
Volume 3 - Capítulo 186
A Virtude do Demônio
— Você fez isso pelas crianças? Por crianças humanas? — James perguntou, incerto de como deveria reagir depois de escutar isso. — Bem, pelo menos você conseguiu tirá-las de lá ilesas.
— Não diria ilesas. Avalin e Leon eram muito novos para se lembrar de alguma coisa, mas quanto aos outros… Certifiquei-me de que ficassem longe daquelas situações, mas muito aconteceu com minhas crianças mais velhas. Clementine tem uma habilidade de cura especial que a permite assumir os ferimentos dos outros em si. O Senha da Gula usou isso para continuar comendo até que seu corpo fosse dilacerado e então fez Clementine assumir seus ferimentos. — Eiro explicou, enquanto James continuava escutando com a mão no rosto, escondendo-o.
— Bem, consegui pegar Sammy antes que acontecesse, mas ela não estava se saindo muito bem. Ela estava com o Senhor do Orgulho e acho que algumas vezes a lembro dele. Então, temos Rudy. Ele estava com o Senhor da Inveja, que o arremessava continuamente da torre. De novo e de novo. Rudy não consegue sofrer danos por meios normais, então teve que vivenciar isso repetidas vezes. Ele ainda tem medo de altura. E tem o Arc… Ele… Ele estava com o Senhor da Luxúria. Tenho certeza de que você sabe o que aconteceu.
— E… — James murmurou lentamente. — O que isso tem a ver com você falar que é um Demônio da Ira…?
— Ah, certo, desculpa. Quando saí para encontrar as crianças, acabei sendo levado até o Senhor da Ira. Ele odiava tudo e todos e, portanto, tentou me matar de imediato. Mais tarde, fiz com que o Senhor do Orgulho e o Senhor da Ira lutassem entre si. Muito aconteceu, mas, de qualquer forma, a cidade ficou em ruínas e a maioria dos senhores morreu. Como uma cidade usada por <O Diabo>, estava sendo vigiada por ele. Então, aconteceu toda aquela situação com Rumia do Império Sagrado, onde eu o matei e seu grupo e como fiz isso enquanto estava muito irritado, <O Diabo> me encontrou e me deu a ‘Marca do Diabo’. Um tempo depois que me encontrei com Enka, minha ira ferveu e produziu a ‘Marca da Ira’. — O Demônio explicou. — Desde então, me irrito com mais facilidade. Na verdade, fiquei com tanta ira que acabei massacrando metade dos cidadãos daquela vila na minha sede de sangue, sem controle do meu corpo.
Por alguns instantes, tudo ficou em silêncio. Tudo o que Eiro conseguia escutar era a respiração suave de Leon e Avalin deitados um ao lado do outro na cama, os Goblins fazendo bagunça do outro lado da vila e Lugo brincando com algumas pedras mágicas aleatórias no lado de fora. E, claro, os batimentos e respiração de James. O Elfo da Luz começou a falar.
— De repente, me sinto ridículo. — Ele comentou. — Comparado ao que você e essas crianças passaram, minha vida parece brincadeira de criança… bem, brincadeiras de crianças normais, eu acho, não das suas. Nunca conheci meu pai. Minha mãe era uma boa pessoa, mas nunca fui tão próximo a ela. Quando fiz 15, tomei a decisão de me tornar um aventureiro. Treinei sob a tutela de um antigo rank B, que me introduziu a Thomas e Avalin. Eu tinha bons contatos e não tive que lutar.
— James. — Eiro interrompeu, enquanto se levantava do chão. — Pare de mentir. — O Diabrete disse com um olhar profundo. — Não sei por que você faria isso, mas posso sentir que o que acabou de falar não é verdade. Pelo menos não toda a verdade.
Por conta do nervosismo, percebeu que os batimentos de James aceleraram e ele começou a rir baixinho.
— Você é bastante irritante às vezes, sabia? — James perguntou. — Ótimo. Então, irei te contar toda a verdade. Minha mãe era uma Elfa Negra. Incapaz de usar magia, rejeitada pelos elfos comuns e um tanto maligna por natureza normalmente, pelo menos. Minha mão era bastante ingênua, por isso, em algum ponto, como ela não parecia ter muito valor, foi vendida como escrava e passada de um lado para o outro. Na verdade, tive alguns irmãos, três que consigo reconhecer pelo menos. Um Humano Sombrio, uma Fera Sombria e um Devilkin. Filhos de um humano, homem-besta e um demonkin, respectivamente. Depois que ela deu à luz a mim, nós cinco fomos vendidos de novo, desta vez para um laboratório. Eu saí impune porque era mais jovem, mas meus irmãos mais velhos sofreram experimentos. Minha mãe se tornou uma máquina de procriação. Então, tive inúmeros irmãos meio-monstros. Nós conseguimos escapar, mas minha mãe nunca mais falou depois disso e meus irmãos meio-monstros se tornaram seres horríveis que desejam destruição em massa. Era isso que você queria ouvir? — O Elfo da Luz olhou para Eiro, que o encarou com uma expressão vazia.
— Eu não sei. — Ele respondeu enquanto James ria e se inclinava de volta contra a parede.
— De qualquer forma, não é como se algo tivesse acontecido comigo. Não me recordo disso, escutei histórias apenas. Fui ensinado a sempre odiar os monstros por causa disso. Na verdade, tudo o que disse era verdade. — James comentou e Eiro assentiu.
— Entendo o que você-
Mas, de repente, Eiro foi interrompido quando escutou o som de algo quebrando e de trituração do lado e fora. Ele se virou e saiu da caverna. — Lugo, o que diabos você está fazendo? — O Diabrete questionou enquanto corria até o cervo, que atualmente estava mastigando uma das pedras mágicas da natureza que Eiro havia preparado para mais tarde. — Cuspa isso. — Eiro exclamou e levou sua mão até a boca de Lugo. — Cuspa isso agora, seu gordo idiota.
Mas não importa o que Eiro dissesse, ele continuou mastigando, então o Demônio enfiou sua mão na boca de Lugo e a abriu o mais rápido que pôde. Não foi muito difícil com sua força.
Eiro retirou os resquícios da pedra mágica da boca do Cervo, embora mal tivesse um terço do seu tamanho anterior.
— Você deve estar brincando comigo, Lugo, seu idiota! — Eiro gritou. — Vomite agora, isso não é bom para você!
Eiro começou a colocar a mão ao redor da garganta de Lugo em locais específicos para fazê-lo vomitar, mas Lugo balançou a cabeça e tentou escapar de Eiro. Com um berro alto, ele afastou o demônio usando sua galhada.
— O que há de errado com você? Você quer morrer? — Eiro questionou, mas Lugo balançou a cabeça sem hesitação, e assim que estava para abrir a boca de Lugo mais uma vez e enfiar sua mão para retirar a pedra mágica do corpo dele, Nelli e Gondos o impediram.
— Espere, Eiro! Ela… ela sumiu! — Nelli exclamou enquanto flutuava até a lateral de Lugo, colocando sua palma no estômago dele, enquanto Eiro olhava para ela com uma cara de raiva.
— O que você quer dizer com ‘ela sumiu’?
— Exatamente o que eu disse, as partes da pedra mágica que Lugo engoliu sumiram. Simplesmente… se dissolveram. — A Náiade ressaltou e Eito encarou seu familiar com uma carranca. — Na verdade… a reação de cortar ou esmagar uma pedra mágica sem um método especial deveria ter explodido a cabeça dele…
Eiro olhou para Lugo com o cenho franzido e então abriu a página de status do Cervo. Até agora, ela continuava igual à última vez que a viu, com exceção de um único detalhe: quando olhou para a experiência de Lugo dentro do seu nível atual. Ele ainda estava no nível, mas sua experiência subiu de 0% para 43%.
Com um grande sorriso, Eiro olhou para Lugo e o segurou pelas laterais do rosto.
— Lugo! — Eiro exclamou e pegou algumas pedras mágicas da natureza do chão. — Coma essas aqui também! Rápido!
Bastante animado, Eiro levou a pedra mágica até Lugo. O Cervo ainda estava um pouco hesitante, até que o Diabrete pressionou a pedra na sua boca e ele começou a mastigá-la, movendo a mandíbula de Lugo para cima e para baixo.
— Espere, o que você está fazendo? Acabou de ficar bravo com ele, então por que está o alimentando com pedras mágicas? — Jess questionou com uma carranca enquanto olhava para Eiro, pensando que ele havia enlouquecido, mas o Demônio sorriu.
— Lugo é um ser especial. Ele não é um animal, ele possui níveis. Ele não é um monstro, já que isso significaria que subiria de nível ao matar criaturas, e não é uma besta mágica, desde que isso significa que subiria de nível ao usar sua mana. Ele não progrediu fazendo nada disso, mas agora… — O Diabrete comentou e observou enquanto o status de Lugo era atualizado. Os números atualizaram e se transformaram em luz, enquanto os atributos de Lugo aumentavam e subiam para o nível 2.
— Mas agora, ele subiu de nível comendo pedras mágicas! — Eiro exclamou, enquanto encarava seu familiar com entusiasmo. Pelo menos agora sabia que Lugo poderia subir de nível e se fortalecer ao seu lado.
— Ele sobe de nível com pedras mágicas? Isso não é meio… insano? — Krog questionou com uma expressão confusa. Eiro olhou para ele com um sorriso imenso e assentiu.
— Sim, é sim. É mais do que insano, é algo que um maníaco inventaria, mas é assim que é. Lugo, isso pode ser caro, mas agora temos um uso muito bom para as outras pedras mágicas. Uma fonte de combustível para você subir de nível! — Eiro exclamou animado, embora Lugo só tenha inclinado a cabeça para o lado.
Eiro tentou pensar em quais pedras mágicas poderia poupar, apesar de que, logo sua excitação diminuiu, pois percebeu que isso teria outros efeitos. Não havia como Lugo não absorver os elementos das pedras mágicas depois de comê-las, então talvez devesse pensar no que daria a Lugo.
Eiro poderia tentar descobrir as afinidades de Lugo e alimentá-lo com pedras mágicas dessas afinidades correspondentes. Isso também poderia ajudá-lo a subir de nível mais rápido.
De qualquer forma, agora Eiro sabia que não estava imaginando coisas naquela época. Lugo era um ser único.