A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 191

A Virtude do Demônio

Eiro olhou para a mulher ao seu lado, Evelyn James, a Feiticeira da Pedra de Sangue. Até agora, sempre que escutava qualquer pessoa ou grupo fazendo algo que influencia direta ou experimentos com as Cartas, sempre havia a mesma organização por trás. Eiro tinha certeza de que isso não era algum tipo de coincidência, Evelyn provavel era parte da mesma organização.

Mas, ainda como não tinha certeza de quão forte ela era, Eiro não poderia ‘desafiá-la’. Enka era incrivel forte, muito mais forte do que Eiro quando lutou contra ele, mas mesmo Enka só tinha uma réplica, uma carta ‘falsa’. Entretanto, a sensação emitida por Evelyn era inegável. Ela era a verdadeira portadora da carta.

Talvez seja apenas uma diplomacia interna, mas faria sentido que Evelyn fosse muito mais forte do que Enka. Eiro não era muito mais forte do que Enka era naquela época. Ele não queria arriscar.

— Viu algo do que gostou? — Evelyn perguntou, segurando o amuleto ao redor do seu pescoço, embora estivesse insinuando que Eiro estava olhando para algo um pouco abaixo disso.

Com um resmungo baixo, Eiro olhou para Solomon.

— Então, há outra razão para querer nos introduzir? — O Demônio questionou e o Rei assentiu com a cabeça.

— Sim, na verdade há. Veja, daqui a duas semanas, será o Solstício de Inverno. É um festival importante aqui. Como vocês dois são os magos elementais de gelo mais talentosos que conheço, pensei que seria uma boa ideia ter vocês dois como representantes quando a Filha do Inverno chegar no dia do Solstício.

— O quê? — Eiro perguntou, se aproximando da escrivaninha sem hesitação. — Uma Filha do Inverno está vindo aqui? — O Diabrete perguntou com um sorriso brilhante e animado sob sua máscara e Solomon assentiu.

— Sim, embora só ocorra durante o Solstício de Inverno. O primeiro Rei de Skyhart, meu ancestral, recebeu a bênção da Dama do Inverno. Portanto, contanto que nossa família esteja governando, seremos visitados por uma de suas filhas.

— É mesmo…? — Muito feliz que seria capaz de ver pelo menos uma Filha do Inverno a cada ano, Eiro deu um passo para trás e olhou para Evelyn.

— Você pode sair, se esse for o caso. Só precisamos de mim. — Ele disse, sentindo-se estranhamente animado ao escutar essa novidade. Solomon olhou para Eiro bastante confuso depois de escutar isso.

— Oh? Sei que fala bastante da sua força, mas não sabia que podia menosprezar os outros dessa forma. Srta. James vem de uma família com alguns dos maiores Criomantes da história. Seria possível revelar isso para Eiro? — O Rei perguntou e Evelyn riu.

— Acho que você já disse isso, sua Majestade. Tenho certeza de que Eiro já sabe quem eu sou depois dessa leve dica.

— Não sei. — Eiro respondeu. — Mas também não me importo. Há uma razão por que-

— Oh? Um pirralho plebeu como você acha que é melhor do que eu, é isso? — Evelyn questionou e Eiro olhou para ela com um olhar profundo sob sua máscara.

— O quê? Só não me importo com quem não tem utilidade para mim. De novo, há um motivo para eu dizer que só precisamos de mim.

No entanto, parecia que Evelyn não se importava e Eiro não conseguiu dizer se ela estava atuando ou se estava irritada de verdade, mas ela logo deu voz às suas reclamações.

— Vou te avisar que faço parte da família Frosthearth. A futura chefe da família, inclusive.

Ao escutar esse nome, Eiro olhou para ela com bastante curiosidade. Esse nome soava bastante… familiar.

— Frosthearth? Você tem alguma relação com a família Stineheart?

— Claro que temos. Ambas as famílias Frosthearth e Stinehearth são aquelas que se separaram da família heroica Eldhearth. Aquela que o maior herói de todos, o primeiro grande herói, Eiro, liderou. Eiro Edwim Eldhearth. — Evelyn explicou e Eiro assentiu devagar.

— Interessante. E na família Eldhearth, também havia alguém chamada de Evelyn? Ou alguém com um nome ou pronúncia similar? — O demônio perguntou. Isso era muita coincidência para não ter relação.

Solomon respondeu essa.

— Sim, era a filha do Herói Eiro, Evelyn Eid Eldwin. Ela era uma maga impressionante com seus feitos mesmo após a morte do seu pai. É bastante… incomum ver alguém chamado de Eiro, mas muitos chefes das famílias Hearth tendem a nomear suas filhas como ‘Evelyn’ ou, similar, ‘Avalin’ para insinuar sua própria grandeza. — O Rei explicou, embora estivesse um pouco confuso. — Você nomeou sua filha de Avalin sem saber disso? Parece uma coincidência estranha.

— Algo do tipo. Eu a nomeei em homenagem a uma mulher a quem eu devia muito. Queria que ela vivesse um pouco. Bem, de qualquer forma, obrigada por essa pequena lição de história, mas ainda não precisamos de você, mesmo que seja parte da família Frosthearth. Não sei por que sai por aí chamando a si mesmo de ‘James’ se é parte de uma casa nobre. Não que eu me importe, mas ainda é estranho. De qualquer forma, não precisamos dela, porque-

— Eiro. — Solomon disse, sem estar no clima para continuar discutindo isso. — Eu disse que quero que vocês dois atuem como representantes. Pelo que eu saiba, vocês dois podem ser os mais próximos a receber a bênção da Dama do Inverno desta geração. Se você continuar dizendo que não precisamos de Evelyn, então será você aquele a ser deixado de fora durante o Solstício. — O Rei disse com um tom claro. Eiro suspirou e respondeu de uma forma que nem Solomon nem Evelyn esperavam.

— É por isso que estou dizendo que não precisamos dela, pois eu já recebi a bênção da Dama do Inverno há muito tempo. — O Demônio explicou. Solomon permaneceu em silêncio por um tempo e então olhou confuso para ele.

— O q-O quê? Mas como?

— A cidade em que eu costumava morar era o lugar onde as quatro Damas visitavam durante cada Solstício e Equinócio. Meu professor e eu éramos os guias delas. A Dama do Inverno gostou de mim e me deu sua bênção. — Eiro explicou. — Eu adoraria falar com a Filha do Inverno, mas não quero que alguém que não sabe o que está fazendo comigo. — Eiro explicou, olhando para Evelyn enquanto fazia isso.

— Alguém como você tem a bênção de uma Deusa da Natureza…? Você está se tornando cada vez mais interessante, Diabrete… — Evelyn sussurrou, muito baixo para Solomon escutar, mas Eiro ainda a entendeu. Ele olhou para ela e tentou suprimir sua fúria enquanto fazia isso, ao mesmo tempo que seus batimentos aceleravam cada vez mais, mas por alguma razão, Evelyn também pareceu ficar confusa enquanto olhava para Eiro.

— Ah, entendo. Sua pedra de sangue te permite sentir o fluxo sanguíneo de outro ser, é isso? Então, que tal isso? — Eiro perguntou com um leve sorriso, enquanto se virava na direção de Evelyn. Ele influenciou seu fluxo sanguíneo para se reunir no seu peito um pouco mais que o normal e o fez se reunir em ‘linhas’ de forma não natural para desenhar a imagem de um dedo médio usando seu próprio sangue.

— Seu… — Evelyn rosnou sob sua respiração, enquanto Eiro continuava sorrindo.

‘Isso é divertido’, ele pensou. Eiro olhou de volta para Solomon, que ainda tentava processar o que o Diabrete disse.

E como Eiro ainda estava um pouco irritado e só queria se livrar de Evelyn o mais rápido possível, o Demônio continuou.

— Bem, não precisa acreditar em mim ainda. Nós dois podemos estar lá para cumprimentar a Filha do Inverno, mas se ela confirmar que possuo a bênção, então Evelyn terá que sair para que eu possa conversar em privado com ela.

— Espere… — Solomon murmurou. — Uma conversa privada? O que você quer dizer?

— Hm? Como… perguntar para ela como a Dama do Inverno está, por exemplo. Também há algumas coisas que preciso pedir para a Filha do Inverno informar à Dama do Inverno, então falar com ela em particular seria muito importante. Onde ela aparece cada vez? E quem a guia?

— Em… guia? Por que ela precisaria de um guia? — Solomon questionou e Eiro olhou confuso para ele.

— Bons modos?

— Sério? O cara que está falando com sua Majestade Real como se fosse uma criança está falando de boas maneiras? — Evelyn zombou e Eiro mostrou o dedo do meio de novo, só que dessa vez não com seu sangue, mas levantando sua mão direta para ela.

— Ótimo, cuidarei disso. Só precisa saber onde ela aparece. — Eiro explicou e Solomon não precisou pensar muito.

— Bem, ela aparece na floresta ao norte, mas precisamos ser cuidadosos, haverá muitas pessoas colhendo as ervas e flores especiais que aparecem durante o Solstício.

— Ah, bom, pelo menos vocês estão dando as oferendas para ela. — Eiro suspirou aliviado, embora logo tenha percebido que Solomon permaneceu em silêncio. — Espera, vocês não estão dando as oferendas para ela!? — O Demônio questionou e Solomon balançou a cabeça.

— Nunca fizemos isso… como deveríamos saber disso? A Filha do Inverno nunca fala. Ela entra na cidade, fica na praça por uma hora e então desaparece de novo. É uma visão muito linda, mas… ela estava esperando as oferendas?

— Claro que estava… não posso acreditar, nossa. Podem se considerar sortudos que a Filha do Inverno que os visita parece ser uma boa criança, senão toda essa cidade já teria sido enterrada em gelo e neve. — Eiro suspirou. — Certo, primeiro, impeça que qualquer um colete as ervas e flores especiais e permita que apenas algumas pessoas as reúnam, para oferecê-las à Filha como uma oferenda. Eu ajudarei, não se preocupe. E nunca toquem em nada que cresce diretamente ao redor da Filha enquanto ela caminha, nunca. Tipo, nunca. É mais do que desrespeitoso. — Eiro explicou e tentou seu melhor para não mencionar que fez exatamente isso e ainda recebeu a bênção da Dama. — Estarei lá para cumprimentar a Filha. Se possível, você deveria vir comigo, Solomon, mas sozinho, sem nenhum guarda à vista. Se eu sentir sequer uma pessoa lá, você terá que sair.

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