
Volume 3 - Capítulo 166
A Virtude do Demônio
— Então é realmente você… — Jess murmurou baixinho enquanto olhava para Eiro e o Demônio assentiu.
— Uhum, parece que vocês estão indo muito bem, hein? — Eiro comentou e Krog apenas o encarou com um olhar profundo.
— O que você quer? Você veio para esta cidade para terminar conosco? Escutamos sobre o que aconteceu lá durante o Equinócio de Outono. — Krog rugiu. Porém, Eiro negou com a cabeça.
— Não é por isso que estou aqui. É uma coincidência, na verdade, não tinha ideia de onde vocês viviam.
— Não vai reagir ao comentar sobre o equinócio, né? — O grande guerreiro notou, em resposta ao que Eiro deu de ombros.
— Por que eu deveria? Não fiz nada de errado.
— Você… Você não fez nada errado?! — Jess exclamou alto e então abaixou sua voz quando percebeu que alguns outros aventureiros foram atraídos por ela. — Você matou dúzias de soldados do Reino Sagrado… assim como um nobre… e chama isso de ‘nada’?
— Ei, eu não disse que não fiz nada. Só estou dizendo que não fiz nada errado. Rumia… ele não era uma boa pessoa. Ele queria arrastar as Damas para essa guerra de merda com o Rei dos Monstros, e eu não queria que isso acontecesse, além disso, Rumia me irritou demais. — Eiro comentou. — Então, o quê? Devo me sentir mal por matá-los?
— T-Talvez um pouco…? — Jess sugeriu e Eiro olhou para ela.
— Eles teriam se sentido mal por me matarem? Eu vivo pela minha família. Me fortaleço para ser capaz de protegê-los. É por isso que estou aqui agora também, para que eu consiga fazer com que minhas crianças frequentem a academia e recebam uma boa educação. Não irei hesitar em me livrar de quaisquer ameaças a isso. — Eiro comentou e cruzou as mãos em cima da mesa, enquanto olhava profunda para Krog e Jess. — Isso costumava incluir vocês dois, assim como James, sabiam? — Ele explicou e Krog levantou as sobrancelhas, confuso.
— Costumava?
— Sim, ‘costumava’. Vocês tentaram me matar pois pensaram que eu era igual a outros do meu tipo, mas viram minha família e perceberam que eu não fiz lavagem cerebral nelas, e então saíram. Não contaram a ninguém sobre mim, e você parece ter mudado depois desse encontro. Na minha opinião, isso faz de vocês mais confiáveis do que a maioria dos seres que conheci. — Eiro explicou, mas Krog zombou em resposta.
— E daí? Você quer ser parte do nosso grupo de agora em diante?
— Estava pensando em começar com um treino de luta e igualar vocês, e então veremos o que acontece a seguir. — Eiro disse. — E é claro… gostaria de ter uma palavra ou duas com James. Ele falou algo sobre mim depois daquilo?
Muito confusa e assustada com o que Eiro sugeriu, Jess pensou sobre isso por um instante e então balançou a cabeça.
— Não… na verdade, não, mas o que você quer dizer com nos igualar? Nós somos um grupo de rank B… Somos muito fortes.
— Grupo de rank B… Isso significa que todos vocês são aventureiros de rank C?
— Si… sim, e daí? — Jess questionou, mas Eiro apenas balançou a cabeça.
— Nada, nada. Isso é bastante forte, eu acho. Pedidos de rank C seriam o quê… um pequeno grupo de Orcs? Não é nada do que se gabar.
— Então, por que você fez isso? — Krog questionou, se sentindo insultado com os comentários de Eiro, e o Demônio suspirou em resposta enquanto levantava as mãos para frente e as estalava. De repente, gotas d’água se formaram no meio do ar e se reuniram para formar o corpo de Nelli, enquanto poeira se juntou para formar Gondos.
— Porque posso dizer com confiança que derrotaria vocês com facilidade sem nem precisar confiar nesses dois carinhas. — Eiro explicou. Parecia que Nelli e Gondos chamaram muita atenção dos aventureiros ao redor.
— Poderia não nos usar como prova para defender um argumento? — Nelli pediu para o Demônio, que olhou para ela e deu de ombros.
— Então pare de ser uma prova tão boa para o meu ponto.
— Espíritos? Como você… Como você conseguiu dois Espíritos contratados em um ano? — Jess perguntou. Eiro se levantou da mesa e se virou.
— Estejam aqui amanhã ao meio-dia. Alugaremos uma das maiores salas de treinamento para que eu possa mostrar o que quis dizer. Esta noite virei aqui para falar com James também. Informaram-me de que ele costuma vir aqui para beber à noite.
Krog resmungou baixinho e olhou para as costas de Eiro.
— Uhum. Nós também estaremos aqui, então não ouse se atrasar.
Com isso, Eiro saiu da Guilda dos Aventureiros e subiu nas costas do Cervo, que o seguia. Não demorou muito para que chegassem ao porão mais próximo dali, e com isso na área mais externa da capital. Não havia ninguém ao redor, então tanto Nelli como Gondos olharam para Eiro com curiosidade, esperando uma explicação.
Nelli estava contando para Gondos a história do espaço intermediário, enquanto Eiro começou a falar com Jess e Krog, então ambos ficaram muito curiosos do que exatamente ele iria querer fazer um time com eles. Não parecia algo comum, afinal.
— Sei o que vocês querem perguntar e a resposta é simples. Eu quase morria antes mesmo de lutar contra <O Mundo>. — Eiro disse. — O único motivo para ter sobrevivido foi porque <O Diabo> apareceu. Antes disso, durante a luta com Enka… se Felix não conseguisse roubar o brinco, eu nunca teria conseguido matá-lo. Posso ser forte e vocês dois são uma ajuda imensa, mas vocês dois são parte de mim. O mesmo caso ocorre com Lugo. Nós somos um, e ‘um’ não é suficiente para derrotar cada inimigo. — Eiro explicou.
Nelli permaneceu em silêncio por alguns momentos e depois flutuou até a frente do rosto de Eiro.
— Entendo, isso faz sentido.., mas por que esses caras, de todas as pessoas? Especial James, ele te odeia até o âmago, não é?
— É por isso que penso que vale a pena confiar nele. Ele me odeia mas ainda saiu sem falar outra palavra. Ele estava bravo, pois pensou que eu matei Avalin e, antes disso, tinha motivos para odiar monstros. A maioria das pessoas tem, afinal. Claro, isso não significa que irei deixar ele me pisotear de novo, mas James é o tipo de pessoa que jogaria sua vida fora por seus amigos. Acho que vale a pena tentar. — o Diabrete explicou — antes disso precisamos cuidar daqueles slimes. — Ele adicionou.
— Falando nisso, aquele guerreiro era surpreendente legal, apesar de parecer um babaca. — Nelli comentou, e Gondos reagiu meio surpreso.
— Ele parecia um ‘babaca’? Eu o achei bastante charmoso. — Gondos comentou.
— Charmoso? Que tipo de gosto você tem? — Nelli respondeu com um sorriso irônico. Gondos apenas deu de ombros.
— Ele era bastante forte, não era? É óbvio que ele se esforçou para conseguir um corpo tão belo e tonificado. Uma pessoa determinada não pode ser má, pode?
— Você é louco por músculos, está brincando comigo? — Nelli questionou baixinho, fazendo Eiro suspirar e pegar a garrafa de vidro com o slime.
— De qualquer forma iremos encontrar os Slimes do Pântano. Você disse que pode mudar o corpo de outros slimes no seu até certo ponto, certo? Se precisar de algo, fale agora.
— Vai se foder. — O slime respondeu e Eiro o encarou com um olhar profundo.
— Então, matarei aqueles slimes sem tentar salvar o corpo deles para você. — Eiro comentou e guardou a garrafa de volta na bolsa, embora o núcleo tenha gritado.
— Espere, espere! Está bem! Você precisa de alguma forma dividir as impurezas daqueles slimes e depois posso transformá-los no meu corpo! Mas você não pode fazer isso com os slimes do pântano, consegue?
— Não, não conseguimos. Também temos Nelli e Gondos. Refinamento Espiritual pode fazer muito, sabia? — Eiro comentou — Além disso, não me faça me arrepender de te dar um corpo de novo, escutou? — O Demônio disse e o slime zombou.
—Sim, sim, serei o seu vassalo de confiança depois que me der um corpo e toda essa merda. Quer dizer, você me livrou da minha obsessão por aquele pedaço de merda de Hyjun, então te devo uma. E ter alguém como você me protegendo é muito melhor do que ficar sozinho na natureza.
— Sabe que irei te matar se você se tornar inútil ou me incomodar demais, certo? — O Diabrete ressaltou e o slime permaneceu em silêncio por um tempo.
— Entendi, chefe… — Ele respondeu. Eiro suspirou incomodado e continuou cavalgando Lugo em direção ao portão mais próximo para que pudessem ir até o pântano que ficava perto da cidade.
Não demorou muito para que chegassem ao portão e saíssem de novo da cidade. O Demônio começou a buscar pela área do pântano e achou rapidamente, pois ele tinha um odor muito único.
Eiro desceu das costas de Lugo e procurou por slimes, enquanto fazia Nelli refinar a água lamacenta do pântano. Nelli e Gondos estavam trabalhando juntos no primeiro passo para facilitar a retirada da lama e da água, para que Nelli pudesse se mover para o segundo passo do refinamento.
Assim que a água foi refinada Eiro a transformou em pequenos pedaços de gelo para que conseguisse dispará-los nos slimes do pântano. Eiro escutou o som borbulhante dos movimentos dos slimes e sentiu o cheiro deles misturado com o cheiro do pântano em si. Não demorou muito para que se deparasse com um pequeno grupo de slimes que se esparramavam pelo terreno, misturando-se com a lama;
Na hora, Eiro disparou nos núcleos do slime com a ajuda do gelo e assumiu o controle deles usando Magia de Água, enquanto ambos os Espíritos começaram o processo de refinamento para transformá-los em slimes ‘puros’. Eiro pegou os núcleos deles por conta própria e os colocou em garrafas de vidro para que não se dissolvessem, então prosseguiu para os próximos limes.
Dentro de uma hora, Eiro terminou o pedido três vezes e ainda conseguia sentir slimes por perto.