
Volume 3 - Capítulo 150
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para frente e suspirou de alívio. Ele estava feliz de que uma das suas maiores preocupações logo seria resolvida. Embora pudesse criar mais alguns problemas, tinha certeza de que tudo ficaria bem. Ele esperava que fosse assim.
— Estamos quase lá. — O Demônio disse enquanto se virava para Sammy, mas a garota assentiu em silêncio, chocada enquanto continuava a seguir. Ao mesmo tempo, Leon olhou para a montanha e viu o templo.
— Papai, aonde estamos indo? — Ele perguntou, cansado, e Eiro olhou para o menino e sorriu.
— O lugar onde conseguiremos nos livrar daquela coceira irritante que você mencionou. — O Diabrete explicou para o garoto em seus braços, que começou a sorrir feliz.
Eiro quase o chamou de energético, mas de alguma forma, Leon tinha tão pouca energia que isso seria mentira.
— Eu vou te avisar mais uma vez, não ouse pisar nesse lugar sagrado! — O slime exclamou o mais alto que pôde, mesmo que parecesse que nem Leon nem Sammy conseguiam escutá-lo pela garrafa.
Ele continuou estremecendo cada vez mais, durante todo o tempo que passaram para chegar até o templo. Eles pisaram nas escadas de pedra por muito tempo até que pilares vermelhos e de ouro apareceram no caminho. Eles eram mais simples do que Eiro imaginou que seriam, na verdade. Claro, eram esculpidos e decorados de forma bonita, mas, embora fosse metálico, o “ouro” que Eiro viu não era de fato ouro. Aparente era uma tinta, ou um metal com uma coloração similar.
Logo o trio mais os dois Espíritos e o núcleo do slime passaram pelo portão na frente do templo e entraram num pátio. Imediatamente Eiro sentiu a pressão se intensificar muito, como se estivesse parado na frente do ser que estava selado aqui. Não estava o sobrecarregando, mas deixou um gosto ruim na sua boca.
Sammy e Leon, por outro lado, pareciam um pouco surpresos. O rosto da garota estava pálido, e o menino ficou cabisbaixo. Ele era assim sempre no geral, mas na maioria do tempo não era uma mudança instantânea.
— Outra camada do selo que está segurando essa coisa? — Eiro perguntou enquanto olhava para a garrafa na sua mão, mas o slime permaneceu em silêncio. — Certo, então não me responda. Perguntarei para outra pessoa. — O Demônio comentou e olhou ao redor, tentando avistar alguém. Era desconfortável aqui, seus sentidos ficaram ainda mais nublados, como se algum tipo de miasma ou energia emitida por aquele ser estivesse acumulado aqui e se tornado muito mais forte do que deveria. Era como uma névoa espessa diante de todos os sentidos de Eiro.
Ele logo viu alguém saindo pela porta na lateral do pátio. Era um monstro humanoide vestindo um traje parecido com o que o slime vestia antes, apesar de ser um pouco mais decorado e ter mais camadas.
Pelo que Eiro conseguia dizer, esse monstro era um Homem-Lagarto. Ele estava arrastando sua cauda no chão atrás dele e suas escamas verde-escuro pareciam muito limpas para um monstro. Ele parecia muito calmo, então Eiro imaginou que os monstros aqui não eram tão agressivos.
Quando o Homem-lagarto parou na frente de Eiro, ele fez uma leve reverência.
— Saúdo-o humildemente. Se não for muito rude presumir, suas razões para vir são os selos colocados nesses dois? — Ele perguntou em uma voz calma e baixa. Devagar, Eiro concordou.
— Sim, é isso. E desculpe, mas tive que tirar um dos monges de serviço no caminho para cá… — O Demônio disse, segurando a garrafa e a bola de slime congelado para frente.
— Entendo, mesmo assim obrigado por trazê-lo para cá em segurança. — O Homem-Lagarto respondeu e segurou a bola de gelo e a garrafa em seus braços. — Por favor, siga-me para que possamos inspecionar mais de perto esses selos.
Com um aceno lento, Eiro concordou e se virou para Sammy, dizendo para ela segui-lo. Juntos, eles entraram, com Eiro se certificando de que Sammy não se ajoelhasse do nada. Ela não parecia estar muito bem. O mesmo acontecia com Leon, claro, mas como o jovem já estava nos braços de Eiro, o Diabrete não tinha que se preocupar com ele caindo.
— Não se preocupem, essa é uma reação natural para aqueles que não estão acostumados com esse lugar. Se me permite, o seu caso é mais preocupante do que o deles. — O Homem-Lagarto ressaltou, embora logo tenha balançado a cabeça e se corrigido. — Me perdoe pela escolha de palavras. ‘Preocupante’ não está certo, seria mais ‘intrigado’ do que qualquer outra coisa.
Eiro concordou em silêncio e continuou olhando para frente enquanto o Homem-Lagarto os liderava em direção à construção na frente deles. Logo, duas figuras que estavam completa ocultas por panos brancos vieram e pegaram a garrafa e a bola congelada, desaparecendo em seguida em corredores adjacentes.
Ele não conseguiu dizer muito sobre essas figuras, que tinham um cheiro idêntico um ao outro. Não parecia haver nenhum tipo de diferença, até mesmo na forma que se portavam, incluindo postura, jogo de pés e velocidade, tudo era igual, como se fossem uma cópia um do outro.
Quando Eiro olhou para o salão principal em que se encontravam, ele avistou mais alguns monstros, todos de raças diferentes. Algumas eram Slimes Sem Forma, como aquele que Eiro “pegou”, alguns eram Homens-Lagartos, alguns Goblins, Kobolds e Gnolls. Era bastante estranho vê-los ‘civilizados’ daquele jeito.
Ao mesmo tempo todos esses caras tinham um cheiro estranho, como se faltasse algo no cheiro deles. Algo muito, muito básico.
Como se não fossem mais monstros.
Eiro continuou seguindo o Homem-Lagarto e entraram em uma pequena sala, com nada além de uma longa mesa no centro. O monge se ajoelhou na frente da mesa e apontou para ela.
— Garota, podemos começar com você? Por favor, remova suas vestes e mostre o seu selo para mim. — Ele disse para Sammy e ela olhou para ele por alguns segundos, acenando com a cabeça depois. Ela parecia muito confusa, como se não fosse capaz de pensar direito.
Talvez isso mudasse um pouco, pois assim que Sammy começou a tirar sua jaqueta, Eiro colocou Leon no chão e segurou a garota pelos ombros, virando-a em sua direção.
— Olhe para mim. — Ele disse enviou alguns pulsos de mana para o corpo de Sammy. Ele não queria que isso se entrelaçasse com nenhuma energia dela, pois esse era o método de tortura que Enka o ‘ensinou’, queria apenas apoiar seu fluxo sanguíneo.
Ele queria usar magia para fazer com que ar fresco, sem todo aquele miasma, se acumulasse nos pulmões dela, enquanto substituía o antigo. Não demorou muito para que o rosto pálido dela ficasse leve rosado de novo, e ela olhou para Eiro depois de piscar algumas vezes.
— Hm? O que está acontecendo? — Ela questionou, surpresa com o que Eiro estava fazendo, e o Demônio explicou a situação para ela.
— Ele quer que você mostre o seu selo para que possam ver como podem removê-lo. Estarei aqui o tempo todo e me certificarei de que nada aconteça, mas quando eu parar de controlar o ar e o sangue no seu corpo, você vai se sentir um pouco tonta de novo. Só não quero que você fique assustada. — Eiro disse para Sammy e a jovem assentiu a cabeça, bastante nervosa, fechando os olhos.
— Está bem… Vamos acabar com isso… — Ela murmurou, e Eiro soltou os ombros dela. Enquanto ainda estava consciente, Sammy começou a despir suas roupas e entregá-las para Eiro, que estava segurando Leon em seu outro braço. O jovem havia adormecido, então ele não tinha outra escolha.
Eiro logo observou Sammy se deitar na mesa, com todo o seu corpo exposto.
Eiro encarou o Homem-Lagarto com um olhar profundo que anunciava um massacre absoluto e completo, se a criatura fizesse algo de errado com Sammy. Mas parecia que ele não se importou e começou a trabalhar.
Ele olhou para Sammy por um tempo, encarando os padrões pretos e tatuagens no corpo dela, que tinham se esticado devido ao crescimento físico dela.
— Entendo. — O Homem-Lagarto murmurou e passou lentamente seus ‘dedos’, ou melhor, garras, sobre o estômago de Sammy, onde alguns dos padrões pareciam se unir. — Esse é um selo bastante complexo. Não tenho certeza se sou capaz de removê-los por conta própria.
Com uma carranca profunda, Eiro olhou para ele e deu um passo para frente.
— Então, traga o Alto Sacerdote para cá. Pelo menos ele deve ser capaz de fazer isso, certo?
O Homem-Lagarto assentiu.
— Claro. O alto sacerdote é capaz de abrir quase qualquer selo, mas ele não é uma presença que alguém como você possa enfrentar.
— O que isso significa? — Eiro questionou, e o monge olhou para ele.
— Um Demônio selvagem como você é um perigo para a existência e pureza deste templo estando aqui. Colocar seus olhos divinos em você simples contaminará as habilidades dele, e sem uma oferenda, você não será capaz de requisitar os serviços dele de qualquer forma. Se você quiser que um deles sobreviva, precisa sacrificar o outro par.
No segundo seguinte, o maxilar do Homem-Lagarto era segurado por alguns pedaços de pele coriácea, enquanto sangue espirrava pelo chão.
— Se aquele cara quer um sacrifício, então eu darei um a ele, mas não será nenhuma das minhas crianças. Sacrificarei cada criatura neste lugar! Quem sabe talvez eu possa usar até mesmo os braços e pernas dela como uma oferenda, como isso soa? — Eiro perguntou, seus batimentos fortes e altos, enquanto sua ira dominava seu corpo.
Esse lugar parecia ser o pior para ele naquele momento. Com uma alta percepção, Eiro tinha que se concentrar muito para não cair de repente e vomitar com toda a pressão. Então não tinha concentração suficiente para impedir que a Marca da ira tomasse conta da sua mente. Ainda não conseguiu forçar seu estado em outro como a primeira vez que entrou no estado de sede de sangue, mas ele ainda estava ficando irritado com muita facilidade.
Eiro fez Sammy se levantar e a ajudou a se vestir, enquanto ela o seguia ao mesmo tempo que o Demônio arrastava o Homem-Lagarto para fora da sala, segurando um dente em sua mandíbula superior.
Sammy não parecia notar o que estava acontecendo ao redor dela e Leon estava em sono profundo e tinha os olhos pressionados contra o peito de Eiro, então o Diabrete não tinha que se preocupar com o que esses dois pensariam sobre o que ele estava fazendo agora.
Eiro caminhou em direção ao quarto onde sentia a presença mais forte, tudo isso enquanto os outros monstros olhavam para Eiro com nojo, mas pelo menos não tentaram vingar o Homem-lagarto.
Assim que Eiro estava para abrir a porta do cômodo em que provavelmente estava o Alto Sacerdote, a porta se abriu por conta própria. Até agora, Eiro conseguiu conter sua ira, mas, quando viu a figura de uma criatura com quatro braços que o encarava com seus olhos pretos e profundos, o Diabrete sentiu sua ira e ódio transbordar. A pele da figura era o branco mais puro que se podia imaginar e ela era alta o suficiente para se elevar sobre qualquer outra criatura neste templo amplo.