A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 164

A Virtude do Demônio

Eiro caminhou até o cavalariço e o encarou nos olhos.

— Quem te disse para mexer na carruagem? — O Demônio perguntou com um tom claro, fazendo o cavalariço dar um passo para trás e balançar a cabeça.

— N-Ninguém fez isso, foi por curiosidade! — Ele exclamou e Eiro suspirou fundo. Isso era uma mentira, mas Eiro não precisou analisar as mudanças físicas no garoto para perceber isso.

— Vou te dar mais uma chance. — Eiro disse. — Diga-me: quem te disse para mexer nas minhas coisas na carruagem? — O Diabrete se aproximou mais um passo, com os dois Espíritos flutuando sobre seus ombros. O cavalariço olhou ao redor e sentiu um olhar profundo. De nervosismo, o garoto quebrou.

— L-Lorde Birdrick! Foi o Lorde Birdrick! Me… me desculpa, eu não tive escolha, eu… — Ele admitiu com medo e Eiro olhou para Solomon.

— Birdrick? Deixa-me adivinhar, é aquele tal de Jordan, certo?

— Sim. — Solomon respondeu. — Jordan Arsit Birdrick, meu conselheiro real. Ele é um bom homem, mas sua postura é diferente da minha e você não pode negar que há um motivo para isso, pode? Para muitos que perderam seus amigos ou famílias para o Rei dos Monstros, seu professor foi alguém que basicamente permitiu a ascensão do Rei dos Monstros. — Solomon explicou e Eiro concordou.

Ele achava que fazia sentido, mesmo que ainda fosse irritante para caralho.

— Ele te disse para procurar por algo em específico? — Eiro questionou, olhando para o cavalariço.

— Eu deveria encontrar qualquer coisa que provasse quão maligno você é. Não importa o quê… — O menino respondeu e Eiro coçou o seu pescoço.

— Hm… Não há nada incriminador ali, na verdade. Algumas armas, um pouco de comida… O comum. — Eiro comentou e o cavalariço assentiu.

— Ent-Então informarei o L-Lorde Birdrick agora mesmo! — O garoto exclamou e Eiro acenou.

— Bom, faça isso. — O Demônio disse e deixou o cavalariço ir, enquanto Solomon olhava para ele com uma carranca profunda.

— Por que você o deixou ir? Tal ação não pode ser permitida, não importa quem seja. — O Rei comentou e Eiro apenas suspirou em resposta.

— Não, mas não é culpa desse garoto. Olhe quão aterrorizado ele estava. Se você quiser punir alguém, então puna esse tal de Jordan, mas não esse garoto que foi forçado a trabalhar para ele. — Eiro comentou e Solomon levantou as sobrancelhas, surpreso.

— Você ainda tem um ponto fraco por crianças, não é?

— Crianças e aqueles forçados a trabalhar. — Eiro comentou enquanto olhava para Gondos com um sorriso pequeno no rosto. — Afinal, vivenciei isso por conta própria.

Solomon olhou mais uma vez confuso para Eiro enquanto o Diabrete dizia às crianças para pegarem algumas roupas da carruagem, junto ao que precisavam para praticarem suas habilidades. —

Forçado a trabalhar? Eiro, você foi… — O Rei questionou e Eiro olhou para ele, dando de ombros.

— Se você quer perguntar se eu fui um escravo antes, então sim. Quero dizer, foi isso o que me trouxe aqui, de outro modo eu teria morrido durante o ataque da horda de monstros há sete ou oito anos.

— Horda de Monstros…? Espera, você estava no Império Sagrado durante aqueles ataques?

— Sim, eu estava. Vi a bola de fogo imensa que <O Sol> disparou algumas vezes. — Eiro explicou. — E, logo depois consegui escapar da escravidão e conheci todas essas crianças. — O Demônio disse, um tanto nostálgico.

Após um pouco de silêncio, Solomon olhou para Eiro com curiosidade.

— Eiro… você gostaria de ter algumas lutas simuladas em público contra alguns guardas reais?

Surpreso, Eiro olhou para ele com os braços cruzados.

— O quê? Por que eu iria querer isso?

— É parte da ideia que tive para que talvez Jordan confie em você. Como eu disse, ele é um bom homem e um estrategista ainda melhor. Claro que o punirei por causa disso, mas não quero perdê-lo. Ele é alguém que posso chamar de amigo, afinal. — Solomon explicou. Após refletir, Eiro olhou para frente em contemplação e assentiu.

— Ótimo. Sob algumas condições, claro. Primeiro, devo ter permissão para usar minha máscara, capa e luvas, como estou agora. Segundo, me permita escolher com quem eu luto. Terceiro, as lutas devem acontecer um dia antes de podermos nos mudar para a mansão. — Eiro disse e o Rei não precisou pensar muito.

— É claro, a primeira e a terceira soam razoáveis, mas sobre a segunda, não tenho certeza se posso permitir. Parte do meu plano é te deixar lutar contra pessoas muito específicas, então isso seria contraprodutivo.

— Ótimo. Confiarei no seu julgamento. — Eiro apontou e olhou para o fantoche. — Solomon, está bem se levarmos ele para o castelo, certo? Quero que ele proteja minhas crianças enquanto eu estiver fora.

— Fora? Onde exata você deseja ir? — Rudy perguntou surpreso. — Nós acabamos de chegar…

— Ah, eu quero ir até a Guilda e ver se tenho alguma mensagem de Tom e se consigo encontrar algo interessante para lutar e subir de nível. — Eiro explicou. — Um pouco de treinamento de vez em quando não custa nada, certo? Também, preciso conseguir as coisas para… — Eiro começou, olhando para Solomon… — Para a cabeça de Solomon. Aquela coisa, sabe?

— Ah… Certo. Você estará de volta pela noite, certo? — Rudy questionou. O Diabrete assentiu sem hesitar.

— Sim, é claro, não se preocupe com isso. Ajudarei vocês a levarem tudo para dentro e sairei um pouco. — Eiro disse e pegou algumas das mochilas mais pesadas de Clementine e Sammy. — Lugo, acorde, seu preguiçoso, sairemos daqui a pouco.

Com um resmungo alto, o Cervo fez como pedido e se esticou enquanto se levantava, olhando para Eiro com uma expressão irritada.

— Ei, não me olhe assim. Você estava aqui e ainda deixou o garoto entrar na carruagem. A partir de agora, você está de dieta. — O Diabrete disse com um olhar penetrante e Lugo respondeu com um berro alto de desaprovação.

— Fique quieto e espere aqui.

Ele seguiu Solomon e Charles até o castelo e ajudou as crianças a se estabelecerem em seus quartos. Depois disso certificou-se de que Leon estava se sentindo bem o suficiente para que conseguisse dormir um pouco se precisasse, já que não queria que ele entrasse em pânico e perdesse o controle sobre suas habilidades únicas, além disso, Eiro garantiu que Avalin ficasse perto de Sammy e Clementine o tempo todo. Algumas vezes, ela tentava tirar as lentes de contato assim que começava a se sentir desconfortável com elas.

— Voltarei em breve, o manequim ficará aqui, se algo acontecer, vão até a janela e gritem pelo meu nome, tentarei prestar atenção especial nesse lugar. — Eiro disse para eles e depois saiu pela porta. Ele caminhou pelo corredor, chegando à porta que levava para os estábulos. Lá, Lugo o esperava. Eiro subiu nas costas do Cervo e o conduziu em direção aos portões do castelo, onde os guardas o deixaram sair para as ruas.

Parecia que as pessoas que estavam o perseguindo antes sumiram, então Eiro escolheu seguir em direção ao primeiro lugar que queria: a Guilda de Aventureiros.

Ele não tinha certeza de onde ela ficava, mas não parecia difícil descobrir, apesar de quão alto era esse lugar na cidade. Enquanto cavalgava conseguiu encontrar algumas lojas bem interessantes, que podiam ter os ingredientes que precisavam para a poção.

Eiro já conseguia escutar o núcleo do slime de dentro da bolsa na garrafa, mas o Demônio escolheu ignorá-lo. Ele disse uma lista de coisas que precisava antes, então ele tinha tudo isso em mente.

Na verdade, havia algumas coisas das quais ele nunca escutou antes, então Eiro deveria ir até alguma livraria ou farmácia mais tarde, para ver se poderia encontrar informações sobre essas ervas ou monstros, ou o que quer que fossem.

Por hora o Demônio só queria contatar o homem em quem ele tinha certeza de que podia confiar: o recepcionista da Guilda dos Aventureiros, Tom. Ele não revelou nenhuma informação sobre Eiro, depois que massacrou uma dúzia de pessoas na frente de toda a cidade, então ele tinha que agradecê-lo de algum modo.

Eiro logo encontrou a Guilda dos Aventureiros local e foi com Lugo até lá. O demônio desceu das costas de Lugo e entrou pela grande porta. Na verdade, ela era grande o suficiente para que Lugo passasse por elas e não era o tipo de lugar em que o Diabrete gostaria de deixar seu familiar sozinho.

Especialmente depois de descobrir que Lugo não era um simples Cervo, mas algo muito diferente, mesmo que não conseguisse dizer o que era.

Eiro empurrou as portas e entrou. Era bastante alto no interior, afinal a maioria das Guildas de Aventureiros servia também como um ponto de encontro para eles, então este lugar era ao mesmo tempo a Guilda, um bar e um restaurante.

O demônio entrou pelo salão e caminhou até um recepcionista que não parecia muito ocupado.

— Olá, como posso ajudar hoje? — O jovem atrás do balcão perguntou com um sorriso. — Aliás, apenas para certificar, mas esse Cervo é seu familiar? Se não, terei que pedir para que ele saia. — Ele explicou e Eiro colocou a mão na testa de Lugo, fazendo a marca de familiar aparecer com um brilho.

— Sim, ele é. — Eiro respondeu. — E eu gostaria de enviar uma mensagem para outra guilda. Isso é possível, certo?

— Claro que é. Volto em breve com o formulário para preencher as informações do destinatário da Guilda em questão. — O funcionário disse com um sorriso e Eiro acenou enquanto olhava ao redor. Parecia que ele havia atraído bastante atenção, em especial daquelas que o perseguiram antes.

Mas havia mais um problema no momento. Havia duas pessoas que Eiro não via há um tempo… Krog e Jess, os companheiros de James.

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