A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 167

A Virtude do Demônio

Eiro olhou para os dois Espíritos que estavam transformando o slime verde-escuro e lamacento em uma versão branca pura deles, enquanto Eiro se certificava de reunir tudo em uma tigela de gelo, até que o núcleo do slime estivesse pronto.

Enquanto isso, o Demônio conseguiu capturar o núcleo de duas dúzias de slimes em garrafas. O que teria que ser feito era destruir os núcleos dos slimes e coletar a substância restante e cristalina, assim como pequenas partes parecidas com mármore, chamadas de contas. Elas poderiam ser usadas em diferentes poções, aparente. E o que Eiro deveria levar para o pedido eram todas essas contas.

Esse era um pedido de exterminação pura e mesmo que dissesse que haveria uma recompensa bônus quando mais intactos os núcleos estivessem. Eiro teria separado as contas dos núcleos para que o slime de fato morresse e ele ganhasse experiência, mas não parecia que esses caras forneceriam experiência suficiente para ele subir de nível.

Isso era um investimento. O pedido era para cinco slimes do pântano, e Eiro já havia conseguido capturar núcleos perfeitos para quase cinco vezes essa quantidade. Ainda havia mais alguns slimes ao redor daqui, mas ele não tinha mais garrafas sobrando. Então enquanto Nelli e Gondos refinavam ainda mais os slimes, o Diabrete começou a matar mais para reunir as contas.

Os slimes se escondiam em fendas, sob rochas ou dentro de tocos de árvores, tornando-os difíceis de encontrar, mas Eiro conseguia encontrá-los com um movimento do nariz. E assim como Eiro pensou, mesmo depois de matar vários slimes, não subiu de nível. Era um pouco irritante, mas ele deveria estar mais próximo de avançar, mesmo que só um pouco. Então valeu a pena em algum nível, no mínimo.

Com uma pequena mochila cheia de contas, Eiro retornou aos outros.

— Acho que estamos prontos. Se refinarmos ainda mais, então eles irão se transformar em água. — Nelli comentou quando viu Eiro.

— Entendido. — Eiro disse e retirou a garrafa com o núcleo dos slimes da sua bolsa, tentando escolher a certa em vez de uma das outras dúzias que jaziam ali, depois retirou a rolha enquanto derramava o núcleo em suas mãos. Com uma voz contemplativa, ele começou a falar.

— Bem… nunca mais me coloque de volta lá, isso é tão horrível… Como você se sentiria se eu te colocasse em uma bolsa cheia de cabeças de Diabretes? — O slime questionou e Eiro suspirou.

— Me desculpe, mas dane-se isso por enquanto, apenas transforme isso em seu próprio slime agora.

Com um resmungo baixo, o slime disse:

— Ótimo. Só me jogue ali, eu acho. — Ele disse para Eiro, que fez isso e colocou o núcleo na tigela com slime translúcido.

Alguns momentos depois o slime começou a tremer e criar ondas, se reunindo no centro da tigela e assumindo uma forma quase humanoide.

— Ótimo, um corpo de novo. Agora, o que você quer de mim? Transformar em um humano, animal… ou objeto?

— Primeiro, quão pequeno você pode se tornar? — Eiro perguntou e o slime pareceu irritado. A maioria do slime foi sugada para o núcleo e se transformou um pequeno beija-flor.

— Isso é o menor que consigo me transformar, mas é um pouco estranho. Se possível, prefiro ser algo um pouco maior.

— Entendido. Por hora, assuma o formato de um cajado, mas um que seja envolto em panos para que ninguém consiga te ver e perceber que não é de fato um cajado. — Eiro disse e o beija-flor se desfez em slime branco, que se espalhou e assumiu esse formato. Ele o ajustou um pouco para garantir que parecesse correto e não parecesse tão suspeito por causa da sua altura, depois agarrou o cajado envolto em panos e o segurou em suas costas.

— Agora, adicione algo parecido com uma alça para que eu não tenha que carregá-lo na mão. — Eiro disse e logo sentiu uma alça parecida com uma tira de couro envolver ao redor do seu peito. — Bom. Quando quiser falar comigo, crie um pequeno monte na parte interior da alça sobre o meu ombro, e eu avisarei quando você pode falar. De outro modo, permaneça em silêncio. — O Diabrete disse e o slime respondeu. — Entendido, chefe.

Confuso, Eiro subiu nas costas de Lugo e olhou para os Espíritos, que estavam surpresos.

— Só estou curioso, mas por que você está sendo tão… submisso? — Ele questionou e o slime o respondeu.

— Não sei. Ser um núcleo é uma merda, então agora me sinto muito melhor e não estou mais tão louco, certo? De alguma forma não sinto vontade de ser um babaca com você agora. — O slime explicou e Eiro fez Nelli e Gondos se moverem para o espaço intermediário para que tivessem uma conversa ‘apropriada’, apesar de que Eiro apenas acenaria e balançaria a cabeça enquanto os dois Espíritos conversariam.

— Então… Você acha que isso tem relação com o fato de nós usarmos sua mana para refinar o slime que compõe o corpo dele? — Nelli sugeriu e Eiro pensou sobre isso e confirmou. Isso parecia possível, mas tinha algo mais na sua mente, o que Gondos também parecia estar pensando.

— Ele pode estar apenas fingindo para fazer Eiro baixar sua guarda para escapar ou para matá-lo.

Mais uma vez, o Diabrete assentiu. Era isso que ele estava pensando, o problema era que, como o slime ainda não tinha um corpo comum, era quase impossível descobrir se ele estava mentindo ou não.

No fim, havia possibilidades diferentes, mas ele definitiva preferia a primeiro sobre o segunda, pois se o slime de alguma maneira se tornasse afeiçoado a Eiro por causa disso, então isso facilitaria muito. De qualquer modo, por ora Eiro tinha que continuar em frente e, em breve, retornaram ao portão, seguindo para o anel exterior.

Não demorou muito para que Lugo corresse até o portão seguinte. Ele era muito rápido, afinal.

Apenas algumas horas depois de aceitar seu primeiro pedido, Eiro retornou e a completou dez vezes. Na verdade, mais de dez vezes, desde que os núcleos perfeitos valiam muito mais do que apenas as contas.

Eiro desceu das costas de Lugo, limpou a lama e sujeira dos cascos do cervo. Abriu as portas da Guilda, seguindo em direção às mesas do outro lado. Assim que viu Eiro, o funcionário que o ajudou antes assumiu o lugar do seu colega.

— Voltou tão rápido, hein? Mudou de ideia? Escute, se quiser, podemos fazer uma exceção e permitir que receba a ajuda de outros aventureiros, certo? Conheço algumas pessoas que podem ajudar. — O funcionário disse acenando para um trio. O grupo que tentou ‘ajudar’ Eiro antes e deu a dica de usar os galhos. Mesmo que ele não tenha feito uso disso.

— E aí? Sei que somos todos de rank D, mas tenho certeza de que podemos ajudar. — O guerreiro, Donny, disse com um grande sorriso e Eiro negou.

— Obrigado, mas sua ajuda não será necessária. — Ele comentou e levou sua mão até a bolsa, para retirar um saco cheio de duas dúzias de contas e, com as duas mãos, retirou duas dúzias de garrafas de vidro que continham todo o núcleo dos slimes.

— 25 de cada. — Eiro exclamou e o funcionário olhou confuso para todas as garrafas e contas no saco.

— M-Mas… Como… — Ele murmurou, sem ter esperado por isso. Eiro estalou os dedos e fez Nelli aparecer atrás dele. Ela criou alguma magia de água, a qual Eiro transformou em gelo flutuando acima de sua mão.

— Sei que posso não parecer, mas sou um mago bastante habilidoso. — O Diabrete apontou. — Com a magia certa, é fácil separar os núcleos dos corpos dos slimes. Parece que eu tenho a magia correta.

— Certo… Mas… Me desculpe, precisamos de algum tipo de meio para verificar sua legitimidade. Parece um pouco improvável que você consiga terminar, ou até mesmo encontrar, tantos Slimes do Pântano nesse curto período. Só chegar ao pântano leva uma hora.

Com um suspiro irritado, Eiro balançou a cabeça.

— Com meu familiar, demora vinte minutos, e núcleos de slimes contêm magia, tornando muito fácil para os Espíritos encontrá-los ao usar a percepção mágica, mas se isso não for suficiente para você… — Eiro disse e colocou a mão na bolsa, mais uma vez para esconder o fato de que estava retirando algo de sua Tesouraria, colocar o broche de Solomon na mesa com outro item que o Rei entregou com relação à sua promessa de lutar no torneio.

— Tenho o apoio do Rei Solomon Sigurd Skyhart e fui escolhido como um candidato especial para o torneio do próximo verão. O torneio para escolher o companheiro do Herói. — Eiro explicou. O fato de que tinha o broche já havia sido revelado de qualquer forma. Ele tinha certeza de que alguns batedores haviam conseguido vê-lo quando mostrou aos guardas.

E o pequeno broche que recebeu de Solomon para o torneio era uma boa forma de provar que Eiro era forte o suficiente. Poderia ter mostrado ao assumir o pedido, mas Eiro decidiu que seria melhor dessa maneira, assim poderia mostrar para o funcionário que conseguia matar inúmeros inimigos vistos como problemáticos até mesmo para aventureiros poderosos e provar sua força.

— … Huh…? — O funcionário murmurou. — Isso… Isso é… — Ele levou a mão em direção aos broches e inseriu sua mana em ambos, fazendo-os brilhar leve, provando sua genuinidade.

— Perdoe-me pela minha indelicadeza! Processarei tudo agora mesmo! — O funcionário exclamou e foi pedir ajuda para alguns colegas. Eiro guardou os broches de volta na sua tesouraria, por dentro da sua bolsa, e depois olhou para os três aventureiros, que o encaravam confusos.

Parecia que o plano de Eiro funcionou perfeitamente.

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