele conseguiu descobrir sozinho onde ficavam esses lugares especiais, pelo menos em alguma extensão.
A primeira que Eiro queria explorar era a sala escondida atrás da biblioteca. Eiro retirou sua máscara e estendeu a mão para Gondos. Dos dois Espíritos, Gondos era melhor sentindo mana, enquanto Nelli era melhor usando magia, então, para esse tipo de tarefa, preferia se fundir com Gondos.
Olhou ao redor do cômodo, logo avistando o fluxo de mana. A biblioteca em si era bastante grande em primeiro lugar, tendo dois andares dentro deste cômodo, e bem no fundo do segundo andar estava a entrada para a verdadeira sala escondida. Eiro caminhou até a parede e colocou sua mão sobre um dos livros que era parte do sistema e inseriu sua mana nele.
Após alguns instantes, Eiro escutou o som de uma fechadura abrindo e algo se desintegrando atrás da estante de livros na sua frente. Engrenagens giraram quase instantaneamente e então pararam alguns segundos depois.
Com uma expressão satisfeita, Eiro se aproximou da estante de novo e retirou um dos livros, esticando a mão para o fundo da prateleira e inserindo sua mana em uma runa extra. Assim que colocou o livro de volta no lugar que estava, a estante se dividiu ao meio, cada metade afundando, como se o chão desaparecesse, mas pelo que Eiro conseguia dizer, as partes engolidas pelo chão desapareceram em vez de se estenderem para o primeiro andar da biblioteca.
De qualquer modo, agora Eiro conseguia ver a verdadeira sala escondida dentro deste lugar e o Demônio ficou mais do que impressionado. Os livros tinham todos pelo menos uma década e havia diferentes modelos de monstros ou construções feitas por pessoas por toda parte. Crânios, núcleos de seres artificiais, garras e globos oculares de monstros! Era mais parecido com um museu do que com uma biblioteca.
Além disso, esse espaço parecia muito maior do que era possível, embora Eiro devesse esperar isso. Logo atrás dessa estante de livros em que Eiro entrou, deveria haver outro quarto de convidado. A diferença não deveria ser mais do que dois ou três metros, mas esse cômodo era ainda maior do que a biblioteca original em que Eiro estava.
— Pela rainha… — Nelli murmurou. — O cara que vivia aqui deveria ser um Choromante muito, muito habilidoso! Isso é incrível! — A Náiade exclamou. khora (χώρα) que significa “lugar”, “espaço”, “local” e etc.
— Você acha que todas as salas ocultas são dessa forma? — Gondos perguntou e Eiro permaneceu em silêncio contemplativo por um tempo.
— Talvez… — Ele murmurou.
— Bom, se ele era um Choromante tão bom, então ele não precisaria das passagens ‘regulares’. Ele poderia teletransportar para fora ou para a cidade e ficaria bem. — Nelli ressaltou. Gondos adicionou.
— Se aquelas passagens fossem para exibição, então por que as fez parecer tão realistas? Como Eiro disse, não havia passagens levando para fora. — Gondos disse e Eiro começou a compreender o que estava acontecendo aqui, sorrindo.
— Entendi. — Eiro disse com o sorriso. — Claro que não há passagens levando para fora. Já viram algum círculo mágico com pontas soltas?
Demorou alguns segundos para eles perceberem o que Eiro estava falando, mas logo os Espíritos olharam um para o outro e para o Diabrete, ficando ainda mais confusos do que antes.
— Você não pode estar falando sério… — Gondos murmurou e Eiro assentiu.
Ele pegou seu caderno e caneta da sua tesouraria e colocou o primeiro sobre uma das escrivaninhas ao redor, esboçando tudo. Cada andar da mansão individual, como diziam as plantas que ele havia visto, adicionando as passagens ocultas em cada andar.
Ele desenhou tudo e, com um sorriso grande no rosto ao terminar, segurou o gerador de faíscas e criou uma chama. Uma chama que ergueu atrás das páginas finas do caderno em que esboçou a mansão.
E o que se revelou através das linhas finas representadas pelas passagens ocultas não era uma bagunça confusa como seria de se esperar. Não era aleatório, mas também não possuía o tipo de ordem que você esperaria.
Cada passagem secreta se conectava e formava a imagem que Eiro estava vendo agora. Elas criavam um círculo mágico gigantesco. E não visto de cima. Quando visto a construção de lado, de todos os ângulos, de qualquer lugar. Eiro recriou todas as passagens secretas com gelo para que conseguisse olhar e, no fim, não conseguiu fazer nada para que o sorriso grande e bobo no seu rosto desaparecesse.
Ele tirou a sorte grande nessa mansão.
Ele foi permitido viver na casa de um homem que poderia ter tido a habilidade Magia no grau Mestre.