
Volume 3 - Capítulo 145
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para os goblins e hobgoblins ao redor e sorriu enquanto fazia isso.
O ser mais forte desta vila, Gobo, estava se contorcendo sob o seu pé. Parecia que estavam muito assustados com Eiro. Normalmente mesmo assim os Goblins ainda atacariam apesar de estarem com medo. Era como se a principal reação deles ao medo fosse a agressão.
Mas parecia que isso era muito diferente aqui. Talvez esse Hobgoblin tivesse os treinado para serem submissos ao medo, ou essa era a forma como os Goblins da montanha eram. De qualquer modo, Eiro gostava disso.
— Hm, vamos tentar isso, hein? — Eiro sugeriu e pisou em Gobo, antes de chutá-lo até um local em que todos conseguiam vê-lo. Parecia que ele conseguiu se controlar um pouco depois que a dor passou. Gobo encarou o Demônio com baba escorrendo pelo lado da sua boca e tentou se levantar para continuar a lutar, mas Eiro formou uma magia de ar na sua garganta e depois falou para que todos os Goblins na vila conseguissem escutar o comando que estava para ensinar.
— Ajoelhem-se. — O demônio ordenou, sua voz ecoando pela área. Os goblins normais ficaram um pouco agitados e mais deles se reuniram ao redor da ‘arena’ encarando Gobo, que tentava se levantar. Porém, Eiro o segurou pelos ombros e inseriu mana nos seus dedos, enquanto o empurrava para baixo.
Os olhos de Gobo se reviraram e apenas o branco do seu olho pôde ser visto, antes de cair de joelhos. Eiro apenas repetiu.
— Ajoelhem-se. — Gobo continuou o encarando, ajoelhando-se na frente de Eiro.
Ao ver que Gobo conseguiu realizar a ação, Eiro olhou para os Hobgoblins e os encarou.
— Ajoelhem-se. — Ele comandou mais uma vez e os Goblins, associando o som que Eiro emitiu a como o lorde deles estava sentado, fizeram o mesmo, ajoelhando-se atrás de Gobo.
Eiro olhou para Gobo de novo.
— Curve-se. — O Diabrete comandou. Gobo, ainda com muita dor, curvou-se para frente e pressionou as palmas e a testa contra o chão. O chão de pedra coberto pelo sangue verde e nojento dos goblins da montanha e hobgoblins.
Depois que Gobo se curvou, imediatamente um dos Hobgoblins tentou seguir e se curvou da mesma forma.
— Oh! Você parece ser esperto. — Eiro sorriu e olhou para os outros Hobgoblins, que não seguiram o exemplo.
— Curvem-se. — O Demônio repetiu, pressionando o pé nas costas da cabeça de Gobo, e os três Hobgoblins restantes entenderam e pressionaram a testa contra o solo, com exceção de um.
Depois de Gobo, ele era o mais forte entre os Hobgoblins, como seu corpo físico demonstrava. Ele parecia um pouco menor do que Gobo e continuou encarando Eiro com fúria. O Demônio caminhou até ele e retirou sua adaga, a oca, que ainda estava cheia com água.
Sem hesitar, Eiro esfaqueou o centro do peito do Hobgoblin, no mesmo local em que atacou Gobo para deixá-lo se contorcendo. Eiro inseriu sua mana no peito do Hobgoblin e, em seguida, deixou mana sair pelos pequenos buracos direto para o ferimento.
Ali, Eiro o congelou e a ergueu. O Hobgoblin tentou resistir de alguma forma, mas tudo o que fez foi cair para trás em dor. Ele tentou arrancar o gelo do seu peito, mas antes que conseguisse continuar Eiro pegou a mão dele a esmagou sob seu pé. Não que isso fizesse muita diferença, desde que o Hobgoblins já estava gritando muito devido ao ‘ataque’ inicial de Eiro.
O Diabrete pensou que essa era uma boa oportunidade para encarar os olhos do Hobgoblin e ler as notificações. Ainda era a notificação vermelha comum dizendo sobre o dano, mas as palavras eram diferentes. Elas estavam escritas na linguagem dos Goblins, então Eiro ainda não conseguia entendê-las. Ele teria que fazer algumas coisas que acionassem as notificações deles e então lê-las, essa parecia uma boa forma para adquirir a habilidade.
Como as habilidades de linguagem apoiavam primeiro a compreensão verbal e apenas depois o entendimento verbal, Eiro deveria ser capaz de compreender o que esses caras estavam dizendo em breve se aprendesse a linguagem através dos textos.
De qualquer forma, esse Hobgoblin não era o único que via uma notificação.
[Habilidade <Tortura> adquirida!]
‘Hm, estava mais interessado em outra habilidade… Tanto faz.’ Eiro pensou e cortou a notificação com sua adaga, antes de guardá-la.
Nessa altura, todos os Goblins viram e ouviram o que Eiro fez com esse Hobgoblins, aqueles a quem temiam e respeitavam.
O Demônio parou na frente da arena e olhou para a multidão de Goblins comuns, fazendo sua voz ser levada o mais longe possível, o Demônio levantou a mão e apontou para o chão.
— Ajoelhem-se.
Ele exclamou, e parecia que a maioria dos Goblins ainda não entediam o que ele queria deles, mesmo que alguns tivessem seguido o comando. Então, repetiu.
— Ajoelhem-se.
Dessa vez, mais Goblins o escutaram e caíram de joelhos, apesar de ainda não serem todos. Uma última vez, Eiro comandou.
— Ajoelhem-se.
Havia alguns que não escutaram às palavras de Eiro e eles se transformaram em experiência com um simples feitiço de raio de gelo. Agora que todos estavam ajoelhados e ainda mais assustados, o Demônio continuou.
— Curvem-se. — Ele exclamou e dessa vez, com exceção de alguns, curvaram-se e pressionaram suas cabeças no chão.
— Aí está. — O Diabrete sorriu, embora não fosse direcionado para esses Goblins e sim para a notificação que apareceu assim que todos eles se curvaram.
[Habilidade <Liderança> adquirida!]
Com uma expressão satisfeita, o Demônio se virou e passou pelos Hobgoblins. Subiu os degraus descalços que estavam esculpidos no chão e caminhou até a laje, percebendo a expressão de Nelli.
— O que foi? — Ele questionou, e o Espírito apenas suspirou.
— Só estou um pouco surpresa. Você salvou o Gnomo porque ele estava com muita dor por ter seu corpo dividido, e então tortura e domina essas caras?
Com uma risada, Eiro assentiu.
— Sim, por que não? O Gnomo é uma criança indefesa, sabia? E estava sendo tratado como um objeto, algo a ser comprado. Claro, eu usei o medo para controlar esses caras, mas porque é assim que ‘Gobo’ está acostumado. Se eu usasse amor para controlá-los, estaria fazendo comida para eles ou algo assim. Não planejo tratá-los mal. Bem, não é como se me importasse se eles morressem e a ‘tortura’ foi apenas algo pequeno. — Eiro comentou, e Nelli olhou entre o Demônio e o Hobgoblin se contorcendo depois de ter gelo enfado no centro do seu peito.
— Sei. — Ela cantarolou sarcástica e Eiro deu de ombros.
— Ele é muito forte, então será uma boa mão de obra. Não há como eu desperdiçá-lo. Ele mal sofreu danos, está apenas pressionando aquele ponto. Não deveria machucá-lo tanto se ele não se mover, então a culpa é dele.
— Oh. Justo… Mas, por que exata você precisa de ‘mão de obra’? Planeja assumir o posto de Rei dos Monstros no futuro? — Nelli questionou e Eiro a encarou com uma leve carranca.
— Claro que não, por que eu deveria? Só quero as pedras mágicas daqui, e não vou ficar aqui para minerá-las por conta própria. — Eiro explicou e, nesse ponto, Nelli compreendeu.
— Entendo, entendo! — Ela exclamou e Eiro assentiu. Havia um motivo muito específico para Eiro querer se aproveitar dessa grande fonte de pedras mágicas brutas. Em algum ponto, pedras mágicas ficavam sem ‘Magia’. Quanto mais as usava, menos potentes elas se tornavam, até que não pudessem ser usadas mais e ninguém seria capaz de comprar uma pedra mágica de uma loja, desde que a maioria das minas delas era monopolizada pelos países em que se encontravam.
Por causa disso, apenas magos de alto nível ou pessoas no poder eram permitidas a tê-las. O que significava que pedras mágicas eram um recurso, em sua maioria, exclusivo para nobres. O único motivo para Eiro ter tantas delas era porque as roubou do Lorde da Ganância.
O simples ato de usar uma pedra mágica permitia que uma pessoa ganhasse proficiência em uma habilidade mágica, o que era um recurso perfeito para treinar, mas Eiro nunca as usou muito para além de emergências.
Até mesmo teve que substituir a pedra mágica na adaga algumas vezes. Uma mina de pedras mágicas era algo grande da qual ele poderia tirar muito proveito se conseguisse administrá-la e tivesse certeza de que este lugar continuasse oculto. Quem sabe, talvez Eiro encontrasse algum outro uso para esses rapazes em algum momento?
Por hora havia mais uma coisa que precisava ser feita. Eiro virou a cabeça e olhou para o Gnomo flutuando ao seu lado. Ele estava encarando a laje de pedra, sem reagir a mais nada, então Eiro pensou que esse era o lugar perfeito para este Espírito imaturo.
— Vá em frente. — O Demônio disse e o Espírito se aproximou da laje. Ele flutuou acima dela antes de pressionar o seu corpo na superfície dura e repetir o que haviam praticado durante a última semana.
E antes que Eiro percebesse… o corpo do Gnomo se desfez em pó fino.
— …Eita…? — O Demônio murmurou, olhando para Nelli, mas parecia que a Náiade estava muito relaxada, então ele presumiu que nada deu errado.
E como se respondendo aos pensamentos de Eiro o pó se reuniu nova e se aglomerou, transformando-se de volta em rochas densas. Em cima desse pó cresceu mais rochas, fazendo com que tudo se expandisse de tamanho e permanecesse em cima da laje esculpida.
Não demorou muito para que algo mais acontecesse, desde que rachaduras começaram a se formar na superfície da rocha até que a rocha se quebrou em pequenos pedaços. E do seu centro flutuou uma pequena figura.
Alguns pedregulhos ainda estavam flutuando ao redor do seu corpo, mas fora isso era uma figura humanoide da mesma altura de Nelli. Cobrindo seus braços, pernas, costas e pescoço havia rocha dura, embora o resto do seu corpo ainda fosse coberta por pele simples.
E com uma voz surpreendente profunda, o Golem macho falou.
— Obrigado pela ajuda, Eiro… eu descobri o meu nome.