
Volume 3 - Capítulo 148
A Virtude do Demônio
— Oh? — Eiro perguntou enquanto encarava o monge, que sorriu para o Demônio e acenou com a cabeça.
— Sim, é claro. Não há razão para não guiar viajantes se eles precisarem. — O monge explicou e Eiro deu de ombros.
— Ótimo. Acho que se precisarmos aceitaremos sua ajuda. — Eiro respondeu, o monge assentiu e começou a mostrar ao grupo o caminho para a única pousada nessa pequena vila.
Durante o caminho, Arc olhou para Eiro, aparente um pouco preocupado, o que era inesperado.
— Você tem certeza de que essa é uma boa ideia? Não temos ideia de quem é ele e você não acabou de dizer que há algo bem forte selado aqui? Não é?
— Arc, não se preocupe. — Eiro disse com um leve sorriso sob sua máscara e continuou olhando para frente enquanto seguiam o monge. Não demorou muito para chegarem à pousada e Eiro entrou para que pudesse olhar pelo quarto e pelo local nos estábulos.
Então ajudou Arc e Clementine a levar a carruagem para o fundo da pousada e os instruiu sobre o que deveriam fazer em caso de emergência, mesmo que fosse a centésima vez que ele disse a mesma coisa para elas.
— Nós sabemos, agora se apressem. Não acho que devemos esperar tanto com esses dois, certo? — Rudy comentou com uma leve carranca e Eiro assentiu enquanto pegava Leon do chão e o segurava em seus braços.
— Tenha cuidado enquanto nós estamos fora, certo? — Eiro disse e os outros assentiram.
Assim que o Diabrete se virou ele viu Sammy parada na porta, esperando nervosa para subir a montanha, enquanto caminhavam em direção ao monge que esperava na rua.
Assim que estavam para caminhar até ele, em uma voz sussurrante Eiro disse algo para Sammy que a surpreendeu.
— Quando eu disser, esconda imediatamente de Leon o que irei fazer com aquele cara, por favor. — Na verdade, foi além do choque, já que ela não entendia os motivos para Eiro querer fazer algo desse tipo, mas ainda assim Sammy tentou esconder o choque que sentia, afinal tinha que haver um motivo para ele agir desse modo, certo?
— Estão prontos para ir? — O monge perguntou e Eiro confirmou.
— Claro. Lidere o caminho. — O Demônio disse.
E assim, seguiram o monge em direção aos portões e passaram por lá. Uma onda de pressão inundou o corpo de Eiro assim que fizeram isso, entretanto, até Sammy e Leon pareciam ser afetados por isso.
— É bastante opressivo quando você entra aqui pela primeira vez, não é? — O monge questionou com uma risada e Eiro respondeu com uma risada também.
— Uhum, de fato é. Um pouco enjoativo até.
— Oh, então você deve ter um status de percepção muito alto. — Com uma expressão surpreendente agradável, o monge virou a cabeça para Eiro. — E são estes dois que precisam da nossa ajuda? — Ele perguntou a seguir. Com uma carranca e um sorriso amargo, Sammy olhou de volta para o monge.
— Sim, temos algo que precisa ser desbloqueado. — Ela explicou e nem por um único momento Eiro tirou os olhos do monge para ver sua reação.
— Então você está no lugar certo, senhorita. O Alto Sacerdote do nosso templo é um especialista quando se trata de selos. — Ele explicou com um sorriso enquanto todos começavam a subir a ladeira, devagar mas sem parar.
Eiro estava um pouco nervoso por estar ali. A pressão constante vinda do ser que estava selado na montanha estava nublando seus sentidos. Talvez só estivesse nublado em comparação a antes, claro. Parecia que ele ainda era capaz de ver, escutar, cheirar e sentir as coisas muito bem pela maior parte. Só que não tão bem como Eiro havia se acostumado.
Mas isso não importava muito desde que ele continuou com seu foco total no monge, sem um único momento de hesitação. Ele sabia o que o monge era de verdade, afinal.
De qualquer modo, por ora Eiro imaginou que poderia ser uma boa ideia conseguir o máximo de informação possível desse ‘homem’.
— Consegue nos dizer que tipo de ser está selado aqui? — Eiro perguntou, já que estava de fato curioso e o monge olhou de leve para ele e balançou a cabeça.
— Desculpa, não posso fazer isso. — Ele explicou e Eiro levantou as sobrancelhas em suspeita.
— Por que não? É algo que precisa permanecer escondido ou algo do tipo? — Ele questionou, mas novamente o monge olhou para ele e negou com a cabeça.
— Não, não, não é por causa disso. Não posso te dizer porque eu não sei. Só o Alto Sacerdote sabe o que está selado aqui. Nós sabemos que é algo que nunca pode ser permitido vagar livre por aí.
De alguma forma isso deixou Eiro ainda mais atencioso… e curioso. Ele queria muito saber que tipo de criatura era. Quem sabia talvez Eiro poderia de alguma maneira convencer o Alto Sacerdote a contar para ele? Dependendo de como a situação se desenrolasse, Sammy poderia ser capaz de… ‘sugerir’ para ele. Embora isso fosse uma péssima lição. Ela não deveria usar sua habilidade tão livremente, sem restrições.
— Entendo. — Eiro respondeu e então pensou em mais uma informação que gostaria de saber. — Então pode nos contar sobre o templo em si? O que vocês fazem aqui, apenas se sentam e se certificam de que o selo não seja aberto?
Com uma leve risada, o monge balançou a cabeça.
— Claro que não, o templo existe há mais tempo do que esse ser está selado aqui. Nós estudamos uma antiga arte de selamento desenvolvida neste templo e muitos monges criados aqui saem para o mundo para derrotar espíritos ou outros seres fortes e perigosos, ao selá-los em locais seguros até que venha aquele que poderia destruir o que está selado. — O monge explicou para ele.
— Arte de selamento, hein? Há alguma chance de um forasteiro aprendê-la? — O Diabrete perguntou mas o monge desviou os olhos para Eiro, revelando o tipo de expressão que Eiro queria ver. Era algo pequeno, mas a expressão do monge mudou por uma fração de segundos. Seus olhos se contraíram, seus lábios tremeram e suas pupilas dilataram um pouco, devido ao que Eiro só conseguia assumir ser fúria.
Mas ele conseguiu se recompor rápido e responder com um sorriso leve.
— Receio que não. Estamos felizes em ajudar, mas se deseja aprender nossas artes de selo então precisaria dedicar toda a sua vida a isso. Eu nasci e cresci aqui neste tempo, sabia? Assim como todos os outros discípulos e mestres de todas as gerações desde sua existência.
— Hmm… Entendo. — Eiro disse um pouco desapontado e depois olhou para frente. O caminho em que estavam naquele momento era bastante íngreme, e demoraria talvez mais sete ou oito horas para chegarem ao cume. Seria um passeio exaustivo, mas ele tinha certeza de que Sammy e Leon conseguiriam aguentar. Ele sabia que eles conseguiriam.
Por cerca de duas ou três horas, continuaram subindo pelo caminho até que avistaram um local um pouco mais plano. O monge se virou e olhou para Eiro.
— Devemos tirar uma pausa? Precisamos nos certificar de chegar ao pico até hoje à noite, afinal.
— Certo. — Eiro respondeu e depois olhou para Sammy enquanto colocava Leon no chão, já que o carregou durante todo esse tempo. — Pode observá-lo por um tempo? Quero ter uma palavrinha sozinho com nosso caro amigo aqui. — Eiro disse para Sammy enquanto se virava, mas assim que fez isso, Sammy fez algo que Eiro não esperava.
— P-Pare! — Ela exclamou. — Por que você não pode fazer isso aqui? — Sammy questionou. — Há algum motivo para manter segredos de nós?
Com uma carranca, Eiro olhou confuso para Sammy.
— Claro que não. Quero explicar a situação e não quero que vocês dois se estressem ainda mais. — O Diabrete disse de forma tranquilizadora, apesar de ainda estar a encarando com uma carranca. — Você confia tão pouco em mim? — O Demônio perguntou, e Sammy olhou nervosa para ele, incerta do que dizer, afinal Eiro estava para assassinar o monge que só queria ajudá-los! O que mais ela deveria fazer?
— Eu… Eu-
— Eu não iria matá-lo logo de cara. Talvez cortaria um membro ou dois, talvez esfaqueá-lo um pouco, mas ele deveria aguentar. Não é mesmo, senhor monge? — Eiro comentou com um leve sorriso sob sua máscara, e o monge olhou devagar para Eiro, mantendo a expressão falsa de antes e rindo baixinho.
— Do que você está falando? — Ele questionou, mas Eiro continuou sem responder.
— Entretanto, dependendo de qual seja o plano desse cara, talvez eu tenha que matá-lo. Se acontecer de ele querer nos ajudar, o que eu duvido, eu o deixaria em paz, de verdade. — Eiro suspirou fundo, mas o monge continuou o encarando com a mesma expressão.
E então, para a surpresa de Sammy, Eiro colocou a mão na sua máscara.
— Vamos lá, você não precisa tentar se esconder. Vamos ter uma conversa, camarada. De Monstro… — Assim que o Demônio começou a última sentença, ele retirou sua máscara e abaixou seu capuz, revelando sua identidade.
O monge arregalou os olhos, incapaz de conter a surpresa que sentiu, a qual ficou ainda maior quando um espinho de pedra atravessou o centro do seu peito, perfurando através do seu corpo até que saiu pelo seu estômago. Claro, durante isso, Nelli se certificou de que Leon não estava vendo.
— … para Monstro. — Eiro continuou e, assim que terminou, um líquido viscoso e transparente começou a pingar do ‘ferimento’ que Gondos havia criado com o espinho de pedra, que não parecia ter afetado o monge nem um pouco.
Com um suspiro profundo e resmungado, o rosto do monge ficou em branco e toda a cor desapareceu completa do seu corpo, mas não a cor, mas a pele em si, até que se tornou uma massa um tanto translúcida de slime branco parada ali.