
Volume 3 - Capítulo 161
A Virtude do Demônio
— Queria criar caos…? — Solomon disse com uma carranca preocupada, enquanto olhava para a mesa à sua frente. — Isso… eu conheci aquele professor, falei com ele muitas vezes sobre aquele incidente. Ele é um homem inteligente e de natureza gentil. Não consigo imaginar tal pessoa agindo de forma tão cruel. — Ele comentou e Eiro suspirou.
— Você não é um Rei comum, não é? — Ele murmurou. — E não me entenda errado, gosto disso em você. Você está disposto a jogar fora sua própria dignidade como um governante para se ajoelhar no chão e implorar, com a mínima esperança de ajudar sua criança a se recuperar e você confiou no aprendiz do ‘maior traidor que esse mundo já viu’, para fazer isso. Na minha opinião, isso te torna uma pessoa em que posso confiar. — Eiro explicou.
Com uma expressão confusa, Solomon olhou para Eiro e estava para falar, mas o Demônio continuou.
— Ao mesmo tempo, essa ingenuidade parece um pouco estranha. Você não pode decidir como uma pessoa é com um único olhar. — Eiro disse, olhando para Felix e chamando sua atenção. — Venha aqui. — O Diabrete disse com sinais de mão, enquanto pronunciava as palavras também. Nervoso, Felix assentiu, levantou-se e caminhou até a escrivaninha onde Solomon e Eiro estavam sentados.
— Você o encontrou antes, certo? Ele estava na loja de Armodeus naquela vez. Ele não é uma das minhas crianças, mas sim filho de Enka Markos, o antigo Guerreiro Chefe de Argberg. — Eiro disse sem rodeios. — Por fora, Enka era um cara legal que foi conosco para nos ajudar, mas quando quisemos sair da cidade, ele tentou me incriminar e me perseguiu pela metade do país. No fim, tive que matá-lo. Logo antes disso acontecer, entretanto… — Eiro disse e abaixou o capuz na cabeça de Feliz e pediu para ele mostrar as orelhas para Solomon. — Ele aleijou seu próprio filho. Pelo que vejo, não há chance de recuperação.
Solomon encarou Felix e se levantou devagar enquanto olhava para os ouvidos do garoto.
— Isso… isso é algo que um pai fez à sua própria carne e sangue? — O Rei murmurou.
— Isso mesmo. Então o que te faz pensar que uma pessoa horrível não pode ter se infiltrado na academia? — Eiro questionou e Solomon caiu na cadeira com uma expressão desesperada.
— Mas… mas não… ele é uma boa pessoa… Não há como ele…
Com uma carranca, Eiro encarou o rei e se levantou. Ele caminhou ao redor da mesa e pressionou as mãos nos ombros de Solomon.
— Nelli. — O Diabrete disse enquanto olhava para ela e o Espírito compreendeu o que ele queria. Ela flutuou até as costas de Eiro e deslizou para baixo das roupas dele, fundindo-se com ele.
[Seu corpo se fundiu com o da Náiade, Nellissa Arigata.]
Enquanto a água fria envolvia sua pele, o Demônio encarou profunda o rei. Ele sentiu seu cheiro, olhou em seus olhos e sentiu sua pele.
— Hm… Então é isso… — Eiro sussurrou, enquanto Nelli saía do seu corpo. — Gondos, me dê a garrafa que está na bolsa. Você sabe qual. — Eiro disse e o Golem flutuou até a bolsa que estava no chão, ao lado da escrivaninha, pegando a garrafa com o núcleo do slime.
— O que está acontecendo? — Solomon questionou e Eiro olhou para o Rei com uma leve careta sob sua máscara. — Parece que você foi manipulado. — O Demônio disse. — Há um acúmulo de algum tipo de magia na sua cabeça. Parece semelhante a um selo, mas preciso ter certeza. Se esse for o caso, então suas memórias foram manipuladas de alguma forma. Essa reação que você teve agora é como quando você percebe algo que não deveria conseguir.
— Minhas memórias estão seladas? O que você está dizendo? Como isso pode ser possível? Eu-
— Recorda-se do que aconteceu? Tente de novo. — Eiro interrompeu enquanto removia a rolha da garrafa e derramava o conteúdo em sua mão, revelando o núcleo do slime congelado.
— Ei, seu pedaço de merda! Onde diabos nós estamos? Eu vou te matar, seu filho da-
— Me desculpe por isso, ele perdeu o selo que continha sua monstruosidade. Ele está um pouco… — Eiro começou, embora não tenha conseguido pensar na palavra certa e os outros decidiram completar.
— Irritado? — Rudy ofereceu.
— Ah, ou ‘agitado’? — Arc perguntou e Rudy o encarou com uma carranca.
— Isso não significa literal a mesma coisa?
— Nem, o meu soa mais sofisticado. — O garoto respondeu e Eiro suspirou enquanto balançava a cabeça.
— Não, acho que a palavra que estava procurando era ‘vagabundo’, mas essas também são boas. Desculpa, de qualquer forma… Ele foi criado em um templo especializado em artes de selamento, então deve conseguir dizer se isso é um selo ou não.
— Oh? Você quer que eu te ajude, seu bastardo? O que eu recebo em retorno? Se eu puder sugerir, então você poderia rastejar na minha frente como um cachorro, seu vira-lata! — O slime gritou e Eiro apenas o apertou com mais força.
— Se você ajudar, eu não te mato. Isso é suficiente para você? — Eiro respondeu e o núcleo do slime permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Então? Vai me deixar analisá-lo ou não? — O núcleo perguntou, tão rude como sempre. Eiro não sabia por quê, mas o monge bem-comportado, mesmo que fosse um canibal e meio rude, que encontrou há um tempo havia declinado para esse pedaço de merda, depois que o selo ‘começou a enfraquecer’ após o templo ser destruído, mas de qualquer forma, isso tornaria mais fácil e satisfatório matá-lo.
Eiro segurou o núcleo do slime na frente do rosto confuso de Solomon, antes que alguns círculos mágicos da arte de selamento aparecessem na frente do núcleo. Alguns momentos depois, o slime resmungou irritado.
— É, definitivamente é um selo. Quer que eu o remova? — O núcleo do slime sugeriu e Eiro olhou para Solomon.
— Então? Quer descobrir quem está por trás do ataque ou não?
Sem hesitar, o Rei acenou a cabeça.
— Claro que quero! Por favor, revele essas memórias! — Solomon exclamou, segurando os braços da cadeira em preparação e o slime respondeu.
— Então, precisaremos do fígado de uma cobra do rio, saliva de um morcego-vampiro gigante, um pouco de agrião-vermelho, um pouco — Ele começou e Eiro olhou para ele.
— O que você está fazendo? — Ele questionou. — Apenas desfaça o selo agora.
— Eh? Você é idiota? — O núcleo perguntou em resposta. — Estou te dizendo do que preciso para desfazer o selo.
— … Explique-se… — Eiro disse e o núcleo de slime começou a escorrer pelas aberturas entre os dedos do Demônio, rosnando irritado.
— Selar e tirar um selo são coisas difíceis, sabia? Nem todos conseguem acenar as mãos e desfazer qualquer selo. A única razão para Hyjun conseguir fazer isso era porque ele conseguia controlar o miasma do <O Mundo>, mas você tinha que foder com tudo! — O slime exclamou e Eiro encarou a parede na sua frente com uma expressão vazia…
— Artes de selamento são artes que não dependem apenas de magia! É uma combinação de artes marciais e magia! Como alquimia, seu idiota.
— Ótimo… Apenas me diga tudo o que você precisa e eu conseguirei para você. — Eiro disse em um tom irritado. Ele pensou que ela era como qualquer outra escola de magia, mas aparente as artes de selamento eram mais parecidas com Alquimia do que com magia pura.
— O quê… Eiro, o que esse núcleo acabou de dizer? <O Mundo>? Tipo, <O Mundo>? — Solomon questionou com uma expressão assustada e Eiro assentiu.
— Sim, aquele <O Mundo>. O Monstro Nobre.
— Você está dizendo que ele estava selado em algum lugar e você o liberou…? — O Rei perguntou e Eiro coçou o pescoço em resposta.
— Sim, tecnicamente sim. — Eiro comentou e Solomon o encarou com medo.
— <O Mundo> é um dos monstros mais perigosos entre os Nobres! Afastem-se, preciso avisar a todos! — Solomon exclamou e se levantou, embora tenha parado com um certo movimento que Eiro fez. O movimento de retirar algo de uma mesa.
E quando Eiro fez isso, uma grande carta dourada apareceu em sua mão, exibindo um planeta de forma simples.
— Você não precisa se preocupar com ele mais. — Eiro apontou e, mais uma vez, Solomon caiu na cadeira em que estava sentado.
— Você… você matou <O Mundo>…? — O Rei questionou e para se livrar do desconforto que estava sentindo, Eiro guardou a Carta de novo enquanto assentia.
— Sim. Então não entre em pânico. Eu cometi um erro, mas já o compensei.
— Você compensou? Como diabos você compensou por destruir o templo?
— Apenas cale a boca. — Eiro rosnou, enquanto colocava o núcleo do slime de volta na garrafa de vidro e pressionava a rolha nela.
— Desculpa por isso. Prepararei tudo para que possamos desfazer o selo em suas memórias. Por favor, mantenha a coisa sobre <O Mundo> em segredo, certo? Oh e o fato de eu ter me fundido com meu espírito contratado, isso também seria bom. — Eiro disse e deu um passo para trás enquanto olhava para a expressão de Solomon.
— Ei… Eiro… — O Rei murmurou e encarou a figura na sua frente. — No próximo verão, haverá um torneio nesta cidade… um torneio para procurar a pessoa mais forte deste país para acompanhar o herói em sua missão de matar o Rei dos Monstros. Por favor, participe deste torneio… Eu te darei tudo o que você quiser, então, por favor. Você já matou um nobre, você definitiva será um poder incrível nessa guerra!
Eiro olhou para ele com uma expressão em branco. Ele definitiva não esperava receber um pedido desses. Não queria se envolver com coisas como essa e não era forte o suficiente para lutar contra Nobres, mas por outro lado uma posição dessas daria a Eiro a oportunidade de encontrar aqueles que poderiam ajudá-lo a descobrir o que ele era de verdade.
Bem, ele era um ser criado pelo Rei dos Monstros, mas tinha quase certeza de que era mais do que isso, pois duvidava que todos os seres criados tivessem algo como um sistema roubado. Se todos pudessem distribuir seus pontos como Eiro conseguia, então isso os tornaria uma ameaça muito maior do que real eram.
Mas havia razão para ele não poder aceitar isso. Ou melhor, duas razões.
— Não posso. Não abandonarei minhas crianças para ir em uma missão suicida. Não sei se sou a pessoa mais forte neste país, mas no caso de ser… — Eiro disse e se virou para Leon e Avalin, sentados nos sofás. — Quero ver esses dois crescerem. Me desculpe. — Eiro disse, mas, sem hesitar, Solomon pulou.
— Claro que sim! E você consegue fazer isso! O herói atual tem mais ou menos a mesma idade que esses dois e a missão não começa até que ele se torne um adulto! Então, se você puder se tornar um companheiro do Herói, não precisará se preocupar em não os ver crescer! — O Rei explicou e Eiro encarou com uma carranca.
— … O quê…?