
Volume 3 - Capítulo 170
A Virtude do Demônio
A primeira noite dentro do castelo foi bastante pacífica. Eiro não dormiu muito, chegando a subir um nível da sua habilidade de resistência à exaustão. Ele queria ter certeza de que nada estava acontecendo, então estava tentando focar nos quartos das crianças.
Eiro não tinha razão para se preocupar e as crianças conseguiram ter uma boa noite de sono em camas de alta qualidade. Na manhã seguinte, todos desfrutaram de um café da manhã suntuoso, preparado pelos chefes pessoais do Rei, que acabaram convidando Rudy por um dia para ensinar uma coisa ou duas sobre cozinhar.
Claro, isso deixou o jovem mais do que apenas animado. Ele parecia interessado nisso e não conseguia nem um pouco se interessar em comer a comida que estava à sua frente, desde que estava tão curioso sobre o que podia aprender.
Depois do café da manhã, Eiro se certificou de que todos tivessem algo para fazer em um ambiente seguro. Sammy e Felix escolheram ficar com Leon e Avalin por um dia, enquanto ele ajudava ela a praticar o controle sobre sua habilidade única, enquanto o próprio Felix começava a esculpir usando argila para adquirir a habilidade de ‘esculpir’.
Arc e Clementine, ambos muito animados e extrovertidos, acabaram fazendo amizade com Charles rapidamente, assim como o irmão e irmã mais novos dele, gêmeos de quatorze anos, e passaram o dia com eles, brincando e fazendo um pouco de bagunça.
Eiro conseguiu sair de novo e encontrar Jess, Krog e James na Guilda às 12h, mas antes disso, Eiro tinha que cuidar de outra coisa… agora que tinha um lugar para ficar de novo, tinha muito mais espaço para armazenar as coisas. Ou seja, finalmente poderia comprar mais livros!
Ele estava um pouco hesitante em comprar novos livros no passado, desde que isso significava se livrar dos antigos. Seria um desperdício armazenar, afinal… mas ele odiava jogar fora, então armazenou a maioria deles em sua bolsa em vez de jogá-los no lado da estrada.
Agora se entregaria e compraria muitos livros, porque foi incapaz de fazer isso antes! Ainda faltava cerca de uma hora até ter que ir até a Guilda dos Aventureiros, então parou primeiro em uma livraria. Ela ficava a apenas um ou dois minutos da Guilda, então poderia passar um tempo aqui.
Entrou pela porta da frente e olhou ao redor, tentando ler os títulos dos livros. Havia vários que já leu antes, mas também havia muito mais que ainda não tinha lido. Havia uma variedade tão grande que este lugar parecia um tipo de paraíso para ele.
Eiro pensou por um instante, até que começou a pegar alguns livros que achou interessantes. A maioria deles era sobre informações locais que poderiam ser úteis, agora que Eiro viveria na cidade, mas também havia alguns livros diferentes sobre diferentes métodos de manipulação de mana ou técnicas de combate que pareciam interessantes.
O Demônio carregou a pilha de livros para o balcão perto da porta e olhou para a funcionária, que o encarou de volta com um pouco de surpresa.
— Esta é uma quantia considerável. Estamos abertos quase o dia todo, então você pode voltar de novo, sabia? — Ela riu enquanto calculava o custo dos livros de cabeça, e o Diabrete assentiu.
— Eu sei. Voltarei nos próximos dias para comprar mais. — Eiro comentou e a funcionária tirou os olhos do pedaço de papel em que estava anotando.
— Hm? Ah, você é um pesquisador e esses são para o seu time? — Ela refletiu, mas Eiro balançou a cabeça.
— Não, só gosto muito de livros. Há vários interessantes aqui, então me tornarei um cliente regular depois disso. — Depois dessa explicação, Eiro colocou a quantidade certa de moedas para os livros, a qual já havia calculado de antemão usando as informações nas etiquetas colocadas nas prateleiras, e então guardou os livros na sua bolsa. — Até mais, te vejo daqui a alguns dias. — Eiro disse, caminhando na direção da porta, sentindo os olhares da funcionária nas suas costas.
Assim que pisou nas ruas que estavam cobertas por uma fina camada de neve, enquanto mais dela caía ao seu redor, ele parou de se mover e cerrou os dentes em irritação.
— Pela Dama do Inverno… — Eiro rosnou e subiu nas costas de Lugo para fazê-lo se apressar na direção da Guilda. Ele tinha apenas alguns minutos até o meio-dia e, quando entrou na Guilda dos Aventureiros, já avistou o trio no outro lado do salão, esperando por ele.
Ao ver o Demônio entrar na construção com o Cervo atrás dele, Jess escolheu acenar para ele.
— E-Ei, aqui! Teve uma boa manhã? — Ela questionou, tentando iniciar uma conversa simples, e Eiro assentiu enquanto ainda tentava cerrar os dentes.
— Uhum. Vamos para a sala de treinamento privado. — Eiro soltou e Krog olhou para ele com uma carranca.
— Uh, não precisa ser um babaca sem motivo.
Em resposta Eiro o encarou e seguiu Jess e James, enquanto caminhavam em direção à maior sala de treinamento, que já haviam alugado pelo resto do dia, no fundo da Guilda, onde teriam o máximo de privacidade possível.
— Ei, estou falando com você. — O guerreiro disse irritado e Eiro, sem nem olhar para ele, passou por James enquanto abria a porta da sala e puxava o longo cajado para longe das suas costas.
— Eu já sei, seu pedaço de merda fodido! — Eiro gritou, e, sem um único momento de hesitação, balançou o bastão envolto em tecidos contra a parede. James, Jess e Krog apenas o encararam.
— Você nos chamou aqui para nos insultar? — Jess perguntou irritada. Eiro se virou para ela e balançou a cabeça, enquanto arremessava o cajado no chão.
— O quê? Claro que não, eu não estava falando com vocês. — O Demônio disse. — Agora, fechem a porta. — Ele disse com um tom bastante bravo e, quando a porta foi fechada, retirou sua máscara e capa, estalando os dedos.
— Sério, se eu não tivesse uso para você, eu teria te matado agora. — Eiro disse, enquanto Nelli aparecia, suspirava e cobria a pele de Eiro com água, desde que ele havia começado a sangrar levemente por todo o corpo.
— … Você está louco…? — Krog perguntou confuso, enquanto tentava olhar para James e Jess para pedir a opinião deles, mas Eiro ignorou a pergunta do guerreiro enquanto olhava para o cajado e a alça conectada a ele começou a ficar translúcida e se reunir em um formato vagamente humanoide.
— O que diabos foi tudo isso?! — O Slime Sem Forma questionou, e Eiro o encarou .
— Sério que você está me perguntando isso? Sei que o seu corpo é feito principalmente de água, e você já me disse que não gosta do frio, mas você cresceu na porra do cume de uma montanha! Então, não surte! Eu te disse para criar um pequeno monte perto do meu ombro, não transformar toda a parte de dentro da alça em agulhas! — Eiro gritou e o Slime permaneceu em silêncio por um tempo.
— Oh, é por isso. Sim, faz sentido. — Ele concordou, e Eiro suspirou irritado.
— Eu juro, amarei o dia em que finalmente te matarei…
Agora, Nelli curou os pequenos ferimentos que o slime infligiu por todo o corpo de Eiro. Eles não o danificaram tanto, mas ter centenas de agulhas por todo o seu peito, ombro e lados não era nada agradável quando todos os seus sentidos, incluindo seu tato e dor, eram aprimorados a níveis incompreensíveis.
— O que diabos é isso?! — Krog perguntou com seus machados em mãos, enquanto via o slime ‘parado’ ali, e Eiro olhou para ele com um sorriso brilhante.
— Vocês três, conheçam esse pedaço de merda. Pedaço de merda, conheça James, Jess e Krog. — Eiro disse enquanto suspirava irritado. Ele só não sangrou porque conseguia manipular seu sangue para não deixar que isso acontecesse, mas ainda era incômodo, então Eiro examinou o seu corpo, camisa e capa para ver se havia algum dano neles.
Felizmente as agulhas que o slime formou eram tão finas que deslizaram entre os fios do tecido. Depois de ver que tudo estava bem, Eiro olhou para o trio.
— Me desculpe por isso, ultima irrito-me muito facilmente. — Eiro tentou explicar e Jess riu sem jeito.
— H-Haha, estresse de se mudar para um lugar novo, hein? — Ela sugeriu e Eiro olhou para ela por alguns segundos, colocando sua bolsa no chão e deixando Lugo se sentar.
— … Claro… — Ele respondeu, caminhando em direção à mesa colocada nesta sala de treinamento, sentando-se em uma das cadeiras.
— Venham, primeiro, vamos conversar um pouco. — Eiro disse. — Perguntei muitas coisas para vocês três, mas ainda não dei uma chance de me perguntar questões apropriadamente. Então, perguntem o que quiserem. Posso ou não posso respondê-los, dependendo se quero ou não.
— Obrigado, que gentil da sua parte. — James respondeu, enquanto se sentava em uma das cadeiras, e Eiro logo escutou a primeira pergunta de Krog.
— Bem, vamos perguntar o óbvio primeiro, que tal? O que você é exatamente? Sei que você nos disse que é um Diabrete, mas não há como isso ser verdade… Nunca ouvi falar de um Diabrete tão alto como você, muito menos um tão estran… — O guerreiro começou, e Jess terminou para ele, desde que ele parecia lutar para encontrar a palavra certa.
— … bonito? — Ela sugeriu, e Krog estalou os dedos e assentiu a cabeça.
— Sim, é isso. Ou não? Isso é tão estranho. Você não é um cara feio como o ‘Máscara de Diabrete’ aqui, e não é como se você parecesse um humano, mas, de uma forma muito estranha, você é um cara muito bonito.
Eiro deu de ombros, enquanto olhava para eles.
— Bem, só posso te dizer que sou um Diabrete, mesmo que tenha passado por duas evoluções únicas consecutivas.
— O que quer dizer? — Jess perguntou. — Evoluções únicas? Mas-
— Eu tenho três cartas, o que você esperava? Primeiro, eu era um Diabrete Inferior, isso foi quando encontrei James pela primeira vez. Depois disso, evoluí para me tornar um ‘Diabrete Acadêmico’ e recebi uma habilidade que me dá memória perfeita. Então, evolui para me tornar o que sou agora, um ‘Diabrete Colecionador Azul Gelo’. — Eiro explicou e James levantou as sobrancelhas, surpreso.
— Mas, você não é azul. — Ele comentou. Eiro suspirou enquanto tirava seus sapatos, meias e as luvas em sua mão esquerda, levantando os pés e colocando-os sobre a mesa enquanto estendia as duas mãos para os três aventureiros. — Sou, parcialmente.
Eiro se levantou e retirou sua camisa, expondo a marca azul-claro que recebeu da ‘Benção da Náiade Solitária do Inverno’.
— A parte de ‘Azul Gelo’ vem principalmente disso.
Enquanto Eiro mostrava isso para eles, Jess não pôde deixar de encará-lo, confuso, gritando algo de uma forma que surpreendeu tanto James como Krog.
— Você tem uma bênção, porra?!