A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 169

A Virtude do Demônio

— O que diabos você está dizendo? — James questionou baixinho enquanto estendia a mão em direção à coleira e a segurava. Com uma expressão amarga, começou a esfregar seu polegar sobre a gema incrustada. — Essa é mesmo a mana de Avalin, não é? — Ele sussurrou, então levantou a cabeça e olhou para Eiro. — Escuta, cara, eu… eu não sei… o que pensar mais. — James apontou. — Durante minha vida toda fui ensinado de que monstros são uma força absolutamente maligna, que eles são a escuridão da luz que são as pessoas… por isso que eu me tornei um aventureiro, para me livrar dessa escuridão. Quero me tornar o herói que consegue proteger os outros… mas então, mostraram que eu não podia proteger ninguém, e pensei que a culpa era sua. Por anos, acumulei rancor, especialmente contra demônios… Até comprei essa máscara de demônio para quando estivermos em viagens onde as pessoas ainda não me conhecem. Tentei me tornar a escuridão para me livrar dela… e daí…

 — Você me viu de novo. — Eiro terminou e o Elfo da Luz assentiu.

— Exato. Você nos enfrentou pelas pessoas daquela cidade, você fez amizade com todos lá. E, porra, você até tem uma família que se colocaria em perigo para o seu bem. Isso foi o que eu sempre quis, mas agora o Demônio que pensei ter tirado os meus amigos consegue essa felicidade? Isso parecia… injusto. E agora até estou falando com você como se você fosse uma pessoa normal, o que diabos é isso? — Com a mente confusa, James olhou para a mesa e formou involuntariamente um sorriso de angústia e surpresa.

Demorou um tempo para ele organizar seus pensamentos, e então ele levantou a cabeça de novo.

— Está bem. Pensarei sobre isso. Só me diga isso: o que você pode me oferecer? Por que eu deveria formar um grupo com você? Fora o fato de que você irá me matar.

Com um aceno, Eiro estendeu a mão para frente e retirou outra carta da sua tesouraria, além do três de espadas que já havia retirado, o ás de copas. As duas cartas estavam ao lado uma da outra.

— Tenho três cartas. Ás de Copas, da loja de Zaragon. Três de Espadas, de um mercenário, aventureiro ou sei lá o quê, depois que fugi da capital. Depois, tenho o Cinco de Ouros, do meu professor e homem que considero meu pai. Recebi a bênção da antiga Rainha das Náiades, assim como a bênção da Dama do inverno com um presente que a Dama me deu para realizar um contrato com uma de suas Filhas do Inverno no futuro. Tenho dois contratos igualitários com dois Espíritos, e estou carregando itens feitos exclusivamente pelo Rei dos Artesãos, Armodeus, além disso… — Eiro disse, retirando mais um objeto de sua Tesouraria. Uma garrafa de vidro cheia com um líquido preto.

— Este é o sangue de um ser da mesma raça que Zaragon. Antes que você pergunte, não, não o matei. Eu matei a coisa que o matou, mas fui capaz de feri-lo. Estou confiante de que consigo derrotá-lo se tiver a chance. — O Diabrete encarou James, que o encarava de volta confuso, enquanto começava a ficar nervoso.

— Você… está tentando me ameaçar? — James questionou, e o Demônio balançou a cabeça.

— Claro que não. Estou tentando te contar uma das razões para você fazer um grupo comigo. Tenho poder, tenho contatos e capacidade imensa de crescer. Algo que também posso dar a você. Então, James… não quer matar Zaragon comigo?

James olhou para Eiro e, alguns tempo depois, começou a rir.

— Isso… isso é ridículo. Você quer matar Zaragon? Por alguma vingança idiota?

— Sim. — O Demônio respondeu sem hesitar. — Pelo menos em parte. Há algo de errado com isso? Não é algo que eu perseguiria com cada fibra do meu ser. Não é a minha razão de viver, mas é algo que eu gostaria de realizar, para provar que sou capaz de matar o ser que me traumatizou.

— Eu não serei capaz de ajudá-lo, sabia? Aquele pedaço de merda me aleijou. Ele aleijou o meu braço, incluindo a maior parte do meu ombro. Meu papel principal no grupo com Jess e Krog é ser um batedor. Não sou um lutador adequado há anos.

— Eu sei, e posso mudar isso. — Eiro comentou. Ele não estava tentando esconder isso, mas não expôs completa até agora. Ele estendeu a mão direita para mostrá-la para James. — Quando nós nos encontramos naquela época, você estava procurando por Jura, o Protesista, para fazer uma prótese para o seu braço, certo? Bem, esse homem era o meu professor. Essa mão foi feita por mim mesmo, e funciona como uma substituta completa para minha mão real. Farei um novo braço para você, não se preocupe. Isso pode demorar um tempo, mas teremos certeza de que você se acostumará a usar uma prótese como essa. — O Diabrete disse e James arregalou os olhos, enquanto se levantava e se inclinava para frente.

— O quê?! Você – Você era o aprendiz daquele homem?! Você está brincando comigo?! — James questionou e Eiro acenou com a cabeça. James parecia estar ficando animado, embora a excitação logo tenha virado suspeita.

— Por que você está me contando tudo isso? Eu não te contei nada, mas você revelou toda essa informação para mim… o que você quer em retorno? — O Elfo da Luz perguntou e Eiro o encarou de volta.

— Quero que você se torne uma pessoa em quem posso confiar minhas coisas, para que eu não morra sem ver minhas crianças se casando. — Eiro disse, e James o encarou de volta.

— Huh…? Ca-Casamento…?

— Sim, isso é algo muito importante para vocês, certo? Eu li muitas histórias sobre pessoas se apaixonando e vivendo felizes depois disso. Vi quão felizes os outros são quando estão com suas esposas. Claro, não importa para mim se minhas crianças se casam ou não. Só parece um bom objetivo pelo qual se esforçar. Só quero que todos tenham uma vida feliz, mesmo que seja sem mim.

Ainda mais do que antes, James ficou assustado com o tom da voz de Eiro. Não era o tipo de coisa que você esperaria de um demônio, afinal, mas para compensar, a próxima coisa que Eiro disse compensou por isso:

— Não me entenda errado… se você tentar me ferrar, posso matar você, enfiar seu corpo em um saco e usar o Ás de Copas para fazer todos esquecerem da sua existência. E isso se eu não te matar aqui e agora, considerando que memorizei o seu cheiro, você não será capaz de fugir de mim pelo resto da sua vida.

— Como você pode mudar de algo tão gentil para algo completamente fodido? — James perguntou com um suspiro misturado com uma risada. — Tudo bem. Vamos ver como isso funciona por enquanto. Jess e Korg me contaram que você queria encontrá-los na sala de treinamento amanhã ao meio-dia? Confio que você será pontual.

— Óbvio que serei. — Eiro disse com um pequeno sorriso sobre sua máscara, levantando-se depois de guardar todos os itens em sua bolsa ou tesouraria. Ele pegou o slime que havia assumido o formato de um cajado envolto em panos e o colocou em suas costas, acenando a mão para o lado e desfazendo o feitiço que havia colocado.

Antes de sair Eiro levou a mão para a pequena bolsa no seu cinto e retirou um maço de moedas de cobre.

— As bebidas são por minha conta hoje à noite. — O Diabrete disse e colocou o maço sobre a mesa, caminhando na direção da porta depois de dizer para Lugo segui-lo.

Assim que saíram, Eiro subiu nas costas do Cervo e o cavalgou de volta para o castelo, enquanto a Náiade contratada pelo Demônio encarava a máscara dele. Eiro não poderia só perguntar sobre isso aqui, porque havia muitas pessoas, mas assim que passou pelo portão do castelo, olhou para Nelli. E, com um tom incomodado, questionou:

— Tem alguma coisa na minha máscara?

— Hm? Oh, não, só estou tentando entender o que diabos está acontecendo… — A Náiade comentou. — Quero dizer, não é todo dia que você se torna um cara legal para alguém que tentou te matar várias vezes, ou melhor, que você acaba sendo um cara legal. Só isso.

— Ai. — Eiro respondeu com um suspiro. — Escute, você me escutou ali atrás. Não sei explicar, é assim que as coisas são. O quê, você espera que eu seja frio e calculista o tempo todo? Você deveria saber que houve situações mais do que suficientes em que não fui isso. Não sou apenas uma máquina de matar.

— Você massacrou os habitantes de uma cidade há algumas semanas, o que você quer dizer?

— E você sabe que eu não fiz isso de propósito… Não estava no controle na época. Você esteve comigo já quase há oito anos, sabe como eu sou. Só… não pense que eu não o mataria se não precisasse. De alguma forma, prefiro não fazer.

Nelli flutuou até a frente do rosto de Erro e o encarou nos olhos, apesar de não conseguir vê-los por causa da máscara que ele vestia.

— Ainda há uma grande diferença entre ‘prefiro não matar alguém’ e ‘tentar fazer amizade com alguém’. Quer dizer, contanto que você tenha certeza de que quer transformá-los em pessoas em quem pode confiar, então está bem pra mim, de verdade.

Com um aceno lento, Eiro olhou de volta para o Espírito.

— Não se preocupe, é só isso. Eles serão úteis e não parecem do tipo que traem os outros com facilidade. Sinto que especialmente James será um cara divertido de se ter por perto. — O Demônio disse. Era assim que se sentia. Nada do que disse para James mais cedo era mentira. Eiro sentia coisas que não compreendia, mas que o faziam querer ser amigo dele. De algum modo, não o odiava ou o desprezava e já sentia um estranho senso de confiança.

Tudo isso foi afastado pelo fato de que havia algo mais importante no centro dos seus pensamentos.

Havia uma mentira no que acabou de dizer.

‘Só isso’… Havia muito, muito mais motivos para Eiro estar tentando se aproximar dos humanos, além das crianças.

Porque havia algo que precisava descobrir… e, quando mais pensava sobre isso, mais começava a segurar o tecido da sua capa na frente do seu peito.

Comentários