A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 149

A Virtude do Demônio

— Hum… — Eiro cantarolou enquanto olhava para frente. — Acho que a sua raça é chamada de ‘Slime’? Julgando pelo que li antes… você deveria ser um Slime Sem Forma? — O Demônio perguntou e com uma voz que soou como se alguém falasse com água na boca, borbulhando, o ‘monge’ respondeu.

— Como você-

— Como eu sabia? Você tem o cheiro de um monstro. Apesar disso, sua ‘Concha’ anterior não tinha nada de ‘humano’. Sem sangue, sem coração ou qualquer órgão vital. Você era assim dentro daquela concha.

Assim que Eiro falou, o slime sem forma vazou pelo fundo das roupas que vestia, arremessando-as na direção de Eiro. Enquanto fazia isso, partes do seu corpo se transformaram em lâminas afiadas que deveria ferir o Demônio, mas como tinha o Golem Gondos, Eiro não tinha com o que se preocupar, pois sempre que algo tentava acertá-lo uma camada de rochas aparecia na frente do peito de Eiro e bloqueava o ataque.

Bem, Eiro teria desviado com facilidade, mas isso faria o slime pensar que estava pressionando Eiro ou algo do gênero. O Diabrete só queria mostrar a diferença avassaladora entre eles.

— Fica bastante frio nessas áreas, não é? Deve ser bastante difícil para slimes como você. — Eiro comentou com uma risada enquanto acenava a mão para o lado e controlava a água que Nelli preparou para ele, fazendo-a se transformar em pequenas gotas que flutuavam no ar, o que foi muito fácil de fazer usando Magia de Vento.

Eiro aqueceu imensa essa pequena nuvem de água, até que só estivesse segurando vapor.

— Deixe-me te aquecer um pouco. — O Demônio adicionou, fazendo o seu melhor para usar o vapor como um meio de aquecer o corpo do slime ao combinar sua Magia de Água e a de Fogo para gerar temperaturas altas ao redor do corpo dele.

Isso parecia fazê-lo estremecer ainda mais, o que o fez atacar ainda mais rápido até que teve que se afastar por um tempo. Parecia que mudar de forma tanto assim era muito exaustivo para a mana dele.

— Oh, desculpa, você não gosta de calor? — Eiro perguntou apologeticamente, respirando fundo. — Eu compenso. — Ele sugeriu, expelindo ar frio pela boca ao combinar Magia de Vento com Magia de Gelo. O vapor esfriou muito e se tornou uma névoa espessa e densa que Eiro reuniu ao redor do corpo do slime.

Eiro sabia que seres sem órgãos sensoriais, como os slimes, usavam outros métodos para ver o mundo, algo como percepção mágica. Era uma versão muito inferior ao que os Espíritos usavam para ver a mana ao redor.

O vapor que foi criado por meio de magia já era ofuscante o suficiente para o slime sem forma, mas isso ficou ainda pior agora, além disso, seu corpo começou a congelar. O slime tinha que ser cauteloso para não-

— Aqui vamos nós. — Eiro disse com uma expressão feliz enquanto empurrava suas mãos até o centro do corpo do slime, segurando uma garrafa. O corpo de um slime era altamente corrosivo a qualquer substância, mas como o foco do slime sem forma estava em controlar sua forma física e sua inteligência, esse não era o caso. Era um pouco mais corrosivo do que o ácido estomacal de um humano. Só se tornaria um problema se ficasse mergulhado nele por um tempo.

Como Eiro não planejava isso, ele conseguiu executar seu plano com facilidade e prendeu o núcleo do slime dentro da pequena garrafa de vidro. Sem seu núcleo, que era o que controlava a massa do slime que agia como seu corpo, a massa caiu no chão. Como era tecnicamente um líquido… foi recolhido por Eiro e congelado para que conseguisse guardá-lo.

— Isso… — Sammy murmurou. — … era um monstro…? — Ela questionou, e Eiro olhou para ela com uma carranca .

— Sim, era. E eu acho que nós precisamos conversar. De preferência você deve recuperar sua habilidade de coagir outros usando sua voz. — O Diabrete virou o rosto enquanto se sentava em uma das rochas ao lado do caminho, derrubando o bloco do slime congelado no chão e segurando a garrava com o seu núcleo. — Por que você acha que eu mataria uma pessoa aleatória que parece querer nos ajudar? — Eiro questionou, mas a jovem continuou encarando o chão.

— Eu… eu não…

— É por causa do que aconteceu naquela cidade do lago? Ou apenas porque eu sou um monstro? — O Demônio questionou e Sammy levantou a cabeça.

— Não, claro que não! Não é porque você é um monstro, não me importo com quem ou o que você seja! Mas o que você espera que eu pense quando faz tais insinuações?! Eu não sabia que ele era um monstro e você apenas me disse ‘irei machucá-lo depois’! — Sammy exclamou e Eiro olhou para o chão. Ela tinha um argumento válido, talvez ele devesse escolher suas palavras com mais consideração no futuro.

— Entendo. — Eiro murmurou. Ele ainda estava um pouco irritado com o fato de que Sammy não confiava nele a ponto de achar que ele mataria uma pessoa aleatória sem motivo algum. Apesar de fazer mais sentido que ela fosse mais receptiva a Eiro matar monstros, já que a maioria deles eram seres horríveis que viviam para matar.

— Me desculpe por isso, então. Tentarei parar de fazer essas coisas que fazem você pensar que eu recorreria a um massacre fútil e aleatório. — Eiro comentou, levantando-se enquanto segurava a massa de gelo. — Só tire uma pausa por enquanto, continuaremos daqui a pouco. Terei uma conversinha com esse cara aqui. — O Diabrete explicou e se afastou de Sammy e Leon, apesar de se certificar de que ainda conseguia escutá-los e sentir o cheiro deles. Na verdade, isso foi algo bem difícil de se fazer agora, pois os seus sentidos ainda estavam entorpecidos com a pressão emitida pelo monstro selado.

Sammy apenas pressionou seu rosto em suas mãos, amargurada, depois que Eiro saiu. Afinal, foi uma ‘luta’ bastante desagradável. O Diabrete saiu depois de escutar o que Sammy tinha para dizer. Ele pensou que ela estava certa, mas ainda se sentia mal sabendo que Sammy não confiava mais tanto nele.

— Problemas com mulheres, hein? Sabia, pode não parecer, mas eu tenho muita experiência com todos os gêneros! Posso te ajudar com essa briguinha de namorados! — Uma voz veio de dentro da garrafa. Eiro não teria sido capaz de escutar se não fosse pelos seus sentidos aguçados.

— Ela é minha filha, seu pedaço de merda nojento. — Eiro encarou e logo sentiu a garrafa tremer leve.

— Hah! Filha?! Não me faça rir, ela é uma garota humana, você é um demônio! Que tipo de malu-

— Ela não é minha filha de sangue, mas eu a criei desde que tinha sete anos. E agora para de me irritar com essa merda ou eu te mato. Percebe que não seria algo difícil de se fazer no momento, certo?

— … Certo… — O núcleo do slime respondeu baixinho. Eiro olhou para frente e suspirou.

— Me diga, por que um Slime Sem Forma está nos guiando por essa montanha? Principalmente depois que você desceu para ‘comer’? — Ele questionou. — E, mais importante, por que você não é afetado pela pressão dessa criatura?

— Bem, nunca menti para você, então tire suas próprias conclusões! — O núcleo exclamou e Eiro acenou a cabeça, reflexivo. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, tentando pensar em uma conclusão adequada, esfregando o queixo.

— Este templo é feito de monstros em vez de pessoas. Você é um monstro que nasceu e cresceu em direção à raça que é agora, mas desceu aqui para comer uma pessoa. Embora eu não ache que isso seja algo normal, desde que não havia nenhum resquício de sangue na cidade, e ninguém parecia preocupado com o fato de haver um templo de monstro aqui. Duvido que as pessoas na vila saibam sobre isso. — Eiro sugeriu e notou que o núcleo do slime permaneceu em silêncio por um tempo.

— Bom palpite… — Ele respondeu e Eiro riu um pouco, segurando a garrafa com mais força. — Entendo. Então, há monstros lá em cima, hein? Para ser sincero, isso torna tudo mais problemático. — Eiro comentou

 Considerando as habilidades de Leon, todos lá ficariam loucos, mas Eiro não se importava muito, contanto que os três conseguissem voltar assim que possível.

— Então, não há motivos para se preocupar. Bem, veremos o que está acontecendo lá. Não é como se eu pudesse confiar em você, afinal. — O Diabrete apontou, mas o núcleo na garrafa começou a tremer em resposta.

— Não ouse colocar o seu pé no templo antigo, seu pedaço demoníaco de- — O núcleo do slime gritou o mais alto que conseguia, criando pressão suficiente para quase soltar a rolha da garrafa, mas Eiro tirou uma pausa disso tudo, até que Leon e Sammy estivessem prontos para continuar.

Demorou apenas mais cinco ou dez minutos para isso. Com Leon em seus braços, Sammy foi até Eiro, que pegou o garotinho para ajudá-lo a subir a montanha. Em sua outra mão, ele carregava a esfera de gelo, enquanto Nelli carregava a garrafa com o núcleo do slime.

Pelas próximas três horas, continuaram subindo a montanha, tiraram mais uma pausa e continuaram depois, até que o caminho de terra estreito fosse substituído por um longo conjunto de escadas. E no fim dela Eiro conseguiu ver o templo em questão.

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