A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 188

A Virtude do Demônio

Eiro conseguiu alcançar os outros, afinal estavam em uma estrada direta que levava à próxima muralha para que pudessem entrar na área urbana da cidade. Chegar lá demoraria cerca de uma hora a pé, embora parecesse que o grupo conseguiria em meia hora. Claro, tinham uma carruagem, mesmo assim a maioria estava viajando a pé.

— O que você fez lá atrás? — James perguntou com uma carranca quando viu o Demônio correr ao lado deles. Eiro virou a cabeça e sorriu sob sua máscara.

— Nada especial, só os reeduquei um pouco. Não se preocupe, não os feri mais do que aquilo que viu.

— Certo… — O Elfo da Luz respondeu e Eiro olhou para frente de novo. Não era como se ele se importasse com a opinião de James quando se tratava de assuntos como esse, então ignorou o descontentamento óbvio que o elfo teve dificuldade em suprimir na sua voz.

Após um tempo, o grupo chegou ao próximo portão. Não houve muitos problemas aqui e dessa vez Eiro teve a chance de mostrar o broche de Solomon antes dos guardas dizerem qualquer insulto, então passaram sem problemas.

As aranhas estavam sendo um pouco chatas, mas como Eiro escolheu ruas específicas com poucas pessoas, estava bem. Gobo também estava um pouco incomodado. Ele estava nervoso, como se estivesse tenso. Podia ser que estivesse assustado com tantas pessoas, ou poderia ser o efeito do repelente de monstros dentro das muralhas e do castelo em si, mas de qualquer forma o Hobgoblin conseguiu se comportar. Apesar disso, Eiro ainda manteve atenção extra nele o tempo todo.

Logo, o grupo chegou à Guilda dos aventureiros. Eles retiraram alguns dos materiais para entregar, atraindo alguns olhares surpresos das outras pessoas devido à grande quantidade de materiais. Colocaram a carroça num lugar onde não incomodaria ninguém e onde seria difícil de espiar, mas isso não significava que ninguém os viu.

— Vocês dois. É melhor esperarem aqui na carruagem, quem sabe o que pode acontecer? — James comentou. Eles entraram na Guilda, carregando grandes mochilas e redes cheias de materiais das aranhas. Na verdade, as vivas eram preciosas demais para serem entregues em um pedido.

Não estava muito movimentado no momento e os dois chegaram ao balcão bem rápido. Para a agradável surpresa de Eiro, o recepcionista era o mesmo com quem conversou da primeira vez. Parecia que eles queriam garantir que as pessoas sempre tivessem o mesmo recepcionista para entregarem seus casos, facilitando a organização.

— Como posso ajudá-lo hoje? — O recepcionista perguntou com um sorriso e, sem hesitação, James e Eiro colocaram as mochilas no balcão.

— Gostaria de entregar esses materiais. — O Diabrete explicou. O recepcionista assentiu e abriu as mochilas. Ele retirou uma perna de um Perseguidor Noturno e olhou de volta para Eiro.

— Vocês caçaram isso juntos? — Ele perguntou e Eiro balançou a cabeça.

— Não. Esses materiais vieram de monstros que eu cacei sozinho. — Eiro disse. Isso podia ser um pouco irritante de se fazer, além de muito egoísta, mas essa era a melhor forma de fazer isso por enquanto. Eiro ainda era um aventureiro de rank D, então todos deixaram que ele entregasse todos os materiais para que conseguisse alcançar um Rank maior para fazer o exame de promoção para o rank C. Parecia que não demoraria muito, desde que era um teste de força, então faria isso, se juntaria ao grupo de James, Jess e Krog e então entregariam o resto dos materiais. No entanto, nem todos.

— Entendo… então, por favor, me deixe processar esses materiais. — O recepcionista disse e pegou os itens um por um. Alguns outros vieram ajudá-lo a tentar descobrir a qualidade dos materiais e de onde vieram e logo o recepcionista retornou com um pequeno sorriso.

— Tenho bastante certeza de que você já está ciente disso, mas isso é mais do que suficiente para comprovar sua validade como aventureiro de rank D. Se desejar, pode fazer o exame de promoção enquanto preparamos a recompensa monetária? — O recepcionista sugeriu, mal conseguindo disfarçar sua dúvida. — Só preciso informá-lo de que, se faltar no exame de promoção, terá que esperar um mês para tentar de novo. E no pior caso, se for provado que não possuir a força para trazer esses materiais com você, então talvez sofra uma penalidade, o que pode incluir rebaixamento de rank.

— Certo. — Eiro respondeu com um tom bastante entediado enquanto olhava para James. — Então, você espera aqui e guarda o resto dos materiais. E pode pegar o dinheiro no caso de ficar pronto antes que eu volte.

— Claro, mas se apresse, preciso tirar um cochilo. — James respondeu enquanto caminhava para o lado e se sentava em uma cadeira logo ao lado do balcão. Eiro seguiu o recepcionista da Guilda.

Ele levou Eiro para o fundo do prédio, para um espaço aberto. Estava bastante frio ali, desde que o sol não alcançava, mas ainda era claro devido ao amplo espaço aberto no teto dessa área.

— Como o primeiro passo para o seu exame de promoção, precisamos reunir algumas informações sobre você e suas habilidades. Não se preocupe, estamos cientes de que habilidades são as maiores armas de uma pessoa, portanto não usaremos ferramentas de avaliação. Só precisamos que nos informe sobre quaisquer técnicas e habilidades que usará durante o combate, que serão testadas hoje. Caso use qualquer habilidade que não informe, ou sentirmos algum tipo de engano na descrição que nos dar, isso levará à sua desqualificação no exame e será impedido de tentar avançar por um mês. Entendeu? — O recepcionista perguntou e Eiro assentiu.

— Uhum, entendi. No combate, usarei principalmente combate corpo a corpo e maestria com adaga, com a qual empunho uma ou duas adagas dependendo da situação. — Eiro começou e o recepcionista assentiu e anotou.

— Um tipo ladino, entendo… Espere, você não tinha dois espíritos te acompanhando?

— Sim, ainda não terminei. — Eiro respondeu com um leve resmungo. — Quando se trata de magia, consigo usar conjuração física ou conjuração baseada em círculo mágico. Não gosto muito de cânticos, mas posso usá-los algumas vezes. Os elementos que uso são Ar, Fogo, Terra, Água e Gelo. E, como você mencionou, também tenho Magia Espiritual. — O demônio explicou e o recepcionista anotou tudo isso, embora estivesse mais do que desconfiado.

— Então, isso será dividido em duas partes. É difícil demonstrar combate físico sem um parceiro, então você lutará contra um dos nossos funcionários usando combate corpo a corpo e maestria com adagas, por favor. Para Magia, pedirei que tente copiar os feitiços que mostrarei para você em um nível similar ou maior. Se não conhecer o feitiço, um parecido com a mesma força será suficiente. Infelizmente não temos um mago de gelo conosco, mas esperamos que compreenda que o nível de força mágica que gostaríamos de ver é depois das quatro primeiras tentativas. — O recepcionista explicou.

Eiro acenou com a cabeça. Isso não deveria ser tão difícil e acabaria bem rápido.

— Certo, como começamos? — Eiro perguntou e o recepcionista desviou sua atenção da folha de papel em que estava anotando algumas coisas.

— Tem certeza de que deseja prosseguir? Não deseja fazer alguma alteração na sua declaração?

— Não. Por favor, vamos começar. — O Diabrete disse e, com um suspiro profundo, o recepcionista assentiu e esfregou a ponte do seu nariz. Ele acenou com a mão para uma das pessoas paradas ao lado da área de treinamento. Aparentemente o ladino que enfrentaria Eiro.

— Promoção do rank C, entendo? — O ladino perguntou com um sorriso divertido. — Retire essa máscara e veremos o que você pode fazer, cara. — Ele riu, mas Eiro balançou a cabeça sem hesitar.

— Desculpa, não retirarei minha máscara. Isso não deve ser um problema, não sou restringido por ela.

— Como consegue dizer isso? — Com uma zombaria, o ladino cruzou os braços. — Ela nem tem buracos para os seus olhos. O quê, você é cego?

— Podemos parar com isso? Em um minuto você perceberá que essa conversa fiada não tem efeito em mim. Agora, assuma sua postura, quero acabar com isso. Minhas crianças estão me esperando em casa. — O demônio disse com um tom irritado e o ladino riu enquanto assumia sua postura.

Havia algo peculiar sobre sua postura. Ela era muito parecida com a de Eiro. Era muito semelhante para ser uma coincidência, mas ainda havia falhas óbvias nela. Isso seria mais interessante do que Eiro pensava.

Mas assim que assumiu sua própria postura com uma adaga em sua mão e a outra colocada sobre suas próprias costas, o recepcionista interveio.

— Senhor Eiro, por favor, não imite nós-

— Cale a boca, pirralho! — O ladino gritou, fazendo o recepcionista estremecer em resposta. — Como eu pensei, você é interessante para caralho. Esse nome, o broche real e agora essa postura! Quem diabos é você, hein? — O ladino questionou com um sorriso louco na face e Eiro o encarou de volta.

— Eu te conto se conseguir me derrotar. Em troca, assim que eu te derrotar, quero que me conte como você conhece esse estilo.

— Sim, sim, combinando. — O ladino disse e, sem hesitação depois que a partida começou, avançou na direção de Eiro. O Demônio ficou um pouco incomodado, desde que ele estava mostrando cada vez mais erros na imitação do estilo do mestre. Na verdade, Eiro ficou um pouco irritado com isso. Sem nem mesmo terem se passado 20 segundos do começo da luta, Eiro jogou o ladino no chão e o agarrou, combinando sua maestria com adagas com o agarrão do seu estilo de combate corpo a corpo, envolvendo a parte superior do ladino com todos os seus membros e pressionou a ponta da sua adaga contra a parte de baixo do queixo dele.

E, com um suspiro profundo, começou a pensar no que deveria fazer para acalmar esse cara, cujo corpo todo estava começando a ser dominado pela fúria e frustração.

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