A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 139

A Virtude do Demônio

Eiro encarou a direção em que o Cervo estava vindo com um olhar profundo.

‘Por que diabos Lugo traria esses dois aqui? Ou melhor, por que esses dois voltariam?!’

O Demônio imediata puxou um pouco mais do líquido e então tentou usá-lo para acelerar os seus movimentos. Embora Eiro não tivesse certeza se isso era uma boa ideia, pois sua velocidade não era silenciosa, apesar disso ainda estava invisível.

— Hmm, então você está usando truques, huh…? — Enka murmurou e depois olhou em direção à origem do som que escutou na praça, levantando a mão esquerda até sua orelha por um momento. E, no instante seguinte, Eiro conseguiu ver o tempo ao seu redor parar, enquanto seu corpo ficava preso e Enka batia seus punhos uns contra os outros repetidamente.

A primeira explosão gerada mal foi capaz de crescer ao tamanho de um punho. A segunda atingiu o tamanho de uma cabeça. A terceira talvez fosse maior do que Avalin e Leon. A quarta foi maior do que Rudy.

De novo e de novo, a explosão continuou se intensificando bastante com a força que Enka criava. A massa de chamas cresceu cada vez mais, até que cobriu um quarto da praça. Mas então essas chamas encolheram em chamas pequenas e quentes que Enka segurava nas mãos. E a próxima coisa que ele fez foi disparar o pino na direção de onde pensou ter escutado o som de Eiro se movendo.

As chamas crepitavam em direção ao Demônio, enquanto o mundo acelerava novamente. A seguir, Eiro escutou o som de chamas atingindo a água que o cercava. O Diabrete foi capaz de bloquear a maioria e impedir que as chamas o alcançassem por meio daqueles líquidos, mas, no final, restava apenas uma fração muito pequena dela.

— Aqui vamos nós. Agora, vamos continuar de onde paramos. — Enka sugeriu e se aproximou de Eiro, que agora estava parcialmente visível. — Mostre-me onde estão as crianças. — Ele disse com clara dedicação e vontade na voz, mas Eiro o encarou de volta enquanto ignorava o zumbido em suas orelhas.

— Vai se foder. — O Demônio respondeu, mas isso apenas fez com que Enka o encarasse de volta. O homem se aproximou do ferido Eiro e apenas levantou a mão na sua direção, colocando os dedos no rosto dele assim que alcançou Eiro dentro do que pareceu ser apenas um instante.

— Então, vamos tentar de outra forma. Você viu os meus status, então tenho certeza de que também viu minhas habilidades. Se recorda de uma em particular? Uma habilidade que me permite causar dor a você, enquanto causa danos mínimos à sua saúde? — Enka questionou com um olhar penetrante, ao mesmo tempo que deixava Eiro de joelhos, algo que foi bastante fácil desde que uma de suas pernas estava quebrada.

E com uma leve risada Enka continuou, assim que viu que Eiro era tão fraco em comparação a ele.

— Sabia, depois que minha habilidade de tortura chegou a um certo nível fui capaz de notar um detalhe nas outras pessoas: a essência da Vida delas. Ao evitar lugares onde a essência se reúne, posso causar pouco ou nenhum dano apesar da dor agonizante, enquanto o oposto também é possível. — Ele comentou, e Eiro soube imediata do que ele estava falando.

‘Força Vital. Então, Enka tem uma habilidade para sentir Força Vital?’

— A questão é que… Você tem muito menos dessa essência do que um monstro do seu calibre deveria ter, sabia? Isso apenas dificulta o meu trabalho, mas eu não te culpo, não é sua culpa que seja fraco. Apenas não me culpe se eu te matar acidentalmente, certo? — Enka perguntou e começou a empurrar seus dedos na têmpora do demônio.

Nenhuma notificação de dano apareceu em resposta a isso, mas o que apareceu foi uma quantidade imensa de dor. Dor que percorreu todo o corpo de Eiro e fez com que qualquer controle que tivesse sobre os líquidos invisíveis desaparecesse, e seu corpo ficou visível para Enka.

— Hmm, essa é uma expressão que gosto de ver. — Ele disse em um tom alegre, enquanto a pressão e a resposta à dor aumentavam muitas vezes. Eiro tentou olhar para Enka com um olhar profundo, tentando pensar em uma forma de sair disso. Mas o som dos cascos se tornou cada vez mais alto e logo chegou à praça.

A próxima coisa que escutou foi o som de passos correndo na direção em que estavam.

— Solte o meu pai, seu pedaço de merda! — Arc exclamou enquanto balançava sua espada na direção de Enka, com uma expressão que Eiro nunca tinha visto no rosto dele, mas assim que o samurai de nível 1 fez isso, sua espada foi segurada por Enka.

— Oh? Então, ele é bom em lavagem cerebral, hein? — Enka disse com um sorriso e depois começou a rir alto enquanto sua mão escorregava de volta para o pescoço de Eiro e o segurou, fazendo com que o rosto do Diabrete se contorcesse ainda mais em dor. — Ele é um Demônio, garoto. Um monstro. Que tal, em vez de seguir essa coisa aqui, você vir comigo? Parece que você já está se dando muito bem com o meu filho. — O homem disse e olhou entre Arc e Felix, que estava descendo das costas de Lugo e encarando Eiro, confuso.

Eiro queria falar e avisar aos dois para saírem, mas sua voz não conseguia sair do seu corpo. Em vez disso, tentou avisar de alguma maneira Nelli sobre suas intenções, mas logo percebeu que ela havia saído na direção do lago. Eiro ficou confuso sobre o porquê de ela ter ido de repente para lá, mas confiava na Náiade. Tinha que haver um bom motivo para ela sair dessa forma.

— E daí que ele é um monstro? Ele é um pai muito melhor do que o pedaço de merda que me ‘criou’ até os meus sete anos. Na verdade, e… ele é o melhor pai que alguém como eu poderia ter. Então, deixe-o ir, seu… — Arc disse, mas, no instante seguinte a mão de Enka soltou a katana e se moveu até a garganta de Arc.

— Hahh… Crianças, esses dias… Como você ousa falar dessa forma com adultos? Ainda mais com o homem a quem você deve sua vida. Que desrespeitoso. — Enka encarou. — Deixe-me te ensinar como um pai de verdade deve agir. E, depois disso, meu próprio filho também será reeducado. — Ele anunciou, mas Arc continuou o encarando.

Com um leve sorriso, o homem passou os dedos pelo peito de Arc.

— Parece que você precisa experienciar a extensão da dor. Deixe-me te mostrar um dos meus favoritos, esse local faz guerreiros crescidos gritarem como crianças sempre que uso neles. — Enka explicou, e pressionou seu dedo no centro do peito de Arc, com uma velocidade incrível. Até parecia haver um certo ritmo nisso, embora Eiro não tivesse certeza do porquê.

Mas aconteceu que… Arc apenas continuou ali, enquanto seu olhar se transformava em um sorriso.

— Huh? Isso é tudo que você consegue fazer? Isso nem faz cócegas. — O garoto zombou, e Enka olhou confuso para ele.

— Como diabos…? — Ele murmurou e tentou novamente atingindo o peito de Arc, como havia feito antes, várias e várias vezes.

Não havia nenhuma notificação de dano aparecendo na frente de Arc, e como ele conseguiu manter a compostura Eiro tinha certeza de que isso não era suficiente para fazer Arc sentir dor de verdade. Eiro ainda não gostava disso, mas era melhor se Enka continuasse preso nisso por agora, contanto que-

— P-Pai! Por favor, pare! Eu… voltarei com você, então deixe-os ir! — Felix gritou e, no mesmo instante, Arc e Eiro pensaram que ele era um idiota.

— Claro que você voltará comigo. — Enka riu. — Não há outra opção além dessa, em primeiro lugar. Isso não significa que eu deixarei esses dois em paz. Especialmente essa criança, ele parece um bom… parceiro de prática. — Enka comentou com um olhar profundo direcionado a Arc, que ainda estava sorrindo.

— Sim, é sobre isso, não acho que essa seja uma boa ideia quanto você está fazendo parecer. Será entediante de qualquer forma, eu não sinto dor, então nenhum de nós ganhará algo com isso. Você não consegue me machucar, se essa deveria ser uma das suas técnicas mais dolorosas. — Arc disse de forma provocativa, e Enka o encarou com um pequeno sorriso. Era óbvio que ele estava caindo nessa, desde que logo soltou a garganta de Eiro e colocou ambas as mãos nos ombros de Arc.

— Espero que você não se arrependa de dizer isso. — Enka murmurou enquanto Eiro tentava se recuperar da dor à qual foi submetido. Era ainda pior por conta da dor que já sentia devido ao término da sede de sangue.

Mas assim que conseguiu mover seu corpo Eiro segurou uma das adagas de sua Tesouraria e a balançou na perna de Enka. Ela penetrou na pele dele através de um dos ferimentos causados por uma das lanças invisíveis, mas de algum modo, em vez de sangue escorrer, chamas dispararam em sua direção e queimaram sua pele.

— Ah, me desculpe, apenas espere mais um pouquinho. Irei até você em um instante. — Enka disse, levantando a mão esquerda para tocar seu brinco. Quando o tempo desacelerou e uma rachadura se formou no brinco, Enka começou a tentar causar dor a diferentes partes do corpo de Arc, embora não parecesse que estivesse o machucando. As notificações de dano que apareciam tinham apenas um ou dois dígitos, afinal.

Quando o tempo acelerou, parecia que o corpo de Arc se arqueou em resposta ao influxo repentino de “dor”, apesar de ainda não parecer ser tão sério. Arc provavelmente estava fingindo agora, mas com uma risada, Enka, cujo ego foi ferido pelo garoto, não percebeu isso e só riu em resposta, virando-se para Eiro depois de soltar Arc, pensando que o garoto colapsaria a qualquer momento.

— Muito bem, tanto sobre ele não sentir dor, né? — Ele perguntou e de repente arregalou os olhos. — … Huh…? — Ele repetiu e olhou para a lâmina que estava sendo enfiada na lateral do seu corpo. Não foi um golpe perfeito, mas, como havia poucos músculos e ossos naquele local, Arc o escolheu para poder perfurá-lo de fato.

— Apenas brincando! — Arc exclamou com uma risada, mas em seguida Enka empurrou o menino para longe, enquanto a lâmina ainda estava grudada nele. E Eiro conseguiu concluir algo sobre a habilidade de chamas de Enka.

Mas enquanto Arc deslizava pelo chão, algo que Eiro não esperava aconteceu.

Felix tentou segurar o seu pai e afastá-lo.

— Por favor, vamos embora. Eles não são páreos para você de qualquer modo, então vamos embora…

Com um grunhido profundo, Enka retirou a katana do seu corpo e a jogou no chão,  com chamas saindo do ferimento e o queimando logo em seguida.

— Quer saber? Beleza. Estamos saindo em breve. Mas, primeiro… — Enka disse e puxou seu filho mais para perto, segurando o garoto na frente do seu corpo. Ele colocou as mãos nas orelhas de Felix. — É hora da punição. — Enka anunciou.

E no segundo em que Eiro escutou isso, ele percebeu que os olhos de Felix ficaram cheios de dor, e Eiro sabia o porquê… Felix começou a gritar, enquanto seu próprio pai colocava Magia de Chamas em seus ouvidos.

Comentários