A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 185

A Virtude do Demônio

Com todas as partes da rainha aranha, assim como os inúmeros ovos que havia reunido dentro da rede feita de teias cedidas juntas, Eiro saiu das cavernas, mas dessa vez não saiu pelos mesmos túneis de onde veio.

Em vez disso, escalou alguns que o levavam ao centro desta área infestada de aranhas, a grande árvore oca que estava conectada direta à grande caverna abaixo. Ainda havia algumas aranhas aqui, então ele se livrou delas com algumas chamas, colocando a rede cheia de materiais preciosos no chão. Porque ainda havia mais uma coisa aqui que seria muito útil para ele.

Eiro escalou o interior dessa árvore oca até que alcançou o topo, o que não demorou muito tempo, então escalou por um dos galhos. Elas não estavam no melhor estado, mas ainda havia algumas sementes restantes presas a eles. Ele tinha que limpá-las e dar mais uma olhada, mas sentia que essas sementes eram perfeitas para fazer árvores com o sangue das aranhas que havia coletado em grande quantidade.

Mesmo agora, estava fazendo o sangue da rainha aranha flutuar atrás dele. De qualquer forma, ao coletar algumas sementes Eiro as armazenou em sua bolsa, onde ainda havia algum espaço sobrando e desceu.

— Certo, vamos lá. — O Demônio disse enquanto olhava para o Golem flutuando ao seu lado, que assentiu com a cabeça. Eiro tentou o seu melhor para correr com todas as coisas que carregava, apesar de ser algo um pouco complicado de se fazer, especialmente por chamar a atenção de quaisquer aranhas ainda presentes na área.

Mas elas não eram inimigas dignas de se mencionar e Eiro nem prestou atenção nelas. Sem sua rainha, elas eram desorganizadas e ainda mais idiotas do que antes.

Não demorou muito para que Eiro alcançasse os outros e teve que viver com o fato de que todos o encaravam muito confusos e queriam saber como Eiro conseguiu matar e dissecar algo que era tão grande e bastante forte.

Por ora, Eiro não se importou. Só queria ser capaz de deixar todas essas coisas em algum lugar. Assim, fez uma grande banheira de gelo e manteve tudo refrigerado para que não apodrecessem ou perdessem qualidade com o tempo. Felizmente Nelli e Gondos refinaram um pouco o sangue da rainha e o tornaram mais fácil de controlar, então isso não era um grande problema.

De qualquer forma, o grupo voltou até a vila Goblin antes do pôr do sol. Eiro guardou tudo dentro de banheiras de gelo como queria e prendeu as aranhas em partes da mina onde não teria que se preocupar com elas escapando de alguma forma.

Depois de pôr Leon e Avalin na cama, já que ambos estavam bem cansados, saiu e se certificou de que os Hobgoblins estavam em um bom ponto. Eiro manteria os selos neles por mais um tempo, para que a monstruosidade deles enfraquecesse ainda mais durante o tempo que ficasse selada. Desse modo, seria mais fácil fazê-los praticar como ele queria.

O Demônio tentou se esforçar para enraizar tudo o que conseguisse na cabeça dura deles então voltou para a caverna para dormir.

Eiro estava sentado ali com o orbe de metal em suas mãos e o limpou, tentando se livrar do sangue seco que o cobria. Ele passou sua mão pelos entalhes, mas não conseguiu perceber nada que parecesse fornecer alguma dica.

— Você tem uma ideia de qual naipe é, pelo menos? — Nelli perguntou, apesar de estar dentro do espaço intermediário entre o plano espiritual e o mortal, onde Eiro e Gondos poderiam vê-la e escutá-la. Ele não queria que os outros descobrissem o que era isso até que tivessem certeza.

Com uma leve carranca, Eiro sussurrou, apesar de não estar falando de fato. Era um feitiço espiritual, o tipo que sempre usava para se comunicar com seus espíritos a longas distâncias. Assim, enquanto ele sussurrava, sua fala comum se tornou muito distorcida para ser escutada ou compreendida, enquanto poderia responder a Nelli e Gondos de forma que ambos entendiam.

— Acho que podemos excluir o Naipe de Espadas. Se esse fosse algum tipo de experimento daquela organização, eles tentariam maximizar os efeitos, então teriam mudado o corpo em si. Ela não aprecia ter nenhuma habilidade extraordinária, a rainha era só um pouco… desfigurada. Então, também não é do Naipe de Ouro… — Eiro murmurou.

Ele queria compreender com precisão o que o orbe era, mas não queria ativá-lo. pois poderia ter um efeito muito perigoso quando usado fora de condições específicas. Pelo que Eiro sabia, poderia muito bem ser o Oito de Copas. O veneno absoluto que poderia reinar próspero em uma terra desolada se não tomasse cuidado. Ou ainda pior, o Cinco de Paus, artefato capaz de criar um espaço no qual tudo desapareceria, sem deixar rastros de onde pode ter ido parar.

Se fosse qualquer um desses e Eiro o ativasse, então morreria em um instante. A rainha aranha foi alvo de experimentos, já que seu corpo não era nada natural, então essa bola de metal dentro do seu coração podia ser algo para assegurar que ela não perdesse o controle. Ou melhor, que as pessoas que realizaram o experimento pudessem se livrar dela se ela enlouquecesse.

Eiro tinha que ter cuidado e fazer algumas pesquisas. Talvez pudesse conseguir algum tipo de pista sobre em qual carta aquilo se baseava, se conseguisse entender os entalhes na parte externa.

Parecia que eram rúnicas por natureza, mas, pelo menos, não eram runas pertencentes à linguagem antiga. O irritava muito não conseguir saber o que esses símbolos poderiam significar, apesar de que fosse óbvio que tivessem algum tipo de significado. Ele ficou um pouco melhor ao saber que Nelli também não sabia nada sobre eles.

Mas, de repente, James perguntou algo que Eiro não percebeu antes.

— Hm, isso também foi feito pela pessoa que morava aqui? — Ele perguntou enquanto entrava na caverna depois de se limpar. Parecia que ele estava tentando conversar um pouco, mas Eiro ainda estava curioso.

— O que te faz pensar isso? — Ele questionou e James levantou as sobrancelhas.

— Assim, os entalhes são do mesmo tipo, certo? Acho que já os vi em algum lugar antes. Parecem runas arcanas? Acho que é assim que são chamadas. — James comentou e Eiro olhou para o orbe de novo, tentando ver lugares onde os padrões pareciam iguais.

Ele não se recordava de nenhuma delas, mas tinha que admitir que havia algumas similaridades óbvias entre os entalhes na laje ali fora e nesse orbe de metal.

— Como você viu isso? — Eiro perguntou. James só deu de ombros. — Não sei, só fiz. Minha mãe era uma arqueóloga, então aprendi algumas coisas.

— E como o filho de uma arqueóloga se tornou um assassino? — O Demônio perguntou curioso e, mais uma vez, só que dessa vez um tanto irritado, James deu de ombros.

— Vai se foder. — Ele disse com um resmungo então deslizou contra a parede ao lado de Eiro, para se sentar no chão ao lado dele.

Por alguns momentos, a atmosfera ficou estranha e um tanto tensa, tanto que até Eiro percebeu, mas antes que pudesse mencionar, James o fez.

— Certo, escute, cara. Eu não… gosto de você. — James começou. — Já entendi que você não é um monstro normal. Já entendi que não foi você quem matou Avalin. Você é um pouco extremo às vezes, mas, no fim, acho que você é um cara legal, mas ainda não consigo… você sabe…

— Parar de me odiar?

— Em essência. Bem, não é como se eu sentisse raiva cada vez que olho para sua cara suja, mas não posso deixar de ficar incomodado, sabe? — James disse com um suspiro. Eiro olhou para ele com um sorriso.

— Igual, cara. É uma sensação estranha. Não te odeio, mas também não gosto de você, mas é diferente de como se sente para um transeunte aleatório. Por exemplo, eu confio em você. Eu acho que não sou a pessoa mais emocionalmente estável para se perguntar algo no momento. Sabe, como o Demônio da Ira.

Por alguns instantes, James olhou para Eiro um pouco confuso entender o que ele tentava dizer.

— Certo, porque a maioria dos demônios tem um pecado designado a eles. Você acha que seria um Demônio da Ira, se você fosse normal?

— Não, eu sei. Na verdade, isso aconteceu pouco depois que me separei de vocês naquela época. Eu estava com Avalin e estava tentando pensar em como alimentá-la. Então, conheci Arc, meu filho mais velho, e ele me levou até uma carruagem onde estavam ele, um padre, uma amiga e o cara que tinha o Três de Espadas. Minhas crianças são todas um pouco especiais, como você percebeu. Bem, eu matei o padre, quase fui morto pelo antigo portador da carta, fui salvo pela antiga Rainha Náiade, observei o antigo dono da carta ser dominado por ela, matei o portador e a maga então sequestrei as crianças para me ajudarem a encontrar o caminho até o castelo do Rei dos Monstros. — Eiro explicou. James o encarou, bastante perplexo com o que aconteceu. Ele sabia que havia mais por trás dessa história, mas escutar que Eiro sequestrou as crianças o deixou mais do que surpreso.

— Bem, evoluí pela primeira vez, fiquei um pouco mais esperto e comecei a me apegar às crianças. Assim, paramos em uma cidade para passar a noite e aconteceu que essa cidade era parte de um experimento conduzido por <O Diabo>, o que significava que todas as noites a cidade ficava infestada com demônios de todos os tipos, enquanto as pessoas se entregavam aos seus pecados. Algum bastardo das sombras transportou as crianças para longe de mim, para os Lordes Demônios da cidade, de acordo com o ‘pecado’ delas então atravessei a cidade para pegá-las de volta. Eles eram muito mais fortes do que eu naquela época, mas de alguma forma não fiquei atordoado quando entrei em contato com energia sagrada, então consegui subjugá-los usando a pedra mágica de energia sagrada que retirei do cajado daquele padre de antes.

James olhou para Eiro com uma carranca. Isso parecia ridículo, mas, por algum motivo, acreditava nele.

— Você lutou usando energia sagrada? Você, um demônio? E não ficou atordoado com sua perdição? — Ele questionou e, sabendo que James ainda não acreditava nele, Eiro retirou uma pedra mágica branca-dourada de sua Tesouraria. Ele a segurou em sua mão esquerda e a ativou. Isso fez sua pele chiar um pouco, embora a um nível que só Eiro conseguisse escutar. James não conseguia. Apesar de que isso só mostrava quão forte era a energia sagrada emitida natural pelo corpo de Avalin. Deveria ficar de olho nisso, talvez Eiro devesse revelar essa informação para Solomon…?

De qualquer forma, depois de mostrar isso para James, ele guardou a pedra mágica.

— Possuo a habilidade de Resistência à Energia Sagrada (Aprendiz) no nível 78. Não tinha naquela época, mas agora isso não me causa mais danos. De qualquer forma, pelo modo como eu estava lutando e pela minha imprudência, não só tive meu dedo arrancado depois de cair de uma torre com Leon nos braços, tentando desacelerar minha queda, como minha mão necrosou na manhã seguinte depois que salvei as crianças… Foi aí que encontrei Jura e as crianças me nomearam de Eiro.

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