A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 168

A Virtude do Demônio

Eiro olhou para o grupo de três aventureiros que estava parado ali sem falar.

— Então? O que foi isso de me ajudar? — O Demônio perguntou com um sorriso no rosto, escondido pela sua máscara, e Dony começou a rir de repente.

— Cara, que surpresa do caralho… nós meio que escutamos que você era um nobre ou algo do tipo, mas você era o candidato do rei para o torneio… merda, você deve ser forte, hein? — Ele perguntou com uma risada, mas em resposta, Eiro negou com a cabeça.

— Não sou um nobre — ele comentou —, mas eu diria que sou bem forte.

Donny, Craig e Loyd olharam um para o outro, e o arqueiro Craig falou.

— Como assim, você não é um nobre? Então, como o rei confia tanto em você? — Ele perguntou com um leve escárnio. — Vamos lá, diga o nome da sua família, isso pode explicar.

— Ou nos diga o seu nome, ainda não sabemos. — Loyd comentou, e Donny assentiu.

— Certo, mas bem, muitos aventureiros ocultam seus nomes dos outros, então não precisa nos contar se não-

— Eiro. — O Diabrete falou e Donny engoliu o resto das suas palavras, engasgando com elas.

— Oi…? — Ele questionou, incapaz de continuar. Depois de dizer isso, outros que estava prestando atenção em Eiro o tempo todo, depois que ele trouxe os núcleos de slime e as contas, ficaram ainda mais intrigados e confusos.

— Acabei de dizer o meu nome. Eiro. Não tenho um nome de família ou algo do tipo. — Ele explicou e Donny o encarou.

— Ei, ei, essa é uma piada de mau gosto. Primeiro de tudo, se você escolher um apelido, então esse é um que vai te causar muitos problemas. Eu não acredito que não tenha um nome de família. Alguém assim não tem esperança de encontrar o rei.

— E, ainda assim, eu consegui. — Eiro respondeu, se virando enquanto o funcionário da Guilda entregava seu cartão de volta. O Demônio apontou o cartão para o trio e mostrou que esse era de fato o seu nome.

— Puta merda… que tipo de pais nomeiam suas crianças de Eiro hoje em dia?! — Loyd exclamou. — Isso é foda, deve haver muitas pessoas que te odeiam por ter o mesmo nome do grande herói!

— Alguns, mas esperem um segundo, tenho que pegar minhas recompensas. — Eiro apontou e se virou na direção da escrivaninha atrás dele, e o funcionário o olhou com um sorriso.

— Conseguimos transformar os itens que você entregou em pedidos separados. Veja bem, reunir núcleos de slime dessa forma são pedidos de rank C, pelo menos esse tipo de slime. Desse modo, por completar doze pedidos de rank C e cinco de rank D enquanto está no rank G, você foi promovido para D, parabéns! Aqui está o único núcleo de slime que não pudemos transformar em um pedido. — O funcionário explicou e Eiro permaneceu ali o encarando.

— Hm? Promovido para o rank D? — Eiro questionou, e o funcionário acenou.

— Sim, é claro. Há muitos fatores que influenciam como os pedidos ajudam a promover o seu rank. Se você está sozinho ou é membro de um grupo, quanto tempo demora para concluir o pedido, e claro, quantos ranks acima do seu o pedido está. Nesse caso, tudo isso colabora no seu pulo incrível para o rank D. Você ainda não é elegível para isso, mas gostaria de informá-lo que você terá que participar de uma avaliação de habilidades para se tornar um aventureiro rank C. — O funcionário explicou e Eiro acenou. Ele ainda estava surpreso, mas não se opunha a isso. Por que iria? Isso apenas facilitaria para que conseguisse todas as informações que queria.

Como era próximo de Solomon, conseguia informações de um nível diferente do que esses caras conseguiam, mas era esse o ponto. Era um nível diferente e, com isso, a informação tinha uma perspectiva diferente. Solomon só tinha que se importar com coisas que eram ameaças às cidades, regiões ou até mesmo a países inteiros. Mesmo que não soubesse sobre os locais de reprodução de cada monstro no país, entretanto, havia muitos aventureiros que sabiam.

Eiro esperava conseguir informações que eram úteis para ele subir de níveis, bem como coletar materiais. Nesse instante, o que Eiro estava procurando era um lugar específico para encontrar o tipo especial de semente que usou na sua própria árvore, para que Charlespudesse fazer crescer sua própria árvore. Essa era a melhor forma de produzir uma prótese, afinal.

Essas sementes eram meio difíceis de encontrar, então Eiro tinha que procurar o máximo que podia em um tempo, o que significava que precisava de todas as informações que pudesse reunir.

De qualquer modo, por ora, Eiro guardou todo o dinheiro que conseguiu, assim como o núcleo de slime extra na sua bolsa. Olhou para Donny, Craig e Loyd, que estavam mais do que animados de ver alguém promover de rank tão rápido. Eiro sorriu para eles, mas disse que se sentaria em uma das mesas e esperaria por alguns conhecidos. Donny ofereceu-se para esperar com ele por um tempo para que ele não ficasse entediado, mas Eiro negou.

— Desculpe, preciso conversar sobre algumas coisas particulares. — O Demônio disse. — Obrigado pela oferta. — Eiro adicionou e virou a cabeça em direção à uma mesa vazia no canto do salão. Donny, Craig e Loyd parecia um pouco desapontados, mas no fim apenas se sentaram no bar e se divertiram juntos.

Então Eiro esperou.

Ele retirou um livro de sua Tesouraria sem deixar que ninguém visse de onde estava retirando e abriu. Ele pensou em ler por um tempo, enquanto esperava por James.

Apesar disse, Eiro mal conseguiu ler duas páginas, pois quando começou a terceira, sentiu o cheiro de James. Não muito tempo depois, a porta da Guilda se abriu. James permaneceu na entrada por um tempo e olhou ao redor, logo avistando o Cervo sentado no chão ao lado da mesa de Eiro.

Em uma linha reta, James caminhou em direção a Eiro, as duas adagas expostas no seu quadril batendo leve contra as partes de metal do seu cinto. Com um olhar profundo, James bateu sua mão restante na mesa na frente do Diabrete.

— O que diabos você está fazendo aqui? — James perguntou, cerrando os dentes enquanto o encarava.

— Sente-se e explicarei. — O demônio sugeriu, e James, sem retirar os olhos e Eiro, se sentou no banco oposto ao dele.

— Agora, diga-me por que diabos você está nesta cidade, ou eu arranco a sua cabeça, entendeu? — O Elfo da Luz disse com um rugido em tom de comando, e Eiro sorriu sob sua máscara, enquanto retirava algo de sua Tesouraria.

Era uma coleira de couro com uma gema incrustada na sua frente. Havia sido cortada na lateral e a gema tinha algumas rachaduras. Confuso, James olhou para isso e levantou a cabeça para olhar para Eiro.

— O que é isso? Por que você-

— Você sabe o que é isso. A coleira que vocês usaram para tentar me controlar. Só que ela não foi feita para Demônios, então consegui escapar do controle. Você sabe quando eu escapei do controle? — Eiro questionou e James o encarou.

— O controle desapareceu quando Avalin morreu, não é? E você saiu depois de roubar as coisas dela.

Com um suspiro, o Diabrete balançou a cabeça.

— Tal controle funcionava de forma diferente. Quando aquele com o controle morre, o controlado também morre. Agora, você se lembra? Viajamos pela ilha flutuante, na pousada, e você fez Avalin enfraquecer o controle para provar seu ponto. Depois disso, escapar foi fácil. Funcionou quando estávamos fugindo de <O Sol>, enquanto ainda estávamos na ponte.

James arregalou os olhos e encarou Eiro.

— O que diabos você quer dizer? Não pode ser, depois que Avalin te fez reunir lenha você até trouxe aquele faisão de volta para nós. Viajamos juntos por uma semana depois disso… — James comentou, e Eiro concordou.

— Uhum. Escute, James. Não sou um Diabrete comum, isso é bem óbvio, não é? Antes de conhecer vocês, eu vivi por cerca de uma semana. Claro, eu era ume escravo para vocês, mas Avalin ainda era gentil comigo. James, eu nomeei minha filha em homenagem a ela. — Eiro explicou para James, que continuou sentado ali e começou a rir baixinho.

— Você… você acha que deve falar sobre isso em uma Guilda cheia de pessoas que matam monstros para viv-

— Olhe ao seu redor. Você acha que alguém se importa? Não, porque eu usei um feitiço especial que força as pessoas a nos ignorarem, como se não estivéssemos aqui. Claro, estamos aqui, eles ainda conseguem nos ver pelo canto dos olhos, mas isso é tudo. Se tentarem focar em nós, perderão o foco e não conseguem nos escutar, não conseguem nos ver completamente. Posso até retirar minha máscara, e ninguém se importaria. — Eiro comentou. Enquanto lia o livro, ele também estava preparando um feitiço que usava o Ás de Copas. Era um método diferente do que apenas usar a poção e depois se transformar em névoa. Ele focava em um aspecto diferente do Ás de Copas para esse método, mas era tão útil quanto.

Embora pudesse perder sua eficácia em combate, ainda era útil em situações como esta, em que Eiro não queria ser incomodado.

— Isso tem que ser uma piada, certo? — James disse com uma expressão confusa, mas Eiro balançou a cabeça.

— Não é. Agora, vamos continuar. Confie em mim, não queria a morte de Avalin. E, embora esteja ciente do seu ódio por monstros, você se importava muito com ela, mais do que um amigo comum.

Mais uma vez, James arregalou os olhos.

— Como você…

— Quantos anos você tinha naquela época? 18, 19? Não sou tão idiota, tenho crianças perto dessa idade. Um pouco mais jovens, mas ainda aprendi a ler nas estrelinhas. Apenas fazia sentido, olhando em retrospecto. Isso me leva ao outro motivo pelo qual eu mostrei o colar de propriedade para você. Como um Elfo da Luz, você tem o corpo mágico dos elfos, mas a incapacidade de conjurar magias dos Elfos Negros, certo? Em contrapartida, Elfos da Luz desenvolvem sentidos mágicos semelhantes aos dos Espíritos, embora muito mais fracos. James, dentro desse colar ainda há um pouco da magia de Avalin. Não sei quanto isso irá ajudar, mas quero dar isso a você como um sinal de paz, na esperança de formar um grupo com você e seus dois companheiros.

James o encarou por um tempo.

— E por que você iria querer isso?

Como se fosse óbvio, Eiro olhou para James e retirou o Três de Espadas, ativando-o e fazendo as cinco lâminas pressionarem contra a garganta de James, sem que ele nem fosse capaz de reagir.

— Porque, caso contrário, isso significa que eu teria que matá-lo. E não sei por que, mas apesar de ser o caso quando eu te encontrei pela primeira vez, assim como quando você destruiu a estátua na cabana naquela época, não consigo te odiar tanto… então, gostaria de ver se consigo fazer uso desses sentimentos uma vez.

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