A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 165

A Virtude do Demônio

Eiro esperou que o recepcionista da Guilda trouxesse o formulário, enquanto tentava o seu melhor para evitar qualquer tipo de atenção. Ele tinha mais do que certeza de que viu Krog e Jess, que também estava sussurrando sobre Eiro, tentando ver se ele era quem pensavam.

Embora as roupas que Eiro vestisse fossem diferentes das que o viram usando antes, eles já viram Lugo antes e ele mal mudou. Apesar disso, agora que Eiro olhou para ele… parecia que Lugo havia engordado um pouco apesar de terem viajado por tanto tempo. Talvez a dieta não fosse uma punição, afinal… Ela acabaria ajudando-o.

— Senhor? — O recepcionista tentou chamar a atenção do Demônio e Eiro se virou para olhá-lo, vendo-o segurando um formulário para enviar mensagens para outras guildas. — Aqui está, preencha todas as informações nos campos necessários. Também preciso do seu cartão da guilda para processar, por favor.

Sem hesitação, o Diabrete colocou a mão na bolsa, fingindo estar retirando seu cartão da guilda, mas na verdade estava retirando-o da sua Tesouraria entregá-las para o recepcionista. Eiro pegou a caneta em cima do balcão e escreveu as informações do destinatário, assim como a mensagem, entregando o formulário para o recepcionista.

Alguns momentos depois o recepcionista olhou para ele um pouco surpreso.

— Oh? Você está enviando uma mensagem para casa, se entendi? Ouvi que houve um incidente muito grande naquela pequena cidade. — Ele comentou e Eiro acenou.

— Sim, eu sei. Foi por isso que saí de lá. Depois de… você sabe o que aconteceu, senti que era perigoso demais para minhas crianças.

— Compreendo, ainda mais em cidades pequenas como aquela, algo desse tipo faz você repensar em tudo, não é? — o recepcionista disse com um sorriso um tanto inapropriado. — Agora, rank G, é isso? Gostaria de aceitar algum pedido também?

— Sim, por favor. Poderia me mostrar os pedidos de exterminação de nível mais alto que posso assumir? — Eiro perguntou. Com um aceno rápido, o recepcionista se aproximou da mesa.

— É claro. Por favor, siga-me. Nas cidades menores esse pode não ser o caso, mas em lugares maiores como este você verá que os pedidos são exibidos em grandes quadros. Eles são distribuídos de acordo com o rank sugerido. Os pedidos de rank G estão aqui. — Ele explicou, apontando para um dos quadros com a maior quantidade de pedidos. Eiro era um aventureiro fazia alguns anos, mas desde então só fez alguns pedidos de coleta e caça de animais, seu rank nunca subiu além do rank G, infelizmente.

Todos esses pedidos eram apenas isso: pedidos para reunir plantas em áreas seguras e matar animais pequenos, como raposas e coelhos.

Como tudo isso era um pouco fácil, Eiro olhou para os pedidos de rank F. Os pedidos de caça ainda consistiam apenas de animais, como caçar lobos ou monstros jovens.

Os pedidos de rank E eram aquelas que começavam a ficar interessantes, pois se tratava de caçar grupos de lobos de uma vez ou lutar contra pequenos grupos de monstros no nível de goblins, mas o que Eiro se interessou foram os pedidos de rank D. A maioria dos pedidos eram sobre coletar ervas raras ou difíceis de conseguir ou exterminar monstros que eram numerosos ou fortes, pelo menos quando comparados a uma pessoa normal.

Eiro esticou o braço e pegou um pedido para caçar Slimes do Pântano, embora o recepcionista tenha o impedido.

— Senhor? Os pedidos de rank G acabam aqui, esse é um pedido de rank D. É muitas vezes mais difícil do que o recomendado para você. — Ele explicou e o Demônio olhou para ele com uma carranca sob sua máscara.

— Mas isso é apenas uma recomendação, certo?

— Sim, mas gostaríamos que levasse as nossas recomendações com seriedade. Se você assumir um pedido acima do seu rank e falhar, no pior caso, sua filiação da Guilda será revogada. Claro, podem ocorrer problemas piores do que isso, um pedido sobre exterminações de monstros pode resultar em ferimentos sérios ou morte.

— Estou ciente. — o Diabrete comentou. — E não me importo. Quero pegar esse pedido.

Com uma carranca profunda, o recepcionista acenou.

— Então, por favor venha conosco, processarei isso da forma correta. — Ele explicou e Eiro o seguiu de volta até o balcão da recepção.

Enquanto o recepcionista preparava tudo, alguém parou atrás do Demônio.

— Olá, nós escutamos tudo isso. — O homem disse. Ele era um pouco mais alto do que Eiro e vestia uma armadura de metal bastante arranhada, além de ter uma espada de metal enorme pendurada no quadril. Atrás dele havia mais dois homens, um deles parecia um arqueiro e o outro um batedor, com duas adagas e uma besta com ele.

— E daí? Deseja que eu te parabenize por ter orelhas? — Eiro perguntou sem pestanejar e o homem o encarou, irritado.

— Não, eu preferiria que você parasse de brincar. Esse é o nosso trabalho, sabia? Não é divertido ver algum tipo de novato levando-o tão levianamente.

Com um suspiro profundo, Eiro respondeu.

— Sou aventureiro há cinco anos e completei 164 pedidos sem falhar nenhum. Podem ter sido apenas pedidos simples de coletar e caçar coelhos ou javalis, mas isso não significa que sou fraco. O lugar em que vivia não necessitava de pedidos de alto nível, por isso não consegui avançar. De forma alguma estou levando isso levianamente, estou apenas confiante em minhas habilidades. — Eiro explicou e o guerreiro olhou surpreso para ele.

— Huh…? Eu… não esperava isso, não vou mentir. Me desculpe por isso, mas deixe te dar um aviso pelo menos. Slimes do Pântano são super corrosivos, irão arruinar qualquer tipo de arma dentro de segundos, mas são muito lentos, então se puder, tentaria levá-los até a floresta. Se você procurar bastante deve conseguir encontrar alguns galhos bons e resistentes e usá-los para destruir os núcleos deles de uma só vez, sem custo algum. — Ele explicou e o Demônio olhou para ele com um pouco de surpresa.

Eiro esperava que ele fosse mais rude do que acabou sendo. Na verdade essa era uma informação muito útil, mesmo que Eiro já soubesse dela.

— Obrigado, manterei isso em mente. Diga, há quanto tempo você está aqui?

Com uma risada, o homem cruzou só braços presunçosa.

— Nascido e criado aqui, cara. Por quê, precisa de um guia?

— Talvez aceite sua oferta algum dia, mas não é por isso que estou perguntando. Há um grupo de aventureiros nesta guilda, dois deles estão aqui nesse momento. Jess, Krog e James. O que você sabe sobre eles?

— Oh, esses caras! Por que você quer saber algo sobre eles? — Ele questionou e Eiro deu de ombros em resposta.

— Velhos conhecidos, mesmo que não estejamos em bons termos. Gostaria de saber como estão no momento.

— Ah, isso é legal da sua parte! Bem, Jess é uma gracinha, mas não sai muito, então não posso dizer muito sobre ela. Rata de biblioteca, maga, recentemente esteve obcecada com algum tipo de socie… socio… dos monstros… sociol…

— Sociologia. Ela está muito interessa em Sociologia dos Monstros e fez os outros dois assumirem muitos pedidos sobre assentamentos de monstros e coisas do tipo. — O arqueiro apontou. — Krog costumava ser muito barulhento e sempre disposto a brigar. Pode não parecer, mas ele é meio bonzinho, como você deve saber. Ele sempre começa lutas com pessoas que não gosta, mas, há algum tempo, esteve tentando… bem, conversar com elas? — Ele explicou ao Diabrete.

— E temos James. — O batedor adicionou. — Ele não mudou quase nada desde que o conhecemos. Um pouco menos melancólico, talvez, mas ele ainda frequenta o bar todas as noites e fica bêbado num nível além da razão.

— Hm, entendo. Estou feliz que estejam bem, pelo menos. — Eiro comentou, embora não tivesse certeza se isso era uma mentira ou não.

Naquela época, quando tudo aconteceu com aquelas caras, ele estava muito furioso com eles, afinal eles tentaram atacar Eiro e as crianças, mas quando Jura apareceu e interrompeu tudo, eles só saíram e nunca enviaram pessoas, ou algo do tipo, para se livrar de Eiro. O Demônio não tinha certeza se deveria matá-los agradecê-los.

Ele não se importava com a primeira parte, apesar de se sentir um pouco em conflito sobre a última opção. Era óbvio que pelo menos Jess e Krog foram influenciados por Eiro. Jess começou a pesquisar sobre sociologia dos monstros para ver se um caso como o de Eiro era possível e Krog começou a se perguntar sobre os motivos que as pessoas poderiam ter em suas ações.

Talvez Eiro devesse tentar falar com eles uma vez para ver se tinha que preocupar. Ele não gostaria que eles revelassem sua identidade como Demônio, afinal.

Eiro esperou por um tempo e recebeu seu cartão de guilda e a folha do pedido, que colocou dentro da sua bolsa e depois dentro da Tesouraria.

— Falarei um pouco com aqueles dois e depois vou embora. Obrigado pelas dicas e foi um prazer conhecer vocês três. Sou Eiro, aliás. — Eiro explicou e o guerreiro sorriu em reposta.

— Meu nome é Donny. O arqueiro aqui é Craig e o batedor é Loyd. Se algum dia precisar de ajuda, nos avise. — Donny disse com um sorriso e Eiro acenou. Ele ficou feliz que esses caras não pareciam dignos de matar. Poderia ser útil ter contatos neste lugar, mesmo que fosse apenas pelas informações que poderiam conseguir.

Após falar com o trio, virou-se e olhou para o Cervo ao seu lado.

— Lugo, venha. — Eiro disse e caminhou até a área de ‘reunião’, onde havia visto Jess e Krog antes. Ele disse para Lugo se deitar no chão perto de uma parede onde Eiro tinha certeza de que ninguém encostaria nele e então foi até a mesa em que os dois estavam sentados.

— Há quanto tempo, vocês dois… — Eiro disse e nervosos, tanto Jess como Krog olharam para o Demônio, que se sentou na mesa com eles.

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