A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 142

A Virtude do Demônio

Eiro olhou para a descrição da sua nova habilidade e ficou muito feliz de ver que tipo de habilidade era. um aprimoramento sem seus pontos de Vida, algo que precisava muito.

O Demônio passou os dedos pela notificação para fazê-la desaparecer e então olhou para Arc.

— Onde nós estamos agora? — Ele perguntou, porque não tinha certeza exata de quanto tempo ficou desacordado, além de ‘dois dias’ informados por Clementine e quanto tempo duraram as pausas que haviam feito.

Após pensar um pouco Arc engoliu sua comida e explicou.

— Nós passamos próximos da vila “Zugberg” há algumas horas. — Ele explicou, e Eiro arregalou os olhos em resposta.

— O quê? Sério? — Ele perguntou. — Nós já estamos tão longe? — Com um sorriso brilhante no rosto, Eiro pensou em quanto devia a Solomon. Essa carruagem e as Arias eram muito incríveis. Mais incríveis do que ele esperava, de verdade. — Então, não demorará muito para chegarmos, hein? — Eiro sorriu e olhou para o chão. Logo notou o Gnomo flutuando ao lado dele. Ele parecia um pouco mais fraco do que antes. Aparentemente teriam que ajudá-lo a ‘encontrar o seu nome’.

Eiro começou a pensar sobre o que poderiam fazer durante a viagem, se eles pudessem se permitir serem mais tranquilos com algumas coisas. Se continuassem assim, acabariam chegando ao destino deles dentro de duas ou três semanas, afinal.

— Certo… Todos terminaram de comer? — Eiro perguntou, enquanto se levantava e via que todos pareciam ter terminado. — Treinaremos um pouco. Vamos usar suas novas classes e suas habilidades devem ser aprimoradas com isso. — O Demônio apontou enquanto ia até a carruagem, praticamente arrastando suas pernas.

— Oh? Espera, agora? — Clementine perguntou, confusa. — Não devemos viajar um pouco primeiro? E você definitivamente tem que descansar! — Ela apontou, mas Eiro apenas sorriu para ela.

— Não se preocupe, esse é o lugar perfeito. Não há ninguém por perto, e não sinto nenhum monstro também. — O Diabrete explicou enquanto se alongava, fazendo suas articulações estalarem em resposta.  — Sinto no meu corpo os problemas de ter ficado deitado dois dias inteiros. Me incomoda ainda mais do que a dor. Vamos lá, peguem suas coisas, limpamos depois. — Eiro anunciou, não deixando um único espaço para negação.

Eles se levantaram e caminharam até a carruagem para pegar suas novas armas e armaduras, considerando que iriam fazer algumas lutas de treino, em vez de apenas ‘praticar’ no geral. E enquanto os outros se levantavam e iam até a carruagem, Felix os seguiu, pensando que continuariam viajando, mas em vez disso Eiro tinha outra coisa em mente.

— Venha. — O Demônio disse e puxou o Felix. Eiro olhou ao redor, encarando as diferentes árvores ao redor, e então encontrou o exemplo perfeito para o que queria fazer.

Eiro passou a mão sobre o tronco de uma árvore antes de retirar uma das suas ferramentas de sua Tesouraria, retirando apenas um metro quadrado da casca antes de alisar um pouco a madeira para facilitar o trabalho. Então entregou uma das facas de esculpir que pegou na carruagem para Felix.

— Entalhe nisso. — Eiro disse para Felix segurando a mão do menino e levou a adaga até a madeira. — Entalhe. — Ele repetiu, e Felix olhou para Eiro, confuso; Eiro sorriu sarcasticamente.

— Você quer que eu… corte essa árvore? — Felix perguntou. Eiro acenou com a cabeça e o garoto raspou com a faca na madeira. — Não fode comigo! — Ele gritou, algo que o deixou ainda mais frustrado. Mesmo quando gritava o mais alto que conseguiu, sua voz não alcançava suas orelhas.

— Como eu posso apenas… me sentar aqui e… fazer isso, se… se ele pode nos alcançar a qualquer instante…? Estou assustado! — Felix exclamou. — Ele me deixou surdo! E se ele nos encontrar de novo?! Eu… Por favor, nós precisamos sair… sair… — Ele gritou frustrado. Parecia que ele estava pensando muito no que estava dizendo, e suas palavras ficaram completamente bagunçadas por conta disso.

Felix começou a encarar o chão e se ajoelhou, com todo o seu corpo estremecendo. Com um suspiro, Eiro pegou um caderno vazio que tinha em sua tesouraria com uma caneta de tinta, escrever algo em uma dessas páginas vazias.

Eiro se agachou e segurou o caderno aberto na frente de Felix. O garoto leu a mensagem, o que foi difícil de fazer com lágrimas nos olhos, e então virou a cabeça com um sorriso de emoções variadas.

Parecia que ele estava feliz em parte. Outra parte dessa expressão ainda era amarga, e outra parte era uma expressão de auto-aversão que veio da primeira parte, afinal ele acabou de ser informado que Eiro matou o seu pai, então que tipo de pessoa ele seria se ficasse feliz com a morte do pai?

— Você… fez…? Ele está… ele está morto? — Felix perguntou, seu corpo desabando e se tensionando estranhamente. Ele parecia ao mesmo tempo aliviado e assustado, julgando apenas por isso.

Eiro assentiu em silêncio e, alguns momentos depois, Felix começou a processar tudo isso.

— Ele está morto…? Ele está morto… Ele realmente está morto… — Felix murmurou. Ele começou a rir por um breve momento, mas então se impediu de continuar com isso, mesmo que tenha demorado um pouco para entender o comando.

— Levante. — Eiro suspirou, enquanto puxava o braço do garoto para levantá-lo, e então colocou a mão do jovem no cabo da faca de esculpir, escrevendo em seguida mais uma coisa no caderno.

[Use suas emoções para trabalhar], ele escreveu.

Claro, isso poderia ser interpretado como Eiro dizendo: ‘Pare de reclamar e trabalhe’, mas isso não era tudo. Eiro acreditava que qualquer tipo de emoção poderia ser moldado em algo produtivo, seja alegria, raiva, tristeza, alívio, qualquer coisa. Ele não gostava de ser controlado por suas emoções, então queria controlá-las dessa forma.

Claro, isso não significava que ele suprimia suas emoções, mas que não deixava que suas emoções fizessem o que quisessem.

Devagar, Felix concordou e limpou as lágrimas do seu rosto, retirando a faca da madeira e começando a cortá-la em alguns lugares. Parecia que não tinha certeza do que fazer, mas tudo bem. Pelo menos Felix estava tentando fazer algo em vez de apenas encarar a madeira, o que era um começo muito bom.

Eiro se virou e olhou para Nelli.

— Há um rio por ali. Pode preparar alguns baldes de água refinada para mim e trazer aqui? — Ele perguntou, e a Náiade assentiu.

— Claro! — Ela disse e depois flutuou em outra direção enquanto Eiro olhava para as crianças, que já estavam prontas.

— Todos vocês. Primeiro de tudo façam seus exercícios regulares com seus novos itens. Sammy e Clementine formem duplas. Clementine, tente criar pequenos alvos feitos de água para Sammy no ar. Talvez mexer neles um pouco. E troquem às vezes, para que você tenha que parar as flechas que Sammy disparou, movendo os alvos. — Eiro sugeriu, e as crianças assentiam.

— Nós tentaremos a infusão mágica com esses itens daqui a pouco. Só não façam isso caso Nelli ou eu não esteja observando, para ter certeza de que nada dê errado. — O Demônio disse, e todos assentiram e começaram enquanto Eiro olhava para o Gnomo flutuando atrás dele.

Eiro se sentou de pernas cruzadas na terra e chamou o Espírito imaturo.

— Certo, sei que ainda não temos um contrato, mas apenas faça o que eu te digo por um tempo. — Ele disse para o Gnomo, que apenas flutuou ali por um tempo, o que Eiro aceitou como um ‘sim’.

O Diabrete colocou ambas as mãos no solo e começou a inserir pulsos de mana para espalhá-los pela área.

— Você pode sentir isso, certo? — O Gnomo deixou seu corpo afundar para que tocasse o solo, onde Eiro tinha a maioria de sua mana. — Bom. Quero que faça a mesma coisa que eu, usando sua própria magia.

O Demônio explicou e começou a puxar a mana que havia inserido no solo, concentrando-a no corpo do Gnomo para que pudesse alimentá-lo com isso. Eiro teve que tentar explicar isso mais algumas vezes para o Gnomo, mas em pouco tempo ele compreendeu o que Eiro tentava dizer e começou a ‘ficar de pé’ no chão, pressionando suas pernas rígidas, quase humanoides, no chão, mas isso foi bom o suficiente para o Diabrete desde que o Gnomo começou a empurrar mana para fora do seu corpo, como confirmado por Nelli logo depois.

Eiro olhou para o Espírito imaturo e então continuou dando instruções.

— Bom. Agora como você tem a habilidade para perceber mana, isso deve ser bastante fácil para você, não é? — Eiro começou. — Veja a mana que você empurra para fora do seu corpo como uma extensão de si próprio. Aja como se essa parte do chão não fosse apenas o solo em que você está sentado, mas uma parte de si. — Eiro disse, pressionando seus pés um contra o outro. —  Então faça sua mana fluir através do chão em uma espiral que flua tanto para fora como para dentro do seu corpo. — O demônio instruiu, começando a mover sua mana pelo seu corpo para acelerar sua regeneração de mana, para que tivesse mana suficiente para alimentar o gnomo.

Logo Nelli disse para Eiro que o Gnomo estava seguindo o que ele dizia, e Eiro assentiu com a cabeça, satisfeito. Ele ficou feliz que o Espírito estava o entendendo tão fácil, desde que ele parecia um tanto bobo na maioria do tempo.

— Deixe a mana da espiral interna do solo entrar no seu corpo, faça-a fluir até o seu núcleo, depois faça-a fluir de volta pela espiral externa sob você. E continue aumentando cada vez mais o tamanho da espiral, com a mana que estou fornecendo a você, mas não desperdice nenhum pouco dela. — Ele disse enquanto suspirava profundamente para que conseguisse relaxar.

E dali em diante, por cerca de uma hora, foi tudo o que fizeram. Enquanto as crianças praticavam suas próprias coisas e Felix esculpia na árvore para lidar com suas emoções complicadas, Eiro e o Gnomo trabalhavam juntos para espalhar a percepção do Gnomo o mais longe possível na natureza.

Isso não funcionou bem o suficiente para que o Gnomo conseguisse encontrar o seu nome logo de cara, mas ele pareceu ficar muito mais energético depois disso. Feliz por isso ter ajudado o Gnomo, Eiro imaginou que deveriam continuar fazendo isso sempre que parassem para passar a noite. Desse modo não seria tão difícil para o Gnomo encontrar seu nome… Nelli também parecia concordar com isso e nem sequer fez um comentário sarcástico.

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