A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 141

A Virtude do Demônio

O som das rodas da carruagem esmagando pedregulhos e terra sob elas encheu as orelhas de Eiro, enquanto todo o seu corpo era sacudido leve aqui e ali.

Ele estava deitado em algo macio, embora não conseguisse ver nada quando abriu os olhos. Apesar disso, notou que havia um pano úmido na sua testa que caía leve nos seus olhos. O Demônio levantou a mão e retirou o tecido enquanto se sentava.

Assim que começou a se mover Eiro sentiu um peso no seu corpo quando Avalin pulou em cima dele.

— Papai! — Ela exclamou e o Demônio olhou para a garota enquanto ela pressionava o rosto dela no peito dele com os olhos lacrimejantes. Eiro olhou ao redor e logo avistou Felix sentado em um dos assentos, olhando para a janela. Suas orelhas estavam cobertas por bandagens, assim como todo o corpo de Eiro.

— Quanto tempo eu fiquei desmaiado? — Eiro perguntou com um leve grunhido, pois seu corpo ainda estava doendo, e Clementine olhou para ele com um sorriso brilhante.

— Dois dias… — Ela disse, feliz que Eiro acordou. Parecia que Rudy e Arc estavam sentados no banco na frente da carruagem e Clementine, Sammy, Avalin e Leon estavam aqui dentro cuidando de Eiro e Felix.

Lugo estava correndo logo ao lado da carruagem, enquanto Nelli e o Gnomo flutuavam logo acima de Eiro.

— Entendo… — O Diabrete murmurou, e então aumentou a sua voz. — Arc, Rudy! Já acordei! — Ele gritou e escutou os dois se moverem lá na frente, fazendo as Arias pararem.

O desacelerar da carruagem pareceu chamar a atenção de Felix e ele virou a cabeça na direção de Eiro, bastante inexpressivo. Ele tinha grandes olheiras sobre os olhos e não parecia muito saudável.

— Ah… você… acordou… — Felix disse baixinho, embora parecesse se esforçar para falar. E não era porque ele não conseguia fazer isso, mas porque provavelmente não conseguia se escutar falando.

A carruagem parou e Sammy abriu a porta alguns instantes para sair, e Eiro tentou se levantar do chão. Sua perna quebrada estava quase toda curada, mas ainda era difícil colocar todo o seu peso nela.

Ele arrastou seu corpo para fora da carruagem e respirou fundo assim que saiu.

— Você me assustou para caramba! — Nelli anunciou, embora no espaço intermediário para que as crianças não conseguissem escutar, e Eiro olhou para ela com um leve sorriso nos lábios.

— Me desculpe por isso. Tentarei ter uma vitória segura da próxima vez. — Ele respondeu, se encontrando em um abraço apertado dos outros.

— Eu juro, se você fizer algo assim de novo, você está ferrado. — Sammy disse para Eiro, que riu e retribuiu os abraços. Isso doeu bastante, mas Eiro conseguia suportar.

— Só… — Eiro disse olhando para Lugo com um olhar profundo. — O que diabos você estava pensando… — O Demônio começou, embora tenha parado no meio da sentença, pois algo estava diferente de repente.

— Não fique bravo com Lugo, ele só pegou alguns cajados e pedras mágicas, mas Felix e eu não o deixamos ir sem nós. Não é culpa dele. — Arc disse olhando para Felix. — Sei que não acabou tão bem, mas… ainda assim… Você poderia ter derrotado Enka sem que Felix tivesse roubado aquele brinco?

O Diabrete pensou sobre e balançou a cabeça.

— Não, eu não teria. Sei que ajudou no final, mas não significa que eu goste disso. — Eiro disse e então estendeu a mão para Lugo.

Em vez de tremer como os outros esperavam, já que Lugo era bastante covarde, ele apenas aceitou o toque. Eiro colocou a palma na testa do seu familiar e fez o status dele aparecer na sua frente, embora só tenha se importado com a primeira linha.

[Nome – Lugo] [Raça – Cervo da Floresta] [Nível – 1]

— Que diabos? — Eiro disse confuso e olhou para Nelli. — Como Lugo tem um nível de repente?! — O Demônio perguntou, esperando que o Espírito de trezentos anos tivesse algum tipo de resposta, mas ela balançou a cabeça e se aproximou de Eiro.

— Eu não tenho ideia… Ele era apenas um animal antes, certo? — Nelli questionou e Avalin, que ainda estava agarrada na perna de Eiro, olhou para ele.

— Papai, animais não têm níveis? — Ela perguntou e Eiro balançou a cabeça.

— Eles não têm, é como se uma pessoa nunca recebesse uma classe, eles apenas… vivem, crescem e nunca sobem de nível… quando encontrei Lugo, pensei que ele fosse uma besta mágica, claro, mas ele não tinha nível quando se tornou meu familiar. Então, por que agora…? — O Diabrete murmurou e Nelli flutuou na frente dele.

— Bem, sabe a mulher a quem vamos para desbloquear as habilidades de Leon e Sammy? Ela é bem experiente nesse tipo de coisa. — O espírito apontou e Eiro assentiu a cabeça.

— Entendo… Certo, então vamos ver se ela pode nos ajudar… — Eiro murmurou e continuou passando a mão sobre a testa de Lugo. — Mas, sério, cara. Nunca faça esse tipo de coisa de novo. Estou feliz que você não fugiu por conta do medo, mas não pode levar as crianças para uma situação em que até eu estou com problemas. Não ainda, pelo menos. — O Demônio disse para Lugo, que só acenou a cabeça em resposta, empurrando sua cabeça no peito de Eiro.

Ele teve que se inclinar um pouco para trás para que a galhada de Lugo não perfurasse seus olhos, mas, depois disso, ficou tudo bem.

— Acho que é uma boa hora para comermos um pouco, hein? Vou dar um jeito em tudo. — Rudy sugeriu e Eiro concordou. Enquanto isso, Arc e Clementine soltaram as Aria da carruagem.

— Sammy, venha comigo um pouco, por favor. — Eiro disse, e então olhou para Avalin e Leon que estavam parados na sua frente. — Vocês dois fiquem com Nelli um pouquinho, certo? — Ele sugeriu, e embora hesitantes os dois fizeram como pedido, enquanto Sammy e Eiro davam alguns passos em outra direção.

Eiro se inclinou contra uma árvore para ficar um pouco mais fácil de ficar em pé, e então olhou para Sammy.

— Me desculpe. — Ele disse, e Sammy olhou de volta para ele, confusa.

— O que você quer dizer? Desculpas pelo quê? — Ela questionou, embora Eiro tivesse certeza de que ela sabia do que estava falando.

— Por ter deixado Felix encantar você antes. Só estava pensando em como te ensinar a usar sua voz depois que retirarmos o selo da sua habilidade, porque eu estava muito assustado que isso mudaria se você não soubesse, mas não pensei em quão errado esse método era. — O Demônio disse. — De verdade, de verdade mesmo, me perdoe. Acredite, eu ferrei com tudo, era uma coisa completamente errada a se fazer, e espero que possa me perdoar.

Com um sorriso, Sammy cruzou os dedos das mãos atrás das costas e balançou a cabeça.

— Não se preocupe com isso. — Ela disse. — Pensei um pouco sobre isso e foi de fato uma boa ajuda para compreender como habilidades relacionadas com a voz funcionam. Então, não se preocupe, eu já te perdoei. — Sammy anunciou, e Eiro suspirou enquanto olhava para ela.

— Obrigado. — Ele disse, e Sammy se virou com um sorriso no rosto e ajudou Eiro a voltar até a carruagem, onde os outros esperavam. Enquanto comiam, Eiro desviava o olhar para Felix. Ele parecia surpreendente calmo com tudo o que estava acontecendo ou sobre Eiro ser um demônio, e ele até mesmo viu como os olhos de Avalin eram, mas ele apenas se sentou ali e começou em silêncio, enquanto encarava o solo.

Bem, muito aconteceu durante os últimos dias. Ele foi aleijado pelo resto da vida, seu pai foi morto na sua frente e, do nada, estava ficando com um demônio e crianças que nem mesmo conhecia. A maioria das pessoas pensaria sobre tudo se adaptar.

— Hm… — Eiro cantarolou baixinho. — Havia aquele livro, não havia? — Ele murmurou, tentando se recordar de um livro que leu brevemente há uns dois ou três anos. Era composto em sua maioria por ilustrações, então não demorou muito para lê-lo e não ficou na sua mente por tanto tempo.

Mas pelo que se recordava era um livro de linguagem de sinais. Talvez ele conseguisse ajudar Felix a superar isso, ensinando-lhe linguagem de sinais? Pelo menos Eiro não achava mais que deixá-lo em algum lugar como ele estava querendo no momento era uma opção viável, Afinal uma criança surda não conseguiria viver sozinha em uma cidade, sem nenhuma forma de se comunicar direito com outras pessoas.

Com um aceno lento, Eiro escolheu fazer isso e tentaria ensinar para ele leitura labial, se fosse possível fazer isso com tanta facilidade.

Embora, antes disso, Eiro tivesse que lidar com mais alguma coisa: o fato de que ele tinha subido de nível 25 vezes depois de matar Enka. Eiro deveria deixar uma reserva de pontos de status para depois, talvez cinquenta ou mais, para que conseguisse distribuir para o que precisasse em uma emergência, mas por ora deveria distribuir os outros 215 pontos.

Primeiro de tudo, Eiro colocou mais alguns pontos em percepção para deixá-la em 100. Sua agilidade e destreza também foram aumentadas para que pudessem atingir 100 pontos em cada.

[Sua percepção ultrapassou a marca de 100 pontos! Habilidade <Sentidos Aguçados> adquirida!]

[Sua agilidade ultrapassou a marca de 100 pontos! Habilidade <Pés Rápidos> adquirida!]

[Sua Destreza ultrapassou a marca de 100 pontos! Habilidade <Mãos Hábeis> adquirida!]

Depois de confirmar que tudo isso parecia como melhorias passivas para os sentidos, jogo de pés e mãos respectivamente, ele começou a pensar no que mais precisava fazer e então aumentou sua agilidade em mais 25 pontos, afinal ser rápido era muito importante.

A seguir, veio a constituição de Eiro. Ele tinha uma vida baixa para um demônio desse nível, isso já era conhecido, então ele tinha que fazer o seu melhor para aumentá-la o máximo possível por agora, e então também a deixou em 100.

Depois disso, alocou 25 pontos tanto para Força como para Resistência. Seis pontos em Evasão, e agora ficou com 50 pontos, os quais usaria depois de pensar por mais algum tempo e para ter uma reserva básica.

[Sua Constituição ultrapassou a marca de 100 pontos! Habilidade <Corpo Vigoroso> adquirida!]

[Corpo Vigoroso – Habilidade que aumenta sua vida como se o valor de sua Constituição fosse 10% maior do que é de fato.]

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