A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 181

A Virtude do Demônio

Da retaguarda, sem levantar um único dedo, Eiro observou Jess, James e Krog lutarem contra a horda de aranhas.

Claro, ele estava um pouco ocupado se certificando de que Leon e Avalin não vissem o que acontecia, mas Eiro ainda sentia tudo o que ocorria ao redor. Eiro pensou em como esses três lutariam contra a onda de aranhas dentro do lugar que transformaram em seu ninho.

Afinal, mesmo que estivessem fazendo tudo certo agora, isso só ocorria porque tinham muito espaço para lutar. O sistema compacto de árvores, rochas e túneis subterrâneos que era o ninho das aranhas não tinha nada disso. Haveria monstros nos arredores, em todas as direções possíveis e precisariam lutar para passar por ali com as instruções de Eiro, se quisessem ficar mais fortes. Cada um por suas próprias razões.

Eiro cruzou os braços e olhou a área. Não parecia haver muitas aranhas ao redor no momento e aquelas que estavam aqui eram batedoras que não achavam que sobreviveriam. Ainda teria que fazer isso em algum momento, mas por ora, essa era uma boa chance.

— Me atualizem. — Eiro exclamou e com respirações que mostravam que estavam mais exaustos do que quando chegaram, eles abriram seus status e Eiro conseguiu as atualizações que pediu ao olhar em seus olhos.

James havia subido de nível um total de quatro vezes, enquanto Jess e Krog subiram três vezes. Na verdade foi surpreendente rápido, mas isso mostrava que eles não estavam de fato concentrados em se fortalecer. Dinheiro era a prioridade deles, então assumiam pedidos que traziam dinheiro, mesmo que não conseguissem crescer muito com esse método.

Eiro ficou desapontado, mas não achava incompreensível no fim. Com um aceno de sua mão, o Demônio começou a extrair sangue dos dois tipos de aranhas.

— Gondos, Nelli, limpem isso, está bem? — Eiro perguntou e os dois Espíritos fizeram como pedido. Como também sabiam que podiam se acalmar um pouco, os outros questionaram sobre algo em que estavam pensando durante as últimas horas.

— Por que você… — Jess questionou, tentando engolir com a boca seca. — … coletou todo esse sangue? E então o refinou?

Com um suspiro, Eiro apontou para o frasco ao lado de Jess.

— Beba algo primeiro. Você usou alguns cânticos enquanto conjurava, então não deixe que sua boca e garganta sequem. — O Diabrete disse e, enquanto ela fazia como pedido, Eiro começou a explicar. — E bem, é muito simples. Limpar o sangue de monstros é útil. Então, Nelli e Gondos estão removendo quaisquer impurezas para que eu possa usar o sangue para brincar um pouco.

Enquanto explicava, moveu os pedaços de sangue que Nelli e Gondos acabaram de terminar para os orbes de sangue azul de diferentes sombras e quantidade acima do seu corpo.

— O que você quer dizer com brincar um pouco? É como… oferendas de bruxaria? — James perguntou com uma leve carranca.

— Oi? Onde você ouviu isso? — Eiro respondeu. — Claro que não. Tentei ler um pouco sobre bruxaria, mas é ilegal em todos os lugares que fui, então não consegui encontrar nada. Não, o que eu quis dizer é que o sangue de monstros é um bom alimento para sementes.

— Sementes? Como assim? — Krog questionou com uma expressão confusa enquanto continuava olhando ao redor para ter certeza de que não seriam pegos desprevenidos. Eiro não os avisaria agora, afinal.

Após refletir um pouco, Eiro deu de ombros e explicou.

— Sei que tudo o que vocês me viram fazer foi entalhar madeira para praticar, mas sabem que não sou um escultor, certo? Sou um protesista, aprendi essa profissão há muitos anos. Ser um Protesista não significa esculpir próteses, pelo menos não para mim e para o meu professor. Significa imbuir um pedaço de madeira com vida. Como se a prótese se tornasse sua criança, então você cuida dela desde o momento em que nasce até que entrega para outra pessoa. E, é claro, você tem que se certificar de que a outra pessoa também seja adequada para ela. — Eiro explicou, mas Krog ainda não tinha compreendido tudo, algo que Eiro conseguiu perceber de imediato.

— Certo, então deixe-me dizer mais claramente, me desculpe. As habilidades que possuo em relação à minha profissão são três. Esculpir (Intermediário), assim como Botânica e Zoologia (Aprendiz). Meu primeiro objetivo é levar botânica e zoologia ao grau intermediário. Estou tentando aprimorá-los ao mesmo tempo. Tiro a vida dos monstros para aprender sobre eles, então uso esse conhecimento e seus corpos para criar novas vidas na forma dos meus trabalhos. — O Demônio disse, tentando ser mais claro dessa vez. — Então, assim que conseguir colocar minhas mãos nas sementes certas, as alimentarei com esse sangue para criar as árvores certas. Por fim, usarei a madeira dessas árvores para criar próteses. — Eiro adicionou e todos eles entenderam.

— Então, que tipo de sementes você precisa? — James perguntou ao Demônio, que pensou por alguns momentos.

— Eu conto quando encontrar.

— Espere, você não pode usar qualquer uma? Você precisa de sementes específicas, mas nem mesmo sabe se elas existem? — Jess perguntou e Eiro olhou para ela com um sorriso.

— Tecnicamente sim, mas estou confiante de que as sementes que procuro existem. E se não, improvisarei um pouco. — Eiro comentou e olhou para James. — E sim, é o mesmo para você. Precisamos de uma semente específica para crescer na árvore que será boa para sua prótese. Ela precisa se alinhar com o seu ser, então pode demorar um tempo para encontrar a combinação perfeita.

Um pouco confuso com a reação um tanto agressiva de Eiro, James levantou as sobrancelhas.

— Escute, eu acabei de dizer que mesmo esse braço é uma combinação incrível. Quem sabe, talvez Elfos da Luz tenham uma boa adaptabilidade para esse tipo de coisa? De qualquer forma, só estou dizendo que você não precisa se estressar fazendo algo ‘perfeito’. Tudo bem não concordar, mas não precisa ser uma vadia por causa disso. — James disse para Eiro com uma carranca profunda e o Demônio o encarou de volta, irritado.

Ele podia sentir que estava ficando cada vez mais bravo, de alguma forma. Talvez fosse por causa do caroço de mana ambiente dentro do seu corpo, mas sua fúria foi amplificada muitas vezes.

Eiro não tinha certeza do porquê isso estava acontecendo, mas estava convencido de que não era algo bom. Esperançosamente, seu corpo usaria o caroço durante sua evolução como Eiro queria, senão seria bastante problemático. Talvez devesse colocar alguns pontos extras em sua Força de Vontade, porque isso era um pouco irritante demais, mas antes de fazer qualquer coisa sua boca se moveu e falou sem pensar.

— James, no próximo encontro você não terá permissão para lutar com suas adagas. Lute de mãos nuas. Sei que você tem essa habilidade, era a principal forma como você lutava naquela época. — Eiro disse, mais do que irritado. — Não se preocupe, conheço os riscos. Intervirei se ficar muito ruim, mas quero que perceba que seu braço é tudo, menos uma boa combinação no momento. — O Diabrete disse e James cerrou os dentes enquanto o encarava de volta.

— Está brincando comigo? Quer que eu morra ou algo assim? Quer que eu lute contra elas com a por-

— Quieto. Não xingue na frente das crianças. — Eiro interrompeu e James empurrou suas adagas contra suas bainhas.

— Tudo bem, observe. Mostrarei que você está errado. — Ele disse com um sorriso confiante. James se virou e começou a caminhar, anunciando que a breve pausa tinha acabado.

Com resmungos irritados direcionados tanto para James quanto para Eiro, Jess e Krog seguiram atrás do Elfo da Luz e se prepararam para qualquer tipo de ataque das aranhas. Um ataque que não precisaram esperar muito.

Havia algumas aranhas dessa vez, três delas, mas eram três vezes maiores se comparadas às aranhas de antes.

 — Huh, agora, vamos mostrar para ele. — James disse com um sorriso e disparou em frente, enquanto Krog o seguiu. Jess preparou-se para conjurar um feitiço enquanto eles faziam isso e logo James pulou direto no corpo da primeira.

Ele chutou o rosto dela, logo acima de suas mandíbulas e abaixo dos olhos, causando um dano considerável. A aranha estreitou os olhos enquanto James escalava o abdômen dela.

Com um soco rápido com sua prótese, acertou o abdômen várias vezes. Foi violento e inexperiente. James não usava combate corpo a corpo fazia anos, então a luta se tornou tão violenta quanto Eiro esperava. Em algum momento, o grande abdômen da aranha rachou e sangue azul espirrou pela mão de madeira de James, algo que ele teve sorte e habilidade suficiente para evitar o máximo possível.

Mas nesse instante parecia que ele não se importava. Só queria mostrar e provar que Eiro estava errado, enquanto o Demônio observava em silêncio. Depois de perfurar o exoesqueleto, Krog chegou e atacou a abertura, abrindo ainda mais e causando imenso dano ao atacar os órgãos internos.

Em sequência, a aranha caiu morta. Enquanto isso, Jess estava conjurando feitiços nas outras duas aranhas para mantê-las em cheque e as chamas estavam causando bastante danos a elas. Ela extinguiu as chamas de uma delas, para permitir que Krog e James atacassem, mas sem esperar, James pulou no corpo esfumaçado da aranha e repetiu o mesmo que fez antes.

Dessa vez, o exoesqueleto quebrou quase na hora após ser danificado por esse tanto de fogo, então a mão de James perfurou e acabou coberta por ainda mais sangue.

Ele rasgou os órgãos da aranha e a matou, enquanto Krog mudava a direção do seu ataque e, em vez seguir com James, balançou seus machados pesados na próxima aranha e estilhaçou seu abdômen. Depois que as três morreram, James se levantou triunfante e caminhou até Eiro.

— Viu? Funcionou perfeitamente, certo? — James perguntou presunçoso de longe e Eiro se aproximou dele. Sem hesitação, encarou o rosto de James com um olhar irritado.

— Já se recompôs? Funcionou? Olhe para o seu braço.

Confuso, James voltou a atenção para sua prótese, vendo que ele estava coberta de sangue azul.

— O que, você está bravo que eu o sujei?

— Não é o sangue, seu idiota. É o fato de que deslocou as juntas do seu indicador e nem percebeu. E de ter deixado sangue quente congelar ao redor da junta do seu cotovelo, o que acabaria a entupindo-a em cerca de dez minutos… E, mais importante, que você não a tratou como uma mão, mas como uma arma.

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